Sargento morto no Haiti voltaria ao Brasil no sábado

Na hora do tremor, Davi Ramos de Lima fazia ronda com três companheiros, todos mortos

Maíra Teixeira e Wanise Martinez, estadao.com.br

13 de janeiro de 2010 | 16h22

Familiares do 2º sargento Davi Ramos de Lima, de 37 anos, morto ontem no terremoto em Porto Príncipe, capital do Haiti, na América Central, lamentam a morte do oficial, mas afirmam que ele morreu feliz. Lima voltaria ao Brasil, em definitivo, no próximo sábado, 16. Na hora do abalo que devastou a cidade, ele fazia a ronda noturna com mais três companheiros, todos mortos.

 

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Lima, natural de Garanhuns (PE), era casado e vivia com Fernanda, mais os dois filhos do casal, um de 7 anos e um bebê de 4 meses, e a enteada de 14 anos. Os familiares de Davi contam que ele estava programando uma série de passeios para fazer no país assim que chegasse. Ele planejou passear pelo Estado de São Paulo, ir à praia e, por fim, voltar de vez para Lorena, em São Paulo, onde morava. Antes dos passeios, o sargento teria de passar por dois dias de exames, para evitar as propagação de possíveis doenças tropicais trazidas do país caribenho.

 

O irmão de Davi, Ari Lima, de 40 anos, que vive em João Pessoa (PB) lembra que ele estranhava a riqueza ostensiva de Porto Príncipe. "Ele não se conformava em ver lugares absolutamente ricos ao lado da pobreza extrema dos haitianos comuns. E se perguntava como os ricos podiam ostentar tanto em meio à miséria do país", lembra Ari.

 

Lima servia ao Exército há 15 anos e começou a atividade fazendo a Escola de Sargentos, em Três Corações (MG). "A gente está muito triste, mas é reconfortante saber que ele morreu fazendo uma coisa que gostava muito e dando uma enorme contribuição para a paz de uma nação devastada pela miséria e pela guerra."

 

Ele discordava de uma orientação dos superiores, segundo o irmão conta. "Eles diziam que o Davi não podia se envolver com as pessoas que ajudava, mas ele não consegui, pois gostava de ajudar o próximo, morreu fazendo isso."

 

"O sonho de infância do Davi era servir o Exército. Meu pai é subtenente reformado e ele sempre quis seguir os passos dele. Quando criança tinha até fardinhas", lembra o irmão mais velho, de uma família de nove filhos.

 

SOBREVIVENTE

 

A reportagem também conversou com o Coronel Luiz Antônio Freitas Barbosa, pai de Madson Euzébio Freitas Barbosa, 3º Sargento da Arma de Engenharia da base militar brasileira no Haiti. Ele afirmou ter recebido uma ligação de seu filho na noite de ontem, logo após o terremoto ter acontecido. "O contato foi muito rápido. Madson disse apenas que estava bem, não tinha sofrido qualquer ferimento e já estava participando da ronda de auxílio formado pelo exército brasileiro. Logo depois a ligação caiu e não conseguimos mais conversar com ele", explicou.

 

De acordo com a esposa do coronel, a escritora Eliana Chaves Freitas Barbosa, Madson também conseguiu postar um recado no site de relacionamentos Orkut, tentando tranquilizar a família e os conhecidos. "Estava difícil de falar por telefone, então ele deixou uma recado na manhã de hoje para mim e outro para sua irmã Letícia. Isso nos tranquilizou um pouco."

 

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No post, o sargento disse que a situação do terremoto era muito grave, ressaltando a "perda de colegas", mas que a família podia ficar menos preocupada, pois nada tinha lhe ocorrido. Também disse estar com saudades e ter esperança de em breve rever os entes queridos.

 

Eliana Chaves contou ainda que hoje pela manhã, por volta das 8 horas, Madson realizou novo contato por telefone, mas a ligação foi mais curta que a primeira. "Ele só conseguiu falar que estava bem e comentar sobre os trabalhos de resgate. Em seguida caiu a ligação e não nos falamos mais", disse, ainda apreensiva.

 

Segundo seu pai, o Coronel Luiz Antônio Freitas Barbosa, Madson está no Haiti há seis meses. "Ele deveria voltar com sua tropa agora em janeiro, mas, após o terremoto, é possível que essa missão seja estendida."

 

DEPOIS DA AGONIA, ALÍVIO

 

Depois de ficar a madrugada e a manhã de hoje sem dormir, a costureira Luci Paiva Gonçalves conseguiu respirar de alívio. Foram quase 17 horas sem notícias do filho Lucas Paiva da Silva, 1º soldado da tropa militar brasileira atuante no Haiti. "Eu fiquei desesperada assim que vi as notícias. Tentei ligar para ele, mas não conseguia, foi um horror. Fiquei então acompanhando pela internet para ver se conseguia alguma informação. Somente hoje às 13 horas é que o Lucas conseguiu fazer contato conosco para dizer que estava bem, graças a Deus", explica a mãe.

 

Parcialmente despreocupada, pois, segundo ela, o filho ainda continua no país, Luci diz que Lucas estava diferente. "Notei que ele estava com um jeito muito triste quando me contou sobre essa catástrofe. Também fiquei apreensiva pois, na hora em que estava falando com ele,

conseguia ouvir gente gritando no fundo."

 

De acordo com a mãe, o soldado contou que o alojamento militar foi completamente destruído e que seus companheiros de farda teriam de procurar um outro lugar para ficar. Assim como o restante do grupo, Lucas está no Haiti há seis meses e voltaria para o Brasil no fim de janeiro, ocasião em que outra tropa assumiria a missão de paz.

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