Simpatizantes exaltam Chávez como 'pai' e 'mártir' na Venezuela

O líder venezuelano Hugo Chávez foi exaltado nesta quarta-feira por admiradores em prantos como um pai espiritual que sacrificou sua vida pelo país.

TERRY WADE, Reuters

06 de março de 2013 | 19h06

O presidente socialista sucumbiu ao câncer na terça-feira, após 14 anos no poder, período em que polarizou a nação petrolífera ao confrontar a elite em benefício de milhões de venezuelanos pobres.

Partidários dizem que Chávez livrou a Venezuela dos grilhões do capitalismo e da interferência estrangeira, e que adoeceu por ter dedicado excessivamente sua energia a uma revolução pacífica.

"Ele era como um pai para nós. Ele nos ensinou a amar nosso país, nossa cultura e nossa soberania", disse a arquiteta Madeleine Gutierrez, de 29 anos. Lágrimas rolavam por sua face quando ela abraçava amigos na praça Simón Bolívar.

"Chávez vive! A luta continua!", gritavam os populares, que, vestidos de vermelho, lotavam as ruas de Caracas, criando rios encarnados para homenagear o presidente. Grupos de motociclistas buzinavam ao passar em carreatas que se formavam espontaneamente.

Críticos dizem que Chávez desperdiçou a riqueza advinda da alta do preço do petróleo, patrocinando programas sociais ineficientes enquanto perdia o controle da inflação, permitia uma disparada da criminalidade e insultava líderes dos EUA e Europa só por diversão.

Mas, com sua ascendência afro-indígena, Chávez era o rosto das multidões que se sentiam discriminadas durante décadas pela elite clara do país.

"Ele deu a vida por nós. Pode-se chamá-lo de mártir", disse José Rondon, de 48 anos, vestindo a boina típica do chavismo, no hospital onde o presidente morreu. Rondón trabalha num sindicato ligado ao governo, e, como muita gente ouvida pela Reuters nas ruas, é ligado ao Partido Socialista Unificado da Venezuela.

Mas as manifestações de quarta-feira pareciam mais espontâneas do que o habitual em eventos pró-governo, onde os quadro partidários mobilizam o comparecimento. E foi numa escala raramente vista em qualquer lugar para um ocupante de cargo eletivo.

Muitos manifestantes canalizavam sua dor para inflamados gritos de apoio e promessas de continuidade do chavismo. Outros ficavam em silêncio, ou choravam.

TOM RELIGIOSO

"Todos se beneficiaram sob Chávez. Ele incluiu todos. Goste-se dele ou não, todos se beneficiaram", disse Marixa Carrion, que trabalha como secretária na chancelaria.

O culto à personalidade de Chávez às vezes adquire tons religiosos. Na quarta-feira, as pessoas já o comparam à ex-primeira-dama argentina Evita Perón, que ainda é venerada no seu país, mais de seis décadas depois de morrer de câncer, aos 33 anos.

Nos postes de Caracas, há centenas de cartazes no qual Chávez aparece sorridente, apanhando gotas de chuva com a mão. "A vida chove das tuas mãos. Nós te amamos", diz a legenda.

Em contraste com a efusão das ruas, alguns críticos de Chávez celebram discretamente sua morte. A oposição em geral ficou em casa, mas alguns de seus membros publicaram mensagens celebratórias no Twitter.

Para muitos outros venezuelanos, porém, a ideologia nacionalista de Chávez é um exemplo a ser seguido. "Amo Chávez e vamos continuar a amá-lo", disse Hugo Bolívar, de 60 anos, que trabalha como segurança na prefeitura de Caracas. "Tenho o sobrenome Bolívar e o primeiro nome do presidente. Ele se importava muito com este país - assim como eu."

Os admiradores se debatiam para ver ou mesmo tocar o caixão de Chávez no seu trajeto pelas ruas lotadas. Muita gente levava cartazes com os dizeres "soy Chávez", e agitava as bandeiras tricolores do país.

Em vários pontos, gravações de Chávez cantando ou fazendo discursos inflamados ecoavam pelos alto-falantes, levando muitos às lágrimas.

A marca de Chávez pode durar anos. Seu sucessor indicado, o presidente-interino Nicolás Maduro, é favorito para vencer a eleição a ser convocada dentro de 30 dias. Os chavistas esperam que Maduro, que por enquanto carece do carisma e fervor do "comandante", possa crescer em seu novo cargo.

Na quarta-feira, Maduro estava cercado por um mar de gente ao acompanhar a pé o caixão de Chávez até uma esplanada monumental.

"Carisma é como uma semente que você deve plantar para colher mais tarde. Chávez não era nada carismático quando começou. Maduro pode aprender fazendo", disse Manuel Montañez, de 48 anos.

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