Renúncia de Fidel não representa fim do comunismo em Cuba

Especialistas descartam conflitos e afirmam que saída aumenta chances do fim de embargo americano

Anne Warth, da Agência Estado,

19 de fevereiro de 2008 | 15h27

A renúncia de Fidel Castro não representa o fim do regime comunista em Cuba, avaliam especialistas consultados pela Agência Estado. A saída do ícone da revolução aumenta as chances do fim do embargo que os Estados Unidos impuseram contra o país, mas a solidez da estrutura social cubana deve impedir a eclosão de conflitos sociais como os vividos pelo Haiti. Fidel Castro renuncia à PresidênciaEmbargo dos EUA a Cuba continua sem Fidel Raúl Castro torna-se guardião da revolução A trajetória de Fidel Castro  Guterman: como a história julgará Fidel?   'Cuba será forçada a ser contemporânea de seu tempo'  'Não era possível manter o sistema com o Exército na rua''É uma mescla de carinho e tristeza''Dificilmente Fidel deixará de influenciar'  "Não haverá nenhuma grande ruptura. O que deve acontecer é a continuidade de algo que já havia sido indicado há dois anos, com a posse de Raúl: um debate mais amplo sobre os rumos da revolução, mas não um retorno a um estado pré-revolucionário", disse o professor e sociólogo da Escola de Comunicação e Artes USP, Laurindo Leal Filho. Para ele, a saída de Fidel vai permitir a consolidação de figuras do governo que já vinham despontando como possíveis dirigentes do país. "Embora seja um ícone do século 20, a saída de Fidel não tem relação com mudanças objetivas e concretas. É mais uma questão política e cultural." Para o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Paulo Pereira, a renúncia de Fidel é um fator que desestabiliza o país, pois muito do que o regime representa está ligado à figura do líder da revolução. Mas, ao menos no curto prazo, não deve haver grandes mudanças na forma como Raúl Castro deve governar o país. "No médio e longo prazos, vamos saber se o regime se sustenta sem a figura aglutinadora de Fidel. Não sabemos exatamente o que corre por baixo da estrutura social cubana", disse ele. É difícil prever que caminho Cuba seguirá no futuro, mas, para os analistas, a ênfase do governo na educação e na saúde pode impedir ou minimizar conflitos sociais, como a eclosão de gangues e do tráfico de drogas. Sem a grandeza da economia chinesa, Cuba deve continuar a ter no turismo grande parte de suas divisas. "Embora os cubanos saibam que não estão no melhor dos mundos, eles sabem também que o regime anterior era pior e têm um exemplo disso ao lado, como o Haiti. Apesar da universalização da educação e da saúde, existem demandas por bens de consumo e artigos de primeira necessidade, e esse é o debate de hoje", defende Laurindo. A relação entre Cuba e Estados Unidos deve mudar, lembram os professores. Embora já tenha tido um papel muito mais importante no contexto internacional, Cuba ainda será uma "pedra no sapato" dos EUA, muito mais no sentido histórico do que estratégico, cita Pereira. "A abertura pode auxiliar na estratégia de segurança dos Estados Unidos, mas haverá outros problemas, como o aumento da imigração ilegal. Há uma geração nova que não participou do processo revolucionário e que tem outros tipos de ambição com a perspectiva da liberalização", exemplifica. Já para Laurindo, uma eventual vitória dos democratas nas eleições norte-americanas deste ano pode dar início a um processo gradual que resulte no fim do bloqueio. "Sem a figura de Fidel e com o poderio dos EUA abalado por uma crise econômica, as negociações devem ser agilizadas", finaliza.

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