Sem alarde, Maduro sufoca imprensa e oposição

O jornal venezuelano El Universal já não pode publicar críticas com tanta frequência; um novo manual de redação dita as regras

Marc Koch, DEUTSCHE WELLE

24 de agosto de 2014 | 03h00

Em Madri, a empresa Epalisticia SL está registrada sob o código HM 562552. Ela se dedica à compra, venda e aluguel de terrenos, imóveis e fazendas de qualquer tipo. A firma tem oito funcionários, contratados no último dia 26 de maio. Eles acabaram ganhando notoriedade não pela compra de propriedades, mas por terem adquirido o jornal venezuelano El Universal, tradicionalmente crítico ao governo chavista.

Hoje o Universal já não pode publicar suas críticas com tanta frequência. Um novo manual de redação dita as regras, o que resultou na dispensa de 26 funcionários que não concordaram com as novas diretrizes. No período de um ano e meio, esse foi o terceiro órgão de mídia independente venezuelano vendido em circunstâncias nebulosas. 

O canal de TV Globovisión e o grupo editorial Cadena Capriles também mudaram de mãos - e, por tabela, de orientação. “O ‘manual’ é apenas uma distração para encobrir outra medida, que busca uma mudança fundamental na linha editorial. O objetivo é fazer uma imprensa menos crítica, onde os jornalistas critiquem menos o governo. Como resultado, há menos diversidade e debates na mídia”, diz Carlos Correa, diretor da ONG venezuelana Espacio Público.

Em 1992, a ONG Freedom House qualificou a imprensa venezuelana como “livre”. Desde então, o país vem caindo de avaliação e ocupa agora a 171.ª posição entre 197 países do ranking de liberdade de imprensa. Em vez de impor a censura, o governo do presidente Nicolás Maduro trabalha com indivíduos simpáticos ao regime, que fazem com que as emissoras e os jornais se alinhem à situação, ainda que o lucro e os clientes (leitores) fiquem em segundo plano.

Na opinião do analista Daniel Lansberg Rodríguez, da Universidade do Texas, a estratégia é inteligente: “Se alguém tentar acusar o governo e seus apoiadores de praticar censura, eles podem se defender afirmando que grande parte da mídia venezuelana está em mãos independentes e privadas.”

Há apenas seis meses, Maduro parecia estar com os dias contados. Em razão da desastrosa situação de abastecimento, da criminalidade e dos violentos protestos, muitos observadores apontavam que era apenas uma questão de tempo para que o sucessor de Hugo Chávez deixasse o cargo. No entanto, ele parece hoje mais firme do que nunca no poder.

Isso se deve a duas razões: não apenas levou à prisão indesejados líderes oposicionistas - com base em argumentos suspeitos -, como Leopoldo López, do Vontade Popular, mas também reprimiu os protestos estudantis, que eventualmente acabaram se esvaziando. O governo vendeu esses episódios como uma vitória sobre uma conspiração liderada pelos EUA.

Até o antes dividido Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) reforçou o apoio ao presidente. Na convenção, no fim de julho, os deputados, em bloco, elegeram Maduro líder do partido.

Em parte, Maduro se mantém no poder sem grandes abalos em razão da fragilidade da fragmentada oposição. A aliança opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) não representa hoje nenhuma ameaça ao regime, sobretudo após a renúncia do secretário-geral, Ramón Guillermo Aveledo.

Há anos a oposição é incapaz de levar adiante suas estratégias. A tentativa de levar as massas a protestar nas ruas, para forçar uma mudança de governo, fracassou. Tampouco o plano do ex-candidato da oposição à presidência Henrique Capriles funcionou. “Deixamos a crise social e econômica fazer seu papel, uma vez que sabíamos que elas aconteceriam. Temos de transformá-la em crise política”, disse o opositor.

A MUD fracassou ao tentar se dirigir às massas nos bairros pobres, que se sustentam com subvenções do governo. Maduro, confiante em seu poder, divulgou sua mais recente iniciativa: o preço da gasolina, até então subsidiado, será convertido para valores realistas. Hoje, o preço para encher o tanque de um automóvel médio é de menos de US$ 1. 

O último aumento no preço dos combustíveis, há 25 anos, resultou em uma revolta popular que causou quase 300 mortes. No entanto, Maduro não teme algo semelhante nos dias de hoje. Menos ainda, as críticas da imprensa.

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