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'Sou um bandido', diz a Lula ex-preso cubano que vive no Brasil

Em entrevista, presidente comparou presos comuns a dissidentes políticos para criticar greve de fome

José Maria Tomazela, o Estado de S. Paulo

12 de março de 2010 | 15h49

O presidente do Projeto dos Grandes Primatas (GAP) internacional, o microbiologista Pedro Ynterian, que foi preso em 1961 pelo regime de Fidel Castro em Cuba, reagiu à declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que comparou a situação de presos políticos naquele país à de presos comuns no Brasil.

 

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A uma agência internacional, Lula disse que a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto para libertar pessoas em nome dos direitos humanos, e que as determinações da Justiça e do governo de deter pessoas em nome da legislação de Cuba devem ser respeitadas.

 

Em carta aberta divulgada ontem (12) com o título "Eu sou um bandido!", Ynterian diz que é um ex-prisioneiro político e considera "um insulto" comparar a condição dos criminosos que lotam as prisões paulistas com a de presos políticos como o cubano Orlando Zapata, que morreu após 85 dias de greve de fome.

 

Empresário naturalizado brasileiro, Ynterian está no País há mais de 35 anos, construiu e mantém em Sorocaba um santuário especializado em chimpanzés e se tornou um ambientalista respeitado internacionalmente. Ele sempre evitou falar de seu passado de lutas pela democracia em Cuba, mas, depois da declaração do presidente, disse que, se ficasse calado, estaria "traindo a memória" dos dissidentes cubanos que morreram lutando contra a ditadura castrista. "Desde os 16 anos lutei contra a ditadura de Batista e anos depois tive que lutar contra a dos irmãos Castro, amigos fraternos do nosso presidente."

 

Ele conta que, logo após a tentativa frustrada de invasão da Baía dos Porcos pelos exilados cubanos, numa ação organizada pelos Estados Unidos, Fidel Castro passou a perseguir e prender os opositores.

 

 "Eu era secretário geral da Federação de Estudantes Católicos de Cuba, com três universidades e dezenas de colégios. Todas as universidades e escolas foram fechadas e ocupadas pelo regime ditatorial e nunca mais o ensino privado existiu. Eu não peguei em armas, mas tinha opinião contrária ao que Fidel estava fazendo, e para eles isso bastava."

 

Ynterian passou algumas semanas na prisão de Cabana, dirigida por Ernesto Che Guevara, e viu vários companheiros estudantes, muitos apenas garotos, serem mortos. "Também presenciei a morte do comandante Humberto Sori Marin, que redigiu a primeira lei de Reforma Agrária quando lutava na Serra Maestra, junto com os irmãos Castro, e depois lutou contra a ditadura implantada por eles. Todos aqueles fuzilados no Paredão da Cabana nunca tiveram um julgamento, um advogado de defesa, nem puderam falar sua verdade. Isso se repetiu centenas, milhares de vezes."

O ambientalista espera que um dia a história "terrível e tenebrosa da Cuba castrista" seja conhecida pelo mundo. Ele acredita que Lula sabe o que acontece em Cuba, mas insiste em fazer comentários positivos sobre Fidel Castro para agradar a esquerda internacional. "Ele quer ficar bem com a esquerda e a direita, mas acaba dando um tiro no pé." Para ele, os dissidentes cubanos em greve de fome são mártires. "Eles passaram pelas piores torturas e sobreviveram, mas agora querem dar um recado ao mundo que, se ninguém fizer nada, aquilo não vai mudar."

 

Ynterian conta que só escapou do fuzilamento por ter sido solto por engano. "Tinha muita gente presa e eles perderam o controle. Logo depois de me soltar, foram atrás de mim, mas me refugiei na embaixada brasileira. Sou um sobrevivente." A embaixada do Brasil em Cuba tinha, na época, um acordo com os Estados Unidos pelo qual o governo americano recebia os exilados que tivessem visto, como era seu caso. Depois de quatro semanas na embaixada, ele foi para os Estados Unidos, onde passou a trabalhar. Em 1973, a empresa o mandou para o Brasil.

 

Ele se considera "humilhado" pela declaração de Lula, que o condenou sem o conhecer e sem que pudesse se defender, mas não acha que sua carta vá fazê-lo mudar de posição.

 

 "O Lula não vai reconhecer que errou grosseiramente, mas acho que vai se cuidar mais antes de falar no futuro. Ele acabou prestando um desfavor ao Castro, pois a repercussão mundial favoreceu a causa dos dissidentes."

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