Rebelião no Equador deve fortalecer Correa, diz analista

A rebelião policial frustrada da última quinta-feira no Equador, que colocou o país em estado de exceção deve fortalecer o presidente Rafael Correa tanto frente à população quanto a alguns setores do governo, como o Congresso e as Forças Armadas.  

Luiz Raatz, estadão.com.br

04 de outubro de 2010 | 08h22

 

Segundo o professor Paulo Edgard Almeida Resende, coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional da PUC-SP, a posição de Correa tende a se revigorar, mesmo que o que tenha ocorrido no Equador não tenha sido uma tentativa de golpe de Estado.

 

 

Para o analista, a oposição detectou limites para posturas mais radicais, sobretudo em decorrência do apoio recebido de Peru e Colômbia, distantes ideologicamente de Correa. Leia a entrevista

 

O que aconteceu no Equador foi uma tentativa de golpe de Estado?

 

 

Não caracterizo a rebelilão como golpe, se por aí entendemos postulação de alternância no poder, em que pese a mobilização armada. Houve radicalização de um movimento corporativo de reivindicação de benefícios salariais de segmento do aparato policial descontente. O GOE, Grupo de Operações Especiais, tropa de elite da polícia, manteve-se no entanto fiel ao presidente. O movimento, contou com a precavida simpatia de algumas lideranças oposicionistas, que permaneceram na espreita, acompanhando os desdobramentos do impasse, visando a tirar eventual proveito.

Podemos traçar um paralelo com o que aconteceu na Venezuela em 2002? 

 

Em 2002 na Venezuela o golpe se caracterizou como busca direta de alternância no poder. De comum, a mobilização ampla da base de Chavez e de Correa. A instabilidade institucional de décadas em ambos países torna problemática a saída do modelo de democracia liberal, centrado unilateralmente em direitos civis e políticos. Os regimes atuais, estão mais diretamente centrados em direitos socio-econômicos, e igualmente são acusados pela oposição de igual unililateralismo, em sentido inverso. Em ambos países, o IDH), índice de desenvolvimento humano(80º lugar no Equador, mostra-se altamente negativo, com acentuada concentração de renda. No caso do Equador. 

 

Qual o papel da oposição no Equador e quais suas características? 

 

Há encaminhamentos democráticos no atual governo, o que pressupõe espaço para a oposição, embora ela se encontre com respaldo numa minoria composta de elite tradicional e de setores de esquerda, que demonstram decepção com a lentidão em se implantar o desejado socialismo do bem viver. A Confederação de Nacionalidades Indígenas tem manifestado sua discordância com a política de extração de recursos naturais.. Mas os segmentos oposicionistas apontados são de difícil articulação, não falam a mesma linguagem. 

 

Correa ainda tem o apoio do Exército e de outras instituições? 

 

A posição de Correa tende a se revigorar do ponto de vista institucional, no sentido de que a oposição detectou limites para posturas mais radicais, sobretudo em decorrência do apoio externo recebido pelo presidente, incluído o que veio de Peru e Colômbia, em princípio reticentes em apoio à atual gestão do país. As Forças Armadas não são unânimes, mesmo diante da tentativa do governo de ganhar sua confiança com aumentos salariais e cargos de confiança. 

 

Que papel desempenhou o apoio popular nos episódios de quinta-feira? 

 

A mobilização concentrada na praça da liberdade e diante do palácio demonstrou que Correa tem respaldo em setores populares do país, embora terá de abrir canais de negociação com oposicionistas. Tem a seu crédito ter vencido duas eleições presidenciais e obtido a aprovação popular de uma nova Constituição. O programa da coligação que o apoia a Aliança País, fala em socialismo do bem viver, mas não postula a abolição da empresa privada, embora a veja ao lado de formas alternativas de propriedade, a pública, a mista e a familiar.

Como o senhor analisa o papel da OEA, da Unasul e dos EUA na crise? 

 

A OEA saiu do limbo, após os acontecimentos em Honduras e agora igualmente. No caso do Equador, mostrou-se ágil e ofereceu o respaldo esperado à ordem constitucionalmente estabelecida. A UNASUL mostrou que se consolida, com respaldo na cláusula democrática.Os Estados Unidos demoraram menos do que em Honduras para analisar os acontecimentos e se mostraram contrários à ruptura, via golpe de estado.

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