Referendo na Bolívia revela abismo social entre ricos e pobres

Os apelos por autonomiaressoam em alto e bom som no rico Departamento de Santa Cruz,na Bolívia, mas a parte mais pobre dos moradores dessa regiãocontinua a ver no movimento uma tática dos ricos para minar osesforços reformistas do presidente Evo Morales, de esquerda. Santa Cruz aprovou no domingo, em um referendo, uma maiorautonomia do Departamento em relação ao governo central -- umavotação interpretada como uma rejeição das políticas de Moralese um desafio à administração dele. Defensor dos direitos dos indígenas, da reforma agrária edo controle estatal sobre a economia, Morales subiu ao poder em2006 e conta com o apoio da maioria pobre e indígena dapopulação boliviana, mas é cada vez mais impopular nasplanícies ricas do leste do país. O apoio pela autonomia é mais forte na cidade de SantaCruz, onde lojas e restaurantes luxuosos sublinham a relativariqueza dessa área ainda pertencente ao país mais pobre daAmérica do Sul. Mas mesmo ali, o abismo social entre, de um lado, a maioriaindígena e pobre dos Andes e, do outro, os descendentes maisricos dos colonizadores que vivem nas terras baixas salta aosolhos. "Eles são racistas. Eles sempre nos trataram como sefôssemos inferiores", afirmou Johnny Rios, 34, mecânico debicicletas e pai de dois filhos, ao referir-se às classes médiae alta da Bolívia. Rios é um dos muitos que migraram para Santa Cruz a fim deescapar da pobreza extrema existente nas montanhas andinas. E acidade viu sua população dobrar nos últimos 50 anos, de 500 milhabitantes para os atuais 1 milhão. Teoricamente, o referendo de Santa Cruz dá aos líderesconservadores dessa região um controle maior sobre seusrecursos naturais e sobre os sistemas fiscal e judicial. "Finalmente, vamos ficar livres", disse Llubomir Sitic,bacharel em direito que dançava no domingo à noite, em umapraça da região central de Santa Cruz, envolto na bandeiraverde e branca da região e celebrando a vitória do "sim" noreferendo. Morales, aliado próximo do presidente da Venezuela, HugoChávez, um político de esquerda e contumaz crítico dos EUA,disse que a votação foi ilegal e que muitos eleitoresabstiveram-se como sinal de apoio ao governo central. Não se sabe ainda se o presidente negociará com os líderesoposicionistas de Santa Cruz e de outros Departamentos do lesteboliviano que planejam realizar votações semelhantes. Ou sesimplesmente rejeitará os esforços por mais autonomia. AGRICULTURA EM EXPANSÃO Com um território cerca de nove vezes maior que o da Suíça,Santa Cruz é a região agropecuária que mais cresce na Bolívia,crescimento esse alimentado pela soja, o arroz, o milho e ogado, sem contar suas reservas de gás natural. O Departamentoabriga 9 milhões de habitantes, ou cerca de um quarto dapopulação boliviana. A defesa da autonomia encontra forte reverberação nas áreascentrais da capital do Departamento, mas nem tanto quando sepercorre os oito anéis concêntricos em que se divide a cidade. Esse apoio começa a perder força no Quarto Anel, ondesurgem bares vistosos de striptease e bordéis mal disfarçados,e praticamente desaparece no Oitavo Anel, onde crianças jogamfutebol com sacos de plástico cheios de ar ou com bolas demeia. Os simpatizantes de Morales vêem no referendo por autonomiauma tentativa dos ricos de retomar o controle de séculos sobreo país, algo que perderam quando o esquerdista tornou-se oprimeiro presidente indígena da Bolívia. "Essa autonomia beneficia os ricos. Ela não vai ajudarninguém que more para além do Quarto Anel", disse JoaquinAldana, 24, um idoso que mora no Oitavo Anel. Os simpatizantes de Morales e os defensores da autonomiaentraram em choque no domingo, no bairro Plan 3000, no OitavoAnel. Um homem morreu após respirar gás lacrimogêneo disparadopela polícia antimotim e ao menos 18 pessoas ficaram feridasnos embates ocorridos em cinco cidades da região. Em uma delas, pessoas contrárias ao referendo bloquearamruas e impediram as autoridades de montar os locais de votação. Os defensores da autonomia dizem que o referendo lhespermitirá resistir ao governo central de forma mais intensa queantes. Há muito tempo, Santa Cruz marca sua diferença em relaçãoàs terras altas do oeste, mas a votação recente aprofundouainda mais essa rivalidade. Grandes proprietários de terra, quase todos descendentes deeuropeus, ressentem-se da liderança política exercida desde LaPaz, um reduto do apoio indígena a Morales. "Esse é um cenário no qual as pessoas mais trabalhadoras daBolívia desejam ter um controle maior sobre seu futuro", disseDaniel Rosas, um empresário boliviano que vende medicamentosnorte-americanos na região. "Trata-se também de dar às pessoasalgo pelo qual devem trabalhar."

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