Lourival Sant'Anna/Estadão
Lourival Sant'Anna/Estadão

Saques mantêm escola de Ayotzinapa

Líder estudantil diz que ativistas de Guerrero ‘tomam’ de empresas para ‘se alimentar’ e pressionar o governo mexicano a ouvi-los

Lourival Sant’Anna, enviado especial, O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2014 | 22h47


AYOTZINAPA, MÉXICO - Os empresários mexicanos foram se queixar na sexta-feira ao governo dos prejuízos causados pelos saques e roubos de caminhões na atual onda de manifestações desencadeada pelo desaparecimento de 43 estudantes, em 26 de setembro, no Estado de Guerrero. O Estado encontrou na Escola Normal de Ayotzinapa, onde estudavam os jovens desaparecidos, parte desse “butim”.

Vinte e seis caminhões pequenos de empresas de alimentos (salgadinhos, biscoitos e laticínios), 20 caminhões grandes, incluindo alguns da Coca-Cola e da Pepsi, uma carroceria de caminhão-tanque para transporte de combustível e um caminhão-pipa estão espalhados pelos campos de futebol e quadras da escola, situada em um povoado a 16 quilômetros da capital de Guerrero, Chilpancingo.

Há ainda 26 ônibus, alguns alugados, outros confiscados, usados para transportar estudantes, familiares, professores e simpatizantes em suas marchas diárias por todo o país, para protestar contra o desaparecimento dos jovens. Segundo a Procuradoria-Geral da República, eles foram mortos por policiais municipais e sicários do cartel do narcotráfico Guerreros Unidos, a mando do prefeito deposto de Iguala, José Luis Abarca. Preso no dia 4, com sua mulher, María de los Ángeles Pineda, ele queria evitar que os jovens atrapalhassem a apresentação de resultados do trabalho da primeira-dama à frente da assistência social do município.

Um dos dirigentes do Comitê Estudantil da escola, Eric Manuel Rodríguez, de 20 anos, reconheceu e justificou os saques e confiscos: “Em razão do fato de que agregamos muitíssima gente, em torno de 3 mil, 4 mil pessoas, é muito difícil mantê-las”, disse ele, referindo-se à romaria de militantes de esquerda que vêm prestar apoio, e também de pessoas comuns, da região, atraídas pela comida de graça.

“É por isso que se tomam alguns carros de produtos, para alimentação, sobretudo, e alguns foram tomados para pressionar o governo a nos ouvir”, continuou Rodríguez. “Não tomamos de quem não tem. Afetamos as grandes empresas transnacionais. É como tirar um pelo de um gato.”

Doutrina. Com 520 alunos, todos homens, que dormem e se alimentam na escola, em regime integral, o câmpus de Ayotzinapa é um centro não só de formação de professores para escolas rurais, mas também de mobilização e de doutrinação revolucionária. Em todo o câmpus, estão espalhados murais de Che Guevara, Marx e Lenin, com mensagens do tipo: “Oprimido e explorado a quem seus filhos educarás e serás guia de sua libertação”. Embora a escola seja sustentada com verbas públicas, há muitas mensagens colocando o Estado como o inimigo a ser derrotado.

“Efetivamente, desde o primeiro ano, se ensina a verdadeira realidade, não a da política suja que engana as pessoas”, explica Rodríguez. “Ensinam-nos a abrir os olhos para vermos como o sistema político está nos afetando. É uma maneira de exigir a liberação do Estado. Nós, que estamos no 2.º ano, damos aos do 1.º ano a orientação política que nos deram, e assim, sucessivamente, vai-se recebendo essa conscientização política.” Ele diz que há 16 escolas de formação de professores rurais no México, e todas seguem a mesma doutrina.

Mais conteúdo sobre:
AyotzinapaMéxicomassacre

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.