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Senado argentino aprova projeto de lei que antecipa eleições

Medida proposta por Cristina muda pleito legislativo para junho; manobra tenta evitar desgate de casal Kirchner

Marina Guimarães, da Agência Estado,

26 de março de 2009 | 20h47

O Senado argentino aprovou, na noite desta quinta-feira, 26, por 42 votos a favor e 26 contra, o projeto de lei da presidente Cristina Kirchner, para antecipar as eleições legislativas de 25 de outubro para 28 de junho. O governo precisava de pelo menos 37 votos no Senado para aprovar a matéria que obteve 136 votos a favor e 109 contra na Câmara, há duas semanas.

 

A oposição e os analistas dizem que a medida foi uma manobra oficial para evitar um desgaste político do casal presidencial Néstor e Cristina Kirchner que poderia ocorrer até outubro. Esta análise é apoiada na hipótese de que a crise econômica vai se aprofundar nos próximos meses e isso poderia influenciar o voto dos eleitores.

 

Os argentinos vão eleger 127 deputados e 24 senadores e o resultado desta escolha será fundamental para o projeto político do casal Kirchner, com vistas às eleições presidenciais de 2011. Atualmente, o governo possui maioria na Câmara e no Senado, mas as eleições legislativas podem mudar esse cenário, já que as pesquisas de opinião apontam para uma derrota dos candidatos oficiais no interior, o que influenciaria no resultado das eleições nacionais.

 

"O governo, possivelmente, entendeu que perderá na maioria das províncias, inclusive no interior da província de Buenos Aires, e decidiu antecipar as nacionais", afirmou o cientista político, Rosendo Fraga, do Centro de Estudios Nueva Mayoria. Segundo Fraga, a medida visa aproveitar o capital político que ainda resta aos Kirchner e dar menos tempo para que a oposição se organize na província de Buenos Aires.

 

"Até junho será mais difícil, mas não impossível, para a oposição armar uma lista que supere 35% dos votos, que é o que Néstor Kirchner pode obter se encabeçar uma lista própria", explicou ele. A expectativa dos analistas é de que com a aprovação do projeto no Senado, o ex-presidente anuncie oficialmente sua candidatura a deputado pela província de Buenos Aires, o maior colégio eleitoral do país.

 

EFEITO NÉSTOR

 

A vitória de Néstor poderia atrair aliados que ajudariam o governo a manter sua maioria no Congresso. Cartazes em que se lê "Kirchner 2009" estão pregados em toda a província de Buenos Aires. Néstor assumiu o poder em maio de 2003 e apesar de ter concluído seu mandato em dezembro de 2007, para ser sucedido por sua esposa, ele continua tomando as decisões importantes no país, segundo analistas e a oposição. Por isso, as eleições legislativas estão sendo vistas como um referendo sobre o governo do casal presidencial.

 

Pela atual legislação eleitoral, as províncias realizarão em 2009 eleições para escolher seus deputados e vereadores em qualquer data que lhe for conveniente, mas o pleito para renovar metade das 257 cadeiras da Câmara e um terço das 72 do Senado é previsto para o quarto domingo de outubro.

 

O projeto aprovado nesta quinta-feira antecipa essa data das eleições para a Câmara e Senado, mas deixa livre as províncias para manter suas datas originais ou realizar suas eleições no mesmo dia que as nacionais. Das 22 províncias que terão eleições, 11 já afirmaram que irão adequar seus calendários ao da eleição nacional.

 

DESGASTE

 

Não é só a crise econômica internacional que poderia provocar um forte desgaste do governo. A campanha eleitoral ocorre em meio à crescente demanda social por segurança com uma grande mobilização nacional. O conflito do governo com o setor agropecuário também divide o país e aumenta a tensão nesse período. Por último, a Casa Rosada abriu fogo contra os meios de comunicação e lançou um projeto de lei que prejudica particularmente os interesses do grupo Clarín, o maior do país.

 

"Kirchner parece ter perdido noção do que significa política e poder e esse erro poderia ser fatal nestas eleições", avalia Fraga. O analista político Manuel Mora y Araujo, diretor da consultoria Ipsos, afirma que o governo está fazendo uma aposta: se o cenário econômico piorar, muitos eleitores teriam que acreditar que a culpa é dos produtores rurais, dos políticos opositores e dos grandes meios de imprensa e que os únicos que podem salvá-los é o governo. Mas se o cenário não piorar, os efeitos políticos seriam igualmente negativos para o governo.

 

"Eventualmente, o kirchnerismo poderá recuperar alguns votos com a antecipação das eleições e evitar uma sangria de aliados, mas continuará destruindo o que foi seu capital inicial: a confiança", afirma Mora y Araújo. Para ele, "o kirchnerismo é uma máquina de destruir capital político e o projeto político encarnado por Néstor Kirchner vai deixar as coisas no mesmo ponto em que as encontrou: uma opinião pública politicamente cética, uma economia estancada, uma sociedade sem confiança em si mesma."

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