Tentativa de resgate em 2003 causou incidente diplomático

Avião francês com agentes secretos pousou em Manaus sem autorização do Brasil

da Redação,

02 de julho de 2008 | 23h51

Uma tentativa frustrada de resgatar Ingrid Betancourt em 2003, quando a franco-colombiana já estava seqüestrada havia mais de um ano, gerou um incidente diplomático entre o Brasil e a França. Em julho daquele ano um avião da Força Aérea Francesa pousou em Manaus sem autorização do governo brasileiro para participar de uma ação de resgate de Ingrid. Munido de informações imprecisas repassadas pela família de Ingrid, o então chanceler francês Dominique de Villepin ordenou uma operação clandestina de resgate.   Veja também: Ingrid ainda sonha com a presidência 'Libertação foi milagre', diz Ingrid Betancourt O drama de Ingrid Por dentro das Farc  Histórico dos conflitos armados na região    Cronologia do seqüestro de Ingrid Betancourt Tudo o que foi publicado sobre Ingrid     O fracasso da operação veio à tona em reportagem da revista Carta Capital. Em 13 de julho, sem Ingrid, o avião do Exército francês foi obrigado a deixar o território brasileiro por ordem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Embaixadores franceses em Brasília e Bogotá foram convocados pelos governos locais para esclarecer o ocorrido. Em 31 de julho, Villepin foi a público desculpar-se pelo deslize diplomático.   A operação clandestina teve a participação de uma equipe da DGSE, Direção-Geral da Segurança Externa - o serviço secreto francês. Ingrid deveria ser libertada em Leticia, cidade colombiana na fronteira com o Brasil, e o Hercules da Força Aérea francesa chegou a permanecer 96 horas em Manaus. No interior do avião também encontravam-se uma equipe médica e diplomatas.   Segundo fontes parisienses, os agentes estavam desarmados, apenas com sofisticado material eletrônico de comunicação, mas os franceses não permitiram que o avião fosse revistado durante sua estada na capital amazonense, aumentando as suspeitas.   Na época, houve a suspeita de que o governo francês possa ter mantido negociações diretas com as Farc, enquanto Brasília, que autorizou a aterrissagem do avião, não havia recebido informações sobre a missão. O então primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, confirmou o envio de um "avião militarizado", mas para uma "missão médico-humanitária" e com o conhecimento dos parceiros da França na região e a confidencialidade que tais missões sempre exigem.   O Palácio do Eliseu, que garantia no início que o presidente da república não estava informado da tentativa de resgate, depois admitiu conhecer as intenções do governo de promover uma operação humanitária de resgate da ex-candidata à presidência da Colômbia. "O presidente da república (Jacques Chirac) foi informado e deu seu apoio, a princípio, ao envio de um avião com uma equipe médica, conforme foi pedido pela família Betancourt", declarou a porta-voz de Chirac, Catherine Colonna.   Após a revelação da tentativa frustrada de resgate, novos detalhes da operação que viam à tona aumentava a crise diplomática. O piloto brasileiro Cleiton de Abreu, da empresa de táxi aéreo Rico Linhas Aéreas, contou que levou quatro franceses que se apresentaram como turistas interessados em ir a São Paulo de Olivença, na fronteira entre Brasil e Colômbia.   Henri Guignard, chefe de gabinete do chanceler francês, um médico e dois agentes secretos deveriam resgatar ali Ingrid Betancourt. O piloto foi apresentado aos "esportistas andarilhos" franceses pelo próprio cônsul da França em Manaus, Daniel Rosenthal. O aparelho, um monomotor Carajá, foi alugado pela embaixada por pouco mais de R$ 16 mil.   Abreu diz que desconfiou logo deles, pois não se vestiam adequadamente para enfrentar a dureza da mata. Ele também os reconheceu como passageiros de um Hercules francês que estacionara ao lado do hangar de sua empresa. O piloto contou que todos estavam visivelmente nervosos. Ficou combinado que na volta trariam outras quatro pessoas (entre elas Ingrid).   Apreensivo, Abreu se comunicou com a polícia brasileira e recebeu instrução para trazer os "turistas" de volta a Manaus, onde todos, "visivelmente decepcionados com o fracasso da missão", receberam autorização para retornar à França.   Irritação brasileira   A irritação do governo brasileiro com o caso foi ampliada pelo fato de que na véspera da operação, dia 7 de julho, os ministros do Exterior da França e do Brasil, Villepin e Celso Amorim, haviam se encontrado em Paris. Almoçaram juntos e deram entrevista à imprensa durante a reunião da Grande Comissão franco-brasileira.   Em nenhum momento o assunto foi abordado pelo chanceler francês. Após a gafe diplomática, o atual presidente Nicolas Sarkozy, então ministro do Interior, foi acusado de ter promovido o vazamento do fracasso da missão para a imprensa francesa com o objetivo de atingir adversários no governo.   O Brasil exigiu desculpas oficiais da França e o chanceler francês, Dominique de Villepin, declarou oficialmente "lamentar o incômodo causado às autoridades brasileiras" e "não ter podido contatar anteriormente" seu colega brasileiro, Celso Amorim, sobre a forma como se desenvolveu a missão francesa enviada a Amazônia para tentar resgatar Ingrid Betancourt.   Em Brasília, Amorim disse considerar a declaração um pedido oficial de desculpas, apesar de não haver nenhuma escusa explícita nas 11 linhas do texto divulgado pela chancelaria francesa.   Os dois chanceleres conversaram por telefone, numa tentativa de encerrar de vez o incidente. "Quando você convida alguém para ir à sua casa, mas essa pessoa lamenta não poder ir, podemos considerar como um pedido de desculpas", afirmou o chanceler brasileiro.   No comunicado do Quai D’Orsay, Villepin manifestou o seu desejo de "tudo fazer para evitar dificuldades semelhantes no futuro". Na tentativa de justificar o episódio, Villepin evocou também, no comunicado, "as condições de urgência que conduziram ao envio de uma missão médica a Manaus para tentar, em vão, recuperar Ingrid Betancourt."   Mas, segundo o secretário-geral das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, o chanceler francês mentiu para Amorim na conversa por telefone ocorrida no dia 12, quando explicou os objetivos da tripulação do Hercules, afirmando que o objetivo da missão era dar apoio médico e psicológico a um parente de Ingrid, que esperava obter uma carta ou uma fita cassete da ex-senadora.

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