Miraflores Palace/Handout via REUTERS
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Sair da OEA não é estratégia para garantir paz na Venezuela, alerta entidade da ONU

Alto comissário para Direitos Humanos da organização, Zeid Ra’ad Al Hussein, manifesta preocupação com rejeição do presidente Nicolas Maduro a organismos internacionais

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2017 | 06h46
Atualizado 01 Maio 2017 | 10h19

GENEBRA - Deixar a Organização dos Estados Americanos (OEA) não é uma estratégia para promover a estabilidade da Venezuela. Em uma declaração em Genebra, o alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al Hussein, alertou para a crise venezuelana como uma das piores hoje no cenário internacional, mas deixou claro que está preocupado com a decisão do governo de Nicolas Maduro de abandonar instituições internacionais.

"Vemos medidas como a supressão de vozes dissidentes e isso não fez nada para acalmar a crise", disse, sobre o caso de Caracas. "Vimos uma escalada de violência, a ideia da distribuição de armas, uma falta total de confiança e a ameaça de desengajar da OEA não é uma estratégia para ter prosperidade, paz e estabilidade", alertou.  

Na semana passada, Maduro anunciou que iria se retirar da OEA, sob a justificativa de que o órgão seria um instrumento de pressão do governo dos EUA, principalmente depois que chanceleres da região deram sinais de que poderiam tomar medidas contra Caracas. A oposição venezuelana se recusou a aceitar a retirada do país do organismo continental. 

Mas a rejeição da Venezuela em relação às entidades internacionais não se limita à OEA. O Estado revelou na semana passada que o governo de Nicolás Maduro proíbe a entrada no país de representantes de direitos humanos da ONU, impedindo uma avaliação por parte da entidade internacional sobre a situação em Caracas. Nas últimas semanas, a chancelaria venezuelana tem protestado em cartas sigilosas à cúpula das Nações Unidas contra as cobranças que vem sendo alvo por parte da entidade. 

Mas, além da troca de críticas, a situação também levou a um total fechamento das fronteiras aos representantes da ONU.  Em junho de 2016, o Estado revelou que a recusa já havia ocorrido em quatro ocasiões desde 2014. "O que exatamente vocês estão escondendo de nós?", questionou Hussein. Ele não se recusa a assumir um papel de mediação da crise na Venezuela, mas admite que ficaria "chocado" se Caracas fizesse esse pedido. 

Segundo ele, o governo venezuelano já questionava o trabalho da ONU desde 2014, quando a entidade criticou a "politização do Judiciário e a pressão sobre juízes". "Eu deixei claro que estava disposto a visitar Caracas. Mas nenhum convite jamais foi feito. Se esse convite vier, estou disposto a ir", declarou. 

Para Hussein, violência de manifestantes "não deve servir como base para novas violações por atores governamentais". "Precisamos evitar esse caminho. Estamos vendo excesso do uso da violência, supressão de protestos e destruição de sociedade civil", alertou. Segundo ele, a ONU está "preocupada com a ideia de que uma demonstração de força pelo Estado possa resolver o problema" na Venezuela. 

Com a nova onda de violência e protestos, a esperança das Nações Unidas era a de poder voltar a entrar no país, com a missão de tentar aproximar a oposição e o governo e abrir canais de diálogo. Outro propósito era o de examinar a situação de direitos humanos no país. 

Mas o acesso tem sido negado. De acordo com o Escritório do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, um acompanhamento da situação está ocorrendo a partir do escritório da entidade no Chile. "Nosso escritório regional solicitou múltiplas vezes visto, o último sendo em outubro de 2016, sem resposta", indicou Ravina Shamdasani, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos.

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