Silêncio no caso Ingrid pode ocultar intensa negociação

A opinião é de um dos maiores especialistas em América Latina da França, o cientista político Olivier Dabène

Andrei Netto, de O Estado de S. Paulo,

05 de abril de 2008 | 16h29

O silêncio e o aparente insucesso da missão humanitária francesa que tem como objetivo prestar socorro médico à ex-candidata à presidência da Colômbia Ingrid Betancourt pode estar escondendo uma intensa negociação de bastidores entre os países mediadores de um acordo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A opinião é de um dos maiores especialistas em América Latina da França, o cientista político Olivier Dabène, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po). Veja também Estado de Betancourt é muito delicado, diz médico das Farc Colômbia pagará recompensa de US$2,7 bi por local de ReyesColombianos fazem manifestação por liberdade de sequestradosUribe revê soltura de porta-voz das Farc; Interpol ordena prisãoGuerrilha só libertará se houver troca de presosConheça a trajetória de Ingrid Betancourt Por dentro das Farc Entenda a crise  Histórico dos conflitos armados na região   Docente da mesma universidade que formou Ingrid Betancourt - e também líderes políticos como Jacques Chirac -, Dabène disse ao Estado, falando da Venezuela, que não se convence totalmente com o aparente insucesso da operação de socorro e resgate iniciada pelo governo da França na Quarta-feira.  Desde então, diplomatas, médicos e enfermeiros aguardam em um avião médico Falcon 50, da Força Aérea francesa, a autorização para partir ao encontro da refém, seqüestrada em fevereiro de 2002 com sua assessora quando tentava estabelecer o diálogo com o grupo guerrilheiro. A franco-colombiana sofre de hepatite B, leishmaniose, malária e desnutrição, supostamente causada por uma greve de fome que teria sido iniciada em 23 de fevereiro. Segundo versões de camponeses divulgadas nos últimos dias, o estado de Ingrid é grave. "Claro que fico pessimista com base nas notícias que recebemos", diz Dabène. "Mas as Farc sempre se mostraram muito imprevisíveis no trato dos reféns, ora recusando-se a libertá-los, ora libertando-os." "O que está claro, paradoxalmente falando, é que não sabemos tudo. É muito provável que as negociações reais estejam nos escapando, prosseguindo como segredo de Estado", declarou Dabène. Espera Reforçando a idéia de que as negociações ainda estão em andamento, o ministro francês de Relações Exteriores, Bernard Kouchner, disse na sexta-feira, em entrevista à rádio Europe 1, que seu governo continua aguardando um sinal dos guerrilheiros. "As Farc devem responder. Nós estamos esperando, de prontidão em Bogotá", afirmou Kouchner. "Nós estamos tentando, tentando, tentando, e não há outra solução. Estamos movendo toda a América Latina, que está envolvida neste momento", acrescentou. Outro indício de que uma reviravolta pode acontecer surgiu na sexta-feira por suspeitas levantadas, em Paris, pelo jornal Le Monde, um dos mais respeitados da Europa. Segundo o diário, o comunicado das Farc, divulgado na quinta-feira e atribuído a Rodrigo Granda, o "chanceler" do grupo guerrilheiro, não seria atual. Na mensagem, Granda demonstra menosprezo pela ação da França e diz: "Apenas como conseqüência de uma troca de prisioneiros aqueles que estão retidos em nossos campos poderão ser libertados." O texto, segundo o Le Monde, é idêntico a outro divulgado em 19 de março, antes do lançamento da missão humanitária francesa. Impressionada com a semelhança das declarações de Granda, a direção do comitê de apoio Agir pour Ingrid questionou os interesses vinculados ao comunicado: "Há uma manipulação? E se há, a quem essa manipulação interessa?"

Tudo o que sabemos sobre:
Ingrid BetancourtFarc

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.