Senado argentino vota lei de impostos em clima tenso

Votação sobre aumento ao setor agrícola é precedida por denúncias de compra de apoio pelo governo

Marina Guimarães, da Agência Estado, e Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

16 de julho de 2008 | 10h05

Uma Argentina dividida acompanha nesta quarta-feira, 16, a votação no Senado do projeto de lei do Executivo sobre os impostos de exportações aplicados sobre os grãos, pivô do conflito que o governo mantém com os produtores agropecuários há 127 dias.   Veja também:   Kirchner é ridicularizado no YouTube    O dia promete ser tenso, já que a votação - prevista para ocorrer perto da meia-noite (mesmo horário de Brasília) - é precedida por suspeitas de compra de votos de senadores por parte do governo. Para a presidente Cristina e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, conseguir a aprovação do projeto é crucial para impedir mais abalos em seu já declinante prestígio político. Acostumado a uma maioria automática nos últimos cinco anos, o governo negocia voto por voto, mas a vitória ainda não está garantida.   Segundo denúncias de senadores opositores, diversos congressistas teriam recebido promessas de cargos no Poder Executivo, designações para embaixadas e fundos especiais para suas províncias em troca da aprovação do projeto. Na terça, o governo continuava pressionando os congressistas indecisos para que votem a favor da presidente. Segundo informações extra-oficiais, a própria Cristina Kirchner teria telefonado para vários senadores na tentativa de assegurar sua fidelidade.   As previsões para o placar oscilam e até a noite de terça-feira, dos 72 senadores, 35 votariam a favor da lei e 33 seriam contra. Porém, quatro senadores se mantinham em dúvida, sendo que dois deles são do partido oficial, o Justicialista (PJ).   Os ruralistas demonstraram na terça-feira grande força política e respaldo popular reunir, no bairro de Buenos Aires de Palermo, entre 250 mil e 300 mil manifestantes para protestar contra a política econômica do governo. Simultaneamente, no centro da cidade, o ex-presidente Néstor Kirchner - apesar de ter mobilizado a máquina do governista Partido Justicialista (peronista), das prefeituras dos municípios da Grande Buenos Aires e da maior parte dos sindicatos - não conseguiu juntar mais de 90 mil simpatizantes, segundo cálculo das autoridades argentinas.   Kirchner pretendia ofuscar o ato que as entidades ruralistas já tinham agendado e argumentava que o objetivo do governo, ao convocar manifestação na Praça do Congresso, era "proteger" os senadores para que votassem sem se sentirem intimidados pelos produtores rurais.   Na manifestação dos ruralistas, o argumento para semelhante demonstração de apoio popular foi o de mostrar aos senadores que eles precisam "votar com consciência de que representam o povo e suas províncias e não um partido ou um ex-presidente", como explicou o líder Alfredo De Angeli, presidente da Federação Agrária de Entre Rios. Claramente, nas ruas, o campo saiu vitorioso, mas o mesmo pode não ocorrer no Senado.   Em quatro meses os ruralistas realizaram quatro locautes contra o aumento de impostos de Cristina. O governo negou-se a retroceder e intensificou o confronto. Desde março, a classe média portenha, irritada com a escalada inflacionária e os escândalos de corrupção do governo, aderiu aos protestos ruralistas e os respaldaram com panelaços contra a presidente. A crise desgastou Cristina, cuja popularidade despencou. Em junho, Cristina apostou na solução para o impasse via Parlamento. Mas superestimou seu cacife político e não contou com a deserção de parlamentares governistas.

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