Religioso Fernando Lugo é eleito presidente do Paraguai

Ex-bispo põe fim à hegemonia do Partido Colorado ao vencer a rival Blanca Ovelar por 10 pontos porcentuais

Agências internacionais,

21 de abril de 2008 | 00h08

O Tribunal Superior de Justiça Eleitoral do Paraguai (TSJE) confirmou oficialmente a vitória do ex-bispo Fernando Lugo nas eleições presidenciais realizadas neste domingo, 20, com uma vantagem de dez pontos sobre a governista Blanca Ovelar.  A eleição de Lugo, candidato da oposição pela Aliança Patriótica para a Mudança (APC, na sigla em espanhol) foi confirmada pouco depois das 21h30 (22h30 de Brasília).   Veja também  Multidão sai às ruas para comemorar vitória de Lugo  Nicanor Duarte admite responsabilidade por derrota governista  Rivais reconhecem vitória de Lugo nas eleições paraguaias  Vida dedicada ao sacerdócio    Lugo conseguiu uma vitória inquestionável nas eleições, conquistando 40,83% dos votos. A candidata governista Blanca Ovelar, do partido que estava há 60 anos no poder do país, ficou com 30,71%. O ex-general Lino Oviedo ficou em terceiro, com 21,98% dos votos. De acordo com o Tribunal Superior de Justiça Eleitoral do Paraguai, a participação foi de 65,7%, de um total de 2,86 milhões de eleitores.   Enrolado em uma bandeira paraguaia, o monsenhor Lugo (atualmente sob suspensão temporária do Vaticano) saudou centenas de partidários que festejavam em frente à Hotel Granados Park, no centro de Assunção. "Escrevemos hoje um novo capítulo da história política da nossa nação", afirmou o religioso. "Vamos fazer com que o Paraguai seja conhecido por sua honestidade e não por sua corrupção."   O bispo também deu um recado aos cidadãos que emigraram para o exterior ao longo dos últimos anos (mais de 10% do total da população), dizendo que conta com eles para construir "um novo país". Lugo agradeceu a seus partidários, afirmando que eles eram responsáveis "pela alegria da maior parte do povo" paraguaio. Na véspera, ele havia profetizado em tom pastoral que a vitória seria sua: "O domingo é o dia da ressurreição. E o Paraguai ressuscitará nas urnas."   Já a sede do Partido Colorado permanecia praticamente vazia. No local, Blanca, ex-ministra da Educação do presidente Nicanor Duarte, reconheceu a derrota com pouco mais de metade dos votos apurados. "As projeções estão avançadas e o resultado é irreversível. Reconhecemos a derrota", afirmou a candidata com a voz embargada. "Quero agradecer todos os votos nesse momento cívico que vivemos", disse. Logo em seguida, o ex-general Lino Oviedo, da União Nacional de Cidadãos Éticos, também admitiu que havia perdido. "Tenho de aceitar as regras democráticas. Estou contente porque houve troca (no governo), mesmo que não seja comigo. Não vou ser egoísta", disse o ex-militar, que na década de 90 tentou dois golpes de Estado e nos últimos anos optou pela via das urnas para conquistar o poder. Ele também pediu que o novo governo atue sem discriminação e "sem gente corrupta".   Os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, da Bolívia, Evo Morales, do Chile, Michelle Bachelet, da Argentina,Cristina Kirchner, e Uruguai, Tabaré Vászquez, parabenizaram Lugo ainda na noite de domingo   Relações com o Brasil   O ex-bispo, que é adepto da Teologia da Libertação e tomou cuidado para não ter sua imagem ligada a líderes populistas latino-americanos, como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, prometeu uma reforma agrária e quer renegociar os acordos energéticos que o país tem com Argentina e Brasil. "Os cidadãos humildes e simples são os responsáveis por esta mudança, para que nosso país não seja sempre lembrado por sua corrupção, por sua pobreza, e sim por sua honestidade, por sua eficiência", disse Lugo pouco depois de conhecer os primeiros resultados oficiais.   