RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADAO
RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADAO

Subsídios são tema de prévia argentina

Candidatos divergem sobre benefícios sociais; brechas para fraudes na votação que ocorre em uma semana preocupam opositores

Rodrigo Cavalheiro, correspondente em Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2015 | 03h00

BUENOS AIRES - Na casa de três quartos que divide com 11 parentes, a ex-moradora de rua Laura Peralta, de 27 anos, acompanha pela TV de tubo da cozinha-sala denúncias da oposição argentina de que, em uma semana, haverá fraude na prévia nacional, votação obrigatória e primeiro capítulo da eleição presidencial de outubro. Também sobe o volume quando os candidatos falam do futuro dos planos sociais dos quais ela depende.

Laura vive em Lamas, conjunto habitacional de casas em ruas de terra criado há dez anos pelo kirchnerismo. O bairro fica no interior de José C. Paz, município de 200 mil habitantes que resume o perfil eleitoral da região metropolitana de Buenos Aires, onde estão 25% dos votos do país. 

A capital, com 8% dos eleitores argentinos, onde Laura costumava mendigar e recolher papelão com os irmãos até a adolescência, é 80% antigovernista. No entanto, no semicírculo de cidades que a cercam mandam prefeitos ou famílias que chegam a estar 20 anos no poder. Em geral, estão ligados ao peronismo, do qual o kirchnerismo é a versão mais radical. A serviço desses caciques regionais, estão os “punteros”, líderes políticos locais conhecidos por negociar subsídios e outros favores. 

“O puntero explica o que você tem de fazer para conseguir um plano social. Se você não quer trabalhar ou tem outro trabalho, dá um quarto ou metade do pagamento para ele. Se você não quiser, ele ameaça dizendo ‘corto seu cartão’ ou ‘vão te tirar do plano’”, diz Laura.

Ela conhece o esquema, pois foi uma das que receberam sem cumprir o exigido em algum programa social. Depois de ter o benefício cortado por uma “puntera” que tentou explorá-la, mudou de bairro e de líder. 

Conseguiu outra vaga no programa Argentina Trabalha, que paga a desempregados 2.600 pesos (R$ 967) por quatro horas diárias. Ela trabalha duas horas por dia – “não pedem as outras duas” – em um centro de reciclagem a uma quadra de casa. Também recebe 1.200 (R$ 446) por manter dois filhos na escola e vacinados, numa programa semelhante ao Bolsa Família. A renda total, diz, dá para duas semanas. 

Seu cunhado, um dos 12 que vivem na casa, explica que a relação com o “líder comunitário” não é só financeira: “É política também. O puntero deixa você ficar em casa se o ajudar a encher os ônibus em dias de comício”, afirma Cristian Carrión, de 29 anos, músico da banda de cumbia Marilyn, cujo hit Su Florcita tem mais de 5 milhões de visualizações no YouTube. 

Na semana passada, ganhou notoriedade um puntero que desviou 6 milhões de pesos (R$ 2,2 milhões) em benefícios em Tartagal, no norte da Argentina. O tema levou os planos sociais ao centro da discussão entre os três principais candidatos à presidência. Um deles, Sergio Massa, sentenciou: “Vamos tirar os subsídios dos vagabundos. Os que realmente precisam de ajuda, podem ficar tranquilos.” 

O conservador Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires e segundo colocado nas pesquisas, diariamente repete que manterá os subsídios “porque já são direitos sociais”. A promessa de Macri é ironizada pelo kirchnerista Daniel Scioli, favorito, segundo pesquisas. Ele sustenta que o rival sempre foi contra os programas. 

“É um processo semelhante ao que ocorreu na eleição brasileira. O governo ameaça com o fim dos benefícios caso perca. A oposição promete mantê-los”, avalia o sociólogo Ignacio Labaqui, da Pontifícia Universidade Católica da Argentina (UCA).

Nas casas ainda irregulares no bairro de Laura, repassadas ilegalmente por 100 mil pesos (R$ 37 mil) sem escritura, não há adesivos ou pichações do Proposta Republicana (PRO), partido de Macri. Ela diz não conhecer um vizinho que vote em alguém que, segundo ela, “arrasará com os subsídios”. 

Núcleos tão claramente kirchneristas da periferia da área metropolitana são a grande preocupação dos opositores. “Se os fiscais forem para casa às 18 horas, vão nos roubar de novo”, alertou Macri, na quinta-feira. Seu partido lançou às pressas um site em busca de voluntários para vigiar as urnas. 

Na Província de Buenos Aires (37% dos votos da Argentina) – que não inclui a capital do país, mas apenas sua região metropolitana –, há 35 mil mesas eleitorais. Tanto o PRO, de direita, quanto os pequenos partidos de esquerda não têm militantes suficientes para controlar todas as mesas.

Na Argentina, o que o eleitor coloca na urna é um envelope em que põe um “supersantinho” dos candidatos. O rolo de nomes e fotos chega a ter 1,20m em províncias em que se elegem todos os cargos, como Catamarca. Cabe a cada partido manter seus santinhos na sala de votação. “É muito comum entrar e ver a pilha grande de um candidato e outro com poucos ou nenhum. Qualquer eleitor que entra antes na sala pode roubar os do adversário”, diz Laura.

“Se um partido não tem estrutura, não deve se meter em política”, afirma Alfredo Caputo, de 62 anos, um fanático por Cristina Kirchner que ganha bolsa de 837 pesos (R$ 311) pela filha de 17 anos e espera aposentadoria. Ele mora a duas quadras de Laura, convocada pela Justiça Eleitoral para ser mesária este ano. 

Questionada se intervirá caso haja fraude em favor do kirchnerismo, ela pensa dois segundos após um gole de mate e responde, meio envergonhada, que fará vista grossa. “Fico com meus benefícios. Até porque, se eu falar algo, vão dizer ‘você é do PRO’ e todos ficarão me olhando feio. “Eu vivo graças a eles. Que outra coisa posso dizer? Vivemos todos nessa casa graças a eles.”


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