Ruralistas reúnem cerca de 250 mil pessoas contra Cristina

Segundo agricultores, 'o governo dos Kirchners é o obstáculo para o crescimento do país'

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

25 de maio de 2008 | 17h48

As lideranças das quatro maiores associações agropecuárias do país anunciaram neste domingo, 25, - durante uma mega-manifestação que reuniu cerca de 250 mil pessoas contra a presidente Cristina Kirchner na cidade de Rosario - que se não conseguirem um acordo com o governo nesta segunda, na terça retomarão as marchas de protesto e os piquetes nas estradas. A Sociedade Rural, Federação Agrária, a Confederações Rurais Argentinas (CRA) e a Confederação Intercooperativa Agropecuária (Coninagro) exigem o fim dos aumentos sobre as exportações agrícolas e das restrições sobre as exportações de carne e trigo aplicados pelo governo. No entanto, a presidente resiste à idéia de ceder às pressões dos ruralistas e dar marcha a ré em suas medidas. Os organizadores da manifestação realizada em Rosario (o maior porto escoador de cereais do país) afirmaram que o evento ruralista contou com 300 mil pessoas. Avaliações mais moderadas, no entanto, sustentavam que ali estavam entre 200 e 250 mil manifestantes, o que constituiu a maior concentração popular realizada contra um governo desde a volta da democracia, em 1983. Desta forma, a manifestação ruralista superou amplamente o comício realizado simultaneamente pela presidente Cristina, que em Salta não aglutinou mais de 60 mil pessoas dispostas a demonstrar seu respaldo ao governo. Os analistas ressaltam que a magnitude da manifestação ruralista servirá para fortalecer a imagem do setor agropecuário nas duras negociações que terá com o governo nos próximos dias. Nunca antes, ao longo da meia década em que o casal Cristina e Néstor Kirchner está no poder (Kirchner tomou posse no dia 25 de maio de 2003 e foi sucedido por Cristina no 10 de dezembro passado) um setor econômico havia desafiado o poder presidencial com sucesso. Segundo os analistas, os ruralistas transformaram-se no primeiro setor com capacidade de colocar limites à denominada "política kirchnerista". Eduardo Buzzi, líder nacional das Federações Agrárias, declarou durante a manifestação em Rosário que o "o governo dos Kirchners é um obstáculo para crescimento do país". A manifestação de Cristina esteve esvaziada, apesar do governo ter mobilizado o aparado do Estado para levar milhares de manifestantes até Salta, além de organizações sindicais e piqueteiros (grupos de desempregados que recebem subsídios especiais do governo) e cantores famosos para atrair o público.  Diversos governadores, que haviam prometido estar presentes, não compareceram, por temor de ser alvos de manifestações das associações de agricultores em suas respectivas províncias. Tampouco foram à Salta nem a presidente chilena Michelle Bachelet nem o presidente boliviano Evo Morales, que haviam sido convidados por Cristina. No discurso, visivelmente desanimada, a presidente disparou farpas aos ruralistas ao afirmar que é preciso "deixar de lado interesses de setores" e que existiam produtores que atualmente possuem "uma lucratividade que nunca antes haviam visto". O motivo oficial da manifestação de Cristina era o de celebrar os 198 anos do 25 de maio (uma das duas datas nacionais do país) de 1810, que marca o início do processo de independência da Argentina. Negociações As lideranças ruralistas e representantes do governo se reunirão nesta segunda no fim da tarde para tentar avançar nas negociações. O encontro foi confirmado no fim de semana pelo Chefe do Gabinete de Ministros, Alberto Fernández. O encontro promete ser tenso, pois os ruralistas exigem celeridade nas discussões, que na quinta-feira passada foram encerradas sem perspectivas de avanço. Alfredo De Angeli, considerado o mais carismático líder da mobilização ruralista, que comanda a Federação Agrária da província de Gualeguaychú, na província de Entre Ríos, abriu a manifestação em Rosário com um alerta para a presidente: "se amanhã não aparecerem soluções, na terça-feira começam os protestos! Vamos fazer piquetes nas estradas por culpa do governo! A senhora, senhora presidente, é que não sabe como administrar o país". De Angeli ficou famoso nos últimos dois meses por realizar piquetes na estrada Nacional Número 14, mais conhecida como a "Rodovia do Mercosul", por onde passa a maior parte das mercadorias comercializadas entre o Brasil e a Argentina. As principais lideranças da oposição acompanharam em Rosario a mobilização dos ruralistas. Elisa Carrió, líder da coalizão centro-esquerdista Coalizão Cívica, afirmou que "a presidente tem dois dias para pacificar o país". Um dos principais colunistas políticos do país, Joaquín Morales Solá, sustentou que "a luz no fim do túnel parece que está apagada". A Igreja Católica argentina expressou sua preocupação pela crise entre o governo e os ruralistas. O bispo de Salta, Antonio Cargnello, pediu - durante o Tedeum realizado pela data nacional - que o país "não caia na lei da selva". O bispo, na frente da presidente, presente na cerimônia religosa, fez um apelo para que os dois setores "recuperem o diálogo".

Tudo o que sabemos sobre:
ruralistasArgentinaCristina Kirchner

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.