Raúl Castro torna-se guardião da revolução cubana

General pode assumir formalmente a Presidência de Cuba no fim de semana, com o desafio de manter o regime

Reuters,

19 de fevereiro de 2008 | 10h52

O general Raúl Castro poderá assumir formalmente no fim de semana a Presidência de Cuba, com o desafio de modernizar o sistema socialista que herdou de seu irmão Fidel e garantir a sobrevivência do regime, após a saída de cena da velha guarda.  Após 49 anos no poder, Fidel Castro renuncia Anúncio de renúncia não empolga exilados Artigo publicado no Granma (em português) A trajetória de Fidel Castro  Principais capas do Estadão sobre Fidel  Guterman: como a história julgará Fidel?   'Dificilmente ele deixará de influenciar'  ''É uma mescla de carinho e tristeza"  "Não era possível manter o sistema"   "Cuba será forçada a ser contemporânea"   Você acha que o regime em Cuba mudará? Fidel Castro: herói ou vilão?  Leia cobertura completa da renúncia de Fidel Raúl, de 76 anos, está há quase meio século como número dois de Fidel. Nesta terça-feira, após 19 meses afastado do poder por uma doença não-revelada, o líder cubano anunciou que não aceitará um novo mandato para presidente. A simplicidade e franqueza de Raúl ao abordar os problemas do país despertou em muitos cubanos expectativas de melhorias econômicas durante o um ano e meio que substituiu interinamente Fidel. Com seu vozeirão grave e pausado, o general afirmou que não há soluções mágicas e, sobretudo, que não se afastará nem um milímetro da linha política implantada por seu irmão. Raúl já advertiu que os Estados Unidos estão à espera de uma oportunidade para apagar o socialismo cubano do mapa. Ele foi o ministro de Defesa mais duradouro do mundo. Se Fidel Castro sempre foi movido pelos problemas da humanidade, Raúl parece mais concentrado nas questões internas. Uma de suas prioridades é revigorar a agricultura para colocar mais alimentos na mesa dos cubanos e poupar para o país algumas centenas de milhões de dólares em importações. Ele indicou ainda que pretende acabar com um "excesso de proibições" e, segundo alguns, estaria disposto a simplificar os trâmites migratórios e até liberar o mercado imobiliário e de automóveis. Outras reformas econômicas de maior profundidade, dizem analistas, não serão possíveis enquanto Fidel estiver vivo. "Todos gostaríamos de marchar mais rápido, mas nem sempre é possível", disse Raúl ao Parlamento, em dezembro de 2007.    Desafios e socialismo Visto tanto como um potencial reformista como um rígido militar, Raúl deixou entrever qual será seu estilo de governo: baseado no debate e nas decisões coletivas. Ao apresentar, no ano passado, seu programa de governo, admitiu que os salários são insuficientes, que são necessárias reformas estruturais e que a economia tem que se abrir ao investimento estrangeiro. Alguns meses depois promoveu um debate nacional sobre os problemas da economia cubana em que participaram, de acordo com estimativas, cinco milhões de pessoas – quase metade da população. "São enormes os desafios que temos pela frente, mas ninguém duvida da firme convicção demonstrada por nosso povo de que só o socialismo é capaz de vencer as dificuldades e preservar as conquistas de quase meio século de Revolução", afirmou no final de 2007.     Guardião Esquivo à grande cobertura de imprensa que sempre acompanhou o irmão, Raúl manteve-se em segundo plano. "Sempre fui discreto, essa é minha forma de ser...esclareço que pretendo continuar assim", disse em suas primeiras declarações seguindo-se ao afastamento de Fidel. Apesar da discrição, sua autoridade é enorme. As Forças Armadas Revolucionárias, que comanda desde o triunfo da revolução, em 1959, controlam 60% dos setores mais dinâmicos da economia cubana, incluindo o turismo e a produção de açúcar. Em Cuba, seu histórico revolucionário é conhecido de cabeça até pelas crianças. Esteve ao lado de Fidel em todas as batalhas, desde o ataque ao quartel de Moncada, em 1953, até a guerra de guerrilhas que derrubou em 1959 o ditador Fulgencio Batista. Em meados de junho de 2006, Raúl disse que só o Partido Comunista poderia ser o "digno herdeiro" de seu irmão. A frase repentinamente ganhou sentido em 31 de julho daquele ano, quando Fidel entregou interinamente o poder a ele devido a motivos de saúde. "Em seus méritos, seus atributos, sua firmeza, sua lealdade...reconhecemos Raúl como firme guardião da revolução", declarou Ramiro Valdés, outro dos líderes históricos da revolução.   Líder militar O irmão mais novo dos Castro nasceu em 3 de junho de 1931 na fazenda de sua família em Birán, na província de Holguín, leste de Cuba. Raúl, convertido ao marxismo muito antes de seu irmão, foi visto no passado como um dogmático que aproximou Cuba da União Soviética. Dizem que é um homem simples, que faz piadas com os subordinados, tolera críticas e gosta de passar tempo com seus filhos e netos. Nos quartéis, Raúl é considerado como um homem valente, disposto a se arriscar por seus soldados. Em ao menos duas oportunidade, pareceu estender uma mão a Washington, anunciando que Havana gostaria de solucionar o conflito na mesa de negociações. Os EUA responderam que não negociavam com um "ditador em espera". Em junho de 2007, Raúl enterrou sua mulher, Vilma Espín, ex-guerrilheira e influente líder feminista.

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