Sem-terra ameaçam queimar fazenda de brasileiro no Paraguai

Lugo favorece brasiguaios e revolta camponeses, afirmando que parte das terras dos produtores são legalizadas

Efe e Associated Press,

31 de outubro de 2008 | 07h41

Depois do anúncio do governo paraguaio de que a maior parte das terras de brasileiros no distrito de Lima, Departamento (Estado) de San Pedro, são legais, camponeses sem-terra, revoltados, voltaram na quinta-feira, 30, a protestar com violência, tomando dois policiais como reféns e ameaçando queimar propriedades dos brasiguaios. Os ataques aconteceram depois que o Instituto de Desenvolvimento Rural e da Terra (Indert) afirmou que apenas 52 dos 500 hectares de terras pertencentes a agricultores brasileiros em Lima são ilegais e, portanto, estão sujeitas a reforma agrária. O Indert fez a ressalva, entretanto, de que ainda falta verificar a legalidade de milhares de hectares de terras em outras zonas do departamento. Os camponeses argumentam que, no passado, grandes extensões de terra foram cedidas ou arrendadas a pessoas não submissas à reforma agrária, entre elas brasileiros, e que, além disso, as plantações mecanizadas, como a da soja, destroem as florestas e poluem o meio ambiente. A fazenda ameaçada de Fávero fica no distrito de Capiibary, cerca de 350 quilômetros ao nordeste de Assunção, e os sem-terra tentam impedir o início da semeadura de soja da colheita 2007-2008.  "Nós não só vamos incendiar a qualquer momento os armazéns (de soja) como também manteremos outras ações até expulsar definitivamente do país os invasores brasileiros", disse o dirigente da Frente Patriótica Popular, Antonio Cabrera. Para ele, "o informe do Indert é uma vergonha porque só defende os interesses de estrangeiros que começaram a invadir o Paraguai, contaminando o meio ambiente". "O governo garante o direito à propriedade privada e o direito dos produtores a semear em suas terras. Além disso, está tomando todas as medidas condizentes para tornar efetivo esses direitos", disse, lendo um comunicado, o vice-presidente e presidente em exercício do país, Federico Franco. A nota oficial destaca ainda que "a violência não é nem será aceita sob nenhum conceito como um mecanismo para reivindicar direitos ou exigir soluções". Por outro lado, garante que o governo "fará cumprir todas as normas ambientais, cuja vigência reivindicam os movimentos camponeses e outras organizações sociais". Horas antes, o empresário catarinense Tranquilo Fávero, um dos principais produtores agrícolas do Paraguai, pediu "justiça" às autoridades e disse que o sítio o qual os camponeses ameaçam queimar está cheio de trigo, milho e outros grãos, com um investimento de US$ 5 milhões. "Quero justiça, estou no Paraguai há 40 anos. Acho que estou fazendo algo de bom", afirmou Fávero a emissoras de rádio, ao criticar os sem-terra, os quais consideram criminosos todos os brasiguaios. Os fiscais e os agentes detidos pelo grupo foram libertados duas horas depois e a Promotoria de Curuguaty, à qual pertencem os afetados, informou que espera a chegada de reforço policial para iniciar a busca e captura dos responsáveis. O Ministro do Interior, Rafael Filizzola, anunciou, por sua vez, que viajará nas próximas horas à região após uma reunião imprevista que manteve com José Ledesma, o governador do departamento de San Pedro, centro do país e a área mais conflituosa. "Vim pedir ao ministro que se apresente, para que escute as pessoas e para que veja o que esta gente está fazendo. É importante que ele esteja na zona", afirmou Ledesma. O governador apóia as reivindicações camponesas e afirmou que muitos fazendeiros brasileiros não respeitam as leis ambientais e cultivam soja "até na estrada". Por outro lado, funcionários da Secretaria do Ambiente anunciaram a detecção de supostas violações das leis ambientais na fazenda El Progreso, na zona de Capiibary, controlada pelos brasileiros Aldo Haverrot e Valdir Neukamp. Ambos foram denunciados por dirigentes da Organização de Luta pela Terra. O laudo técnico do governo paraguaio favorável aos brasileiros foi feito na mesma semana em que o presidente paraguaio, Fernando Lugo, disse que garantiria que nenhum colono brasileiro que tivesse terras legalizadas seria expulso do país. As ameaças contra brasiguaios se intensificaram há duas semanas, quando foi rompida uma trégua de 15 dias entre os sem-terra e Fernando Lugo, eleito com a promessa de fazer uma ampla reforma agrária.

Tudo o que sabemos sobre:
BrasiguaiosBrasilParaguai

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.