A promessa de Lugo de renegociar os acordos energéticos causou apreensão no Brasil e na Argentina, especialmente pela possibilidade de que aumentem os preços da eletricidade que o Paraguai vende em duas represas binacionais, no caso do Brasil, em Itaipu.  De acordo com os termos do Tratado de Itaipu, assinado entre Brasil e Paraguai em 1973, a energia gerada pela usina deve ser dividida igualmente entre os dois sócios. Mas o Paraguai utiliza apenas cerca de 5% dessa energia, quantia que é suficiente para suprir 95% de sua demanda. O excedente é vendido - a preço de custo - ao Brasil, onde 20% da energia elétrica consumida vem de Itaipu.   A discussão em torno do tratado de Itaipu não é o único assunto que coloca o Brasil em destaque nesta campanha eleitoral no Paraguai. A forte presença de brasileiros na produção de soja e carne do Paraguai (estima-se que sejam 60% do total de produtores) é outro tema de destaque.  Uma das críticas à lavoura de soja, repetida em diferentes setores no Paraguai, é a de que não gera emprego para os paraguaios.   A presença do Brasil nesta campanha política incluiu o destaque para a quantidade crescente de paraguaias que atravessam a fronteira para ter um filho no Brasil ou na Argentina. Essas mulheres fazem isso como uma forma de se radicar nesses países e ter mais oportunidades para elas e suas famílias. O último debate antes das eleições mostrou ainda uma reportagem com adolescentes que estudam em escolas no lado brasileiro da fronteira. Depois de cantar o Hino Nacional brasileiro, elas responderam que não querem ser paraguaias.   "Herança maldita"   Assim que tomar posse, em agosto, o novo presidente paraguaio terá de assumir a complicada herança de seus antecessores, que envolve problemas sociais - como altos índices de pobreza, infra-estrutura precária e uma enferrujada máquina estatal. Um dos principais desafios de Fernando Lugo será lidar com a questão dos paraguaios que abandonam o país para fugir da pobreza. Em média, 67 mil pessoas - o equivalente a mais de 1% da população - emigram para o exterior todos os anos, em busca de melhores condições de vida. Deixar o país é uma das alternativas para não integrar o contingente de pobres, que representam 35% da população, segundo dados do Departamento Geral de Estatísticas e Censos. Desse total, 19,3% vivem na chamada "pobreza extrema". O dado, de 2007, mostra uma piora na situação em relação a 2005, quando o índice de pessoas vivendo nessa situação era de 15,46%. Outra agravante é o fato de que quase metade da população paraguaia vive em áreas rurais, o que dificulta o acesso desses habitantes aos serviços médicos e ao sistema educacional. Para complicar, dos 64 mil quilômetros de estradas que cortam o país, somente 4 mil quilômetros estão asfaltados. O PIB per capita - sem levar em conta o custo de vida - é de apenas US$ 1.928, o terceiro mais baixo de toda a América do Sul, atrás apenas de Bolívia e Guiana. No entanto, o índice é o mais alto da história do Paraguai e a expectativa é que neste ano ele ultrapasse US$ 2 mil.  A economia paraguaia vem registrando um constante aumento do PIB, que no ano passado cresceu 6,4%. Para 2008, a estimativa do Ministério da Fazenda é de 5%. O crescimento está sendo estimulado principalmente pelo aumento da produção da soja. Lugo também terá de enfrentar o problema da máquina estatal, que, desde a volta da democracia, não parou de crescer, alimentando um Estado clientelista. Entre 1989 e 2007, o número de funcionários públicos saltou de 80 mil para 240 mil (4% do total da população). Na semana passada, para conseguir mais apoio, o presidente Nicanor Duarte aumentou o salários do funcionalismo - uma carga adicional para a próxima administração.   (Com Ariel Palácios, de O Estado de S. Paulo, Reuters, BBC Brasil e Efe)   Matéria atualizada às 9h45.

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