Timerman promete 'inovar' no conflito entre Argentina e Uruguai

Novo chanceler argentino prometeu 'terminar de resolver' diferenças dos últimos 5 anos

Marina Guimarães, da Agência Estado

21 de junho de 2010 | 15h42

BUENOS AIRES - Um dia antes de tomar posse como o novo Ministro de Relações Exteriores da Argentina, Héctor Timerman disse nesta segunda-feira, 21, que vai resolver, de maneira "inovadora", o conflito entre seu país e o Uruguai em torno de uma fábrica de celulose às margens do rio fronteiriço e de seu devido monitoramento conjunto, assunto que teria sido a gota d'água para a saída de Jorge Taiana da chancelaria.

 

Em entrevista a uma rádio de Buenos Aires, Timerman reconheceu que havia "uma rispidez" entre o Uruguai e a Argentina e disse que pretende "terminar de resolver" as divergências que afastaram os dois países nos últimos cinco anos. Também afirmou que a ideia do governo argentino é de que "o controle sobre o rio esteja à altura dos países mais avançados". Segundo ele, a população pode ficar tranquila porque a Argentina vai dar "um exemplo ao mundo do que é o controle ambiental".

 

Na sexta-feira, Taiana renunciou após uma discussão, por telefone, com a presidente Cristina Kirchner, que o acusou de deslealdade por ter revelado ao jornal Clarín informações de que seu governo estaria de acordo com a inclusão do Brasil no monitoramento conjunto sobre as águas do rio Uruguai. A proposta foi feita pelo presidente uruguaio, José "Pepe" Mujica. Os demais jornais do país disseram que Cristina não concordaria com a intervenção brasileira.

 

Outro ponto de desacordo entre Taiana e Kirchner diz respeito ao ex-embaixador argentino em Caracas, Eduardo Sadous, que, convocado pela Justiça