Refugiados palestinos embarcam nesta quinta para o Brasil

Grupo de 32 pessoas chega em Guarulhos na sexta-feira; a maioria teme a violência em São Paulo

BBC Brasil, BBC

20 de setembro de 2007 | 11h03

Pouco mais de 30 palestinos que viviam no Iraque deixam nesta quinta-feira, 20, a Jordânia em direção ao Brasil. O grupo de 32 pessoas, formado principalmente de famílias e idosos, é a primeira leva de um total de 117 palestinos que o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) vai estabelecer no país até o fim de outubro.Eles embarcam em Amã no fim desta tarde e chegam ao aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, às 05h30 de sexta-feira. De lá, segundo informações prévias, parte do grupo seguiria para Porto Alegre. Todos os refugiados fugiram do Iraque - a maioria de Bagdá - pouco depois da invasão americana, em 2003, quando milícias xiitas passaram a perseguir e matar palestinos no país.Durante quatro anos, eles enfrentaram as temperaturas extremas do verão e do inverno no deserto da Jordânia, vivendo em tendas no campo de refugiados de Ruweished, a 70 km da fronteira iraquiano-jordaniana.Negociação A ida dos palestinos para o Brasil só foi possível depois de insistência de Brasília em relação à Autoridade Palestina, que prefere ver concentrados seus emigrantes em determinados países, como Canadá, Estados Unidos e Austrália.Para o governo palestino, isto facilitaria a volta dos refugiados no momento da eventual criação de um Estado palestino. "Mas o governo brasileiro não desistiu. Disse à Autoridade Palestina que lamenta muito, mas que este é um problema humanitário, que é mais importante do que o lado político", afirmou Anne-Marie, do Acnur.Parte dos palestinos ficará em São Paulo, e outra parte, para o Rio Grande do Sul. O Acnur e o Conare têm a função de facilitar a adaptação dos refugiados no Brasil, para evitar o que ocorreu com um grupo de afegãos que viviam no Irã em 2001 e se estabeleceu em Porto Alegre. Devido à diferença cultural, a maior parte dos 25 refugiados voltou para o Afeganistão depois de algum tempo. O Acnur calcula que 15 mil palestinos ainda vivem no Iraque. Segundo a ONU, pelo menos 186 foram assassinados nos últimos anos.Quando os últimos refugiados palestinos deixaram Ruweished em rumo ao Brasil, o campo será fechado. Esperança A notícia de que haviam sido aceitos pelo Brasil - e não por um país de língua inglesa, como o Canadá ou a Nova Zelândia, destino de outros refugiados - causou felicidade, mas também certa apreensão no grupo."Alguns revelaram medo em ir para São Paulo, porque ouvem dizer que é uma cidade muito violenta", disse à BBC Brasil Anne-Marie Deutschlander, representante do Acnur que acompanhou a trajetória dos palestinos desde 2003."O argumento que eu dou para eles é muito simples: 'Vocês esqueceram que vieram de Bagdá?'" As orientações sobre o Brasil que os palestinos começaram a receber há três meses, quando o Acnur anunciou a transferência, parece ter amenizado o receio de pelo menos alguns."Isso aqui é Guantánamo-Ruweished. Nós não podemos sair para nada, apenas se estivermos doentes e, mesmo assim, só com escolta policial", disse o ex-motorista de táxi Ahmed Mostafa Mahmoud, que mora no campo com a mulher e dois filhos - incluindo Maan, de três anos, que nasceu no campo.O pouco contato que os refugiados têm com o mundo exterior ocorre por meio da televisão por satélite e telefones celulares pré-pagos, que parentes e amigos ajudam a abastecer com créditos quando vão visitá-los."Nós não fazemos nada aqui e isso durou quatro anos. Estamos todos muito cansados deste lugar. Praticamente já conheço estes livros de cor", diz o professor de língua Árabe Safah Ghazi Kamel, 32, mostrando os livros de poesia que conseguiu carregar com ele quando fugiu.O professor nasceu em Bagdá e viveu sua vida toda na capital iraquiana, mas pretende se estabelecer no Brasil de forma definitiva, onde vai morar a partir de outubro e quer dar aulas de árabe para brasileiros em São Paulo. "Eu não tenho saudades do Iraque. As pessoas de lá me odeiam e eu não quero voltar."

Tudo o que sabemos sobre:
PalestinosrefugiadosBrasilIraque

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.