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Sonhos de consumo continuam distantes para cubanos

Discos de vinil, maçanetas de porta euma desbotada decoração natalina, tudo recoberto por pó,despontam aqui e ali nas prateleiras meio vazias de uma loja dedepartamentos de Havana que era uma das melhores de Cuba antesde Fidel Castro tomar o poder, meio século atrás. Fazer compras agora, depois de décadas de comunismo,revela-se uma experiência frustrante para a maior parte doscubanos, e muitos esperam que o novo presidente do país, RaúlCastro, que sucedeu o irmão doente nesta semana, realizereformas para abrir a economia e aumentar o poder de compra dosmoradores da ilha caribenha. "A gente cumpre longas jornadas de trabalho para ganhar umsalário mínimo e chegar no final com nada. Quase nãoconseguimos comprar comida, e as roupas são caras", disseClaudia, 21, uma pedagoga que vasculhava as prateleiras poucoabundantes da loja Fin de Siglo (fim de século). Como muitos cubanos que conversam com repórteresestrangeiros, Claudia não quis informar seu sobrenome. "Isso é deprimente porque a gente tem desejos, comoqualquer pessoa tem desejos", acrescentou, dizendo que algumascubanas jovens recorriam à prostituição a fim de ganharem osuficiente para comprarem roupas da moda e maquiagem. Os produtos na Fin de Siglo têm seus preços fixados empesos, a moeda na qual quase todos os cubanos recebem seussalários. Esse fato torna esses produtos relativamenteacessíveis. Em lojas próximas, há geladeiras, tênis e bolsasincrementadas à venda. O preço deles, porém, é na moeda fortede Cuba --chamada de peso conversível-- e um par de sapatoscusta duas vezes o salário médio de 15 dólares. O sistema monetário dual é um dos principais motivos dequeixa dos habitantes de Cuba, onde uma variada gama de bens,desde presunto em lata a desinfetante de banheiro, é vendida namoeda forte, fazendo deles artigos de luxo. "Quem não gosta de fazer compras?", perguntou Eliza, 28,professora, enquanto comprava sapatos para a filha em uma lojade moeda forte. "(Mas) a gente precisa economizar e guardardinheiro, e algumas vezes dizemos em Cuba que é preciso passarfome para comprar sapatos." Outros compradores disseram que o dinheiro enviado poramigos e parentes do exterior, principalmente dos EUA, permitiaque comprassem roupas e eletrodomésticos. O baixo poder de compra não é o único problema enfrentadopelos que saem às compras em Cuba. As mercadorias são de baixaqualidade e pode ser difícil encontrar roupas, e em especialroupas íntimas, no tamanho que se deseja. As lojas de comida exibem prateleiras vazias e apenas umapequena seleção de produtos. "A gente precisa ter sorte, e precisa procurar bastante.Aqui há uns tênis, mas só de tamanho pequeno", disse BelkisMartínez, 45, atendente de uma loja que vende uma seleçãoaleatória de saias e vestidos de noiva antiquadas em pesos. Umpar de meias de náilon custa cerca de 1 dólar. Após tomar posse como presidente, no domingo, Raúl Castroprometeu implementar pequenas reformas na economia de Estado afim de enfrentar as questões sobre as quais os cubanosreclamaram no ano passado durante encontros abertos convocadospelo dirigente. Raúl disse que o governo estudaria a possibilidade derevalorizar o peso, o que daria aos cubanos um poder de compramaior. Mas alguns moradores do país duvidam que o novo governoadote reformas rapidamente ou que as reformas sejam profundas. "Não tenho esperança nenhuma de que as coisas mudarão",afirmou Claudia. "Eu espero, no entanto, que esteja enganada."

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