Rússia já entregou baterias antiaéreas à Síria, diz Assad

Enquanto Europa estuda armar rebeldes, regime recebe armamentos, mesmo com pressões da comunidade internacional

30 Maio 2013 | 18h59

Andrei Netto - Correspondente / Paris

Dois dias depois de o vice-chanceler da Rússia, Sergei Ryabkov, prometer fornecer à Síria sistemas de defesa antiárea como retaliação ao apoio político da Europa aos rebeldes, o ditador Bashar Assad anunciou ontem já ter a posse dos equipamentos. A suposta entrega da carga revela a escalada militar da guerra civil antes da conferência internacional de Genebra que pretende chegar em junho a um acordo para o fim do conflito, que já matou mais de 80 mil pessoas em 26 meses.

A confirmação da entrega das armas foi feito por Assad em entrevista à rede de TV libanesa Al-Manar, ligada ao movimento armado xiita Hezbollah, que por sua vez apoia o regime sírio. A entrevista foi ao ar na noite de ontem, mas seus principais trechos foram antecipados pelo jornal libanês Al-Akhbar. “A Síria recebeu uma primeira carga de mísseis antiaéreos russos S-300. O resto da carga chegará em breve”, confirmou o ditador.

Questionado sobre o papel do Hezbollah nos confrontos mais recentes, Assad confirmou a ligação com o grupo, mas não foi taxativo em reconhecer que os jihadistas participam da guerra do outro lado da fronteira, em território sírio. “A Síria e o Hezbollah fazem parte do mesmo eixo”, disse ele, ponderando a seguir: “O Exército sírio é o que luta e que comanda os combates contra os grupos armados, e este combate continuará até que todos os terroristas sejam eliminados”.

Na terça-feira, um dia depois de a União Europeia suspender o embargo ao fornecimento de armas aos rebeldes da Síria, Riabkov havia afirmado que a Rússia pretendia fornecer mísseis S-300 para baterias antiáreas do regime, com o objetivo de “estabilizar” o conflito e “dissuadir” interventores internacionais.

Em resposta, o ministro israelense de Energia, Sylvan Shalom, afirmou que Israel pode voltar a intervir com bombardeios ao país vizinho, mas apenas se as armas forem usadas contra seu país. “Há anos a Síria dispõe de armas estratégicas. O problema se colocará se houver risco de essas armas caírem em mãos de outros e serem usadas contra nós”, explicou Shalom. “Nesse caso, nós deveríamos agir.” 

Cenário sombrio. A corrida armamentista na Síria é mais um dos elementos que preocupa a Comissão Internacional de Inquérito para a Síria das Nações Unidas. A comissão prepara para o dia 5 a divulgação de um relatório “muito sombrio”, segundo afirmou ao Estado o coordenador da comissão, o diplomata brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, sobre os crimes de guerra cometidos por ambos os lados.

Para Pinheiro, o eventual fornecimento de armas pela Europa aos rebeldes abre o risco de que o material bélico acabe nas mãos de radicais islâmicos. “Nossa preocupação é de que isso possa fortalecer grupos menos imbuídos dos valores da democracia e dos direitos humanos”, disse Pinheiro. “Há vários grupos que têm como objeto a transformação da Síria em um califado, a dominância de uma religião sobre as outras. No início da rebelião, os valores democráticos estavam presentes. Agora foram recobertos.”

Pinheiro ainda tem esperança na conferência de Genebra, em preparação por Rússia e EUA, mas admitiu temer que o eventual fornecimento de armas aos revolucionários pela UE acabe fortalecendo o conflito e alimentando o poder de grupos jihadistas. “O sectarismo, a radicalização e o aumento das violações de direitos humanos deixam de lado os valores da democracia.”

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