Relatos indicam caça a jovens em Iguala

Relatos indicam caça a jovens em Iguala

Moradores da avenida para onde estudantes de Ayotzinapa foram levados falam de perseguição, tiros, morte e transporte de corpos

Lourival Sant'Anna, enviado especial, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2014 | 17h04


IGUALA, MÉXICO - Eram 21 horas daquela sexta-feira, 26 de setembro. “Eu estava chegando em casa quando ouvi um monte de tiros”, diz uma moradora da Rua Álvarez, perto da esquina com a Perimetral Norte, uma avenida que margeia a cidade de Iguala. “Fechamo-nos aqui por muito tempo, foi feio o tiroteio.”

Ela e outros vizinhos estimam que tenha durado mais de uma hora. Em um vídeo que vários moradores do bairro têm em seus celulares, ouve-se a voz de um homem gritando: “Desçam do ônibus”. E uma moça respondendo: “Baixem primeiro suas armas”. Segue-se o som de disparos. Não se vê nada na noite escura.

Quando os homens - que não se sabe se eram apenas policiais ou sicários do cartel de narcotraficantes Guerreros Unidos - abriram fogo, muitos jovens desceram correndo. Alguns pularam muros das casas, depois de bater desesperadamente nas portas pedindo para entrar. 

Os policiais e talvez pistoleiros foram ao seu encalço. Um deles, mais tarde identificado como Julio César Mondragón, de 22 anos, foi cercado em uma rua atrás da Perimetral. Segundo sobreviventes, ele foi o único que enfrentou os policiais, chegando a cuspir em um deles. Seus olhos foram arrancados com ele ainda vivo. Mondragón tinha uma filha de 15 dias.

Os três ônibus que traziam os estudantes de Ayotzinapa, a 250 quilômetros de Iguala, foram cercados nesse cruzamento. A rua amanheceu bloqueada por policiais no dia seguinte e um dos ônibus cravejado de balas foi visto por moradores. 

Os estudantes fugiam do Zócalo, a praça central da cidade, onde pretendiam perturbar a festa da então primeira-dama, María de los Ángeles Pineda, à frente do DIF, órgão de assistência social municipal. Mas foram reprimidos pela polícia.

A Rua Álvares era a única rota de fuga possível, já que as outras ruas são estreitas demais para ônibus fazerem curvas. Em uma rua perpendicular à Álvares, perto do cruzamento, há o amplo pátio de um lava jato e depósito de bebidas, que, segundo moradores, funciona como base do braço armado do cartel, conhecido como Los Peques. “Por isso eles chegaram tão rápido”, explica um morador.


De acordo com o Ministério Público, confissões de membros do cartel Guerreros Unidos que foram presos indicam que o então secretário de Segurança de Iguala, Felipe Flores, encarregado pelo prefeito José Luis Abarca de impedir que os estudantes estragassem a festa de sua mulher, “entregou-os” aos traficantes. 

Um morador da Rua Álvares diz ter visto caminhonetes da Polícia Municipal passando vazias e voltando com as carrocerias cheias de corpos. Sicários presos afirmaram que os corpos foram queimados no lixão de Cocula, a 20 quilômetros de Iguala. Dali a polícia retirou restos carbonizados e em decomposição, que foram enviados na terça-feira para a Universidade de Innsbruck, na Áustria, centro de referência em identificação de cadáveres. As esperanças de que tenha algum êxito são pequenas. 

Segundo o procurador-geral da República, Jesús Murillo Karam, somente uma rótula e outro pedaço de osso poderiam ter o DNA examinado. Os outros fragmentos estão muito queimados para que seja possível fazer uma leitura do código genético.

Murillo Karam alertou na semana passada que os exames não garantem a identificação dos desaparecidos. “É claro que pode ser uma possibilidade”, disse ele. Os testes, que podem durar meses, devem ser confirmados por outro laboratório de uma universidade espanhola. 

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