Sem-terra encerram trégua e ameaçam terras de brasiguaios

Rivalidade entre fazendeiros brasileiros e camponeses paraguaios aumenta tensão com promessa de invasões

Agências internacionais,

20 de outubro de 2008 | 12h13

Camponeses sem-terra encerraram nesta segunda-feira, 20, a trégua de 15 dias fechada com o presidente Fernando Lugo e anunciaram a invasão de fazendas produtoras de soja de brasileiros. O anúncio foi feito no departamento (Estado) de San Pedro, no norte do país.   Animados com a eleição do ex-bispo esquerdista Fernando Lugo para presidente, os camponeses paraguaios estão invadindo dezenas de fazendas na fronteira com o Brasil. Eles alegam que a terra paraguaia é ocupada ilegalmente por fazendeiros brasileiros com a anuência de autoridades corruptas. O Paraguai tem 6,8 milhões de habitantes, dos quais 300 mil são brasileiros ou descendentes. As divisões entre os camponeses paraguaios e os fazendeiros brasileiros são profundas. Muitos brasileiros recusam-se a se integrar, só falam português e vivem em suas comunidades, enquanto grande parte de camponeses paraguaios só falam guarani.   O movimento sem-terra paraguaio converteu-se numa milícia armada cuja luta vem se intensificando perigosamente. Um choque com a polícia neste mês deixou um morto e três feridos. Depois do confronto, Lugo anunciou que sancionará uma lei proibindo estrangeiros de comprar terras no país. Para os sem-terra, o presidente (que foi padre da paróquia de San Pedro por 11 anos) representa uma oportunidade de conseguir terras. Durante a campanha, Lugo prometeu realizar uma reforma agrária e sua eleição acabou com o domínio de 61 anos do Partido Colorado.   Julio Franco, prefeito de Lima, advertiu durante entrevista à rádio Uno, de Assunção, que "neste lugar nós andamos com armas de fogo. Sou portador de um revólver calibre 38 e uma pistola 9 milímetros". Franco acrescentou que os sem-terra possuem escopetas e outras pessoas ameaçam comprar mais armas. Para o prefeito, há uma tensão entre os que querem a saída dos fazendeiros brasileiros e os que sustentam que na "democracia a justiça deve intervir". Franco se disse membro do segundo grupo.   "Essa luta tem vários cenários: um é político, porque nossa ideologia é a igualdade e não a manutenção do privilégio dos latifundiários", afirmou Ramón Medina, líder da Organização Luta pela Terra, de esquerda. Medina falou também em Lima, em San Pedro, 400 quilômetros ao norte da capital. Para Medina, há também o aspecto econômico: "Os campesinos não podemos seguir vivendo na pobreza, enquanto os invasores brasileiros cada dia têm mais propriedades paraguaias." O líder dos sem-terra disse que há uma previsão de aumento de mais de 400 mil hectares na produção de soja. "Isso é inadmissível", avaliou.   Medina concedeu entrevista à rádio católica Cáritas. Ele afirmou que os sem-terra fazem a tarefa do Estado, porque o poder é indiferente em relação a eles. Porém Ruiz afirmou que está apenas querendo "aplicar a lei", que "garante a propriedade privada e castiga seus violadores". O prefeito disse ainda que "os agentes policiais se negam a atuar porque têm medo dos campesinos".   Alberto Alderete, diretor do governamental Instituto de Desenvolvimento e da Terra (Indert), confirmou que "em duas semanas começaremos a desalojar os estrangeiros que ocupam terras destinadas à reforma agrária". Alderete não revelou o método que seria usado nem se haveria indenizações aos brasileiros que cultivam terras no país - chamados de brasiguaios.   O funcionário admitiu que o governo "não tem dados precisos de quantos campesinos sem-terra há no Paraguai, porque nunca se fez um estudo, mas cremos que são 240 mil famílias que não têm terreno ou possuem uma propriedade menor que dez hectares, insuficiente para subsistir". "De uma vez por todas queremos finalizar a reforma agrária", afirmou Alderete. "Acreditamos que a tarefa se encerrará no ano de 2023". Alderete disse que as terras destinadas à reforma agrária, compradas por estrangeiros, serão recuperadas. "Infelizmente, esses compatriotas se viram obrigados a vender suas terras, de reforma agrária, assolados pela pobreza."   (Com The New York Times)

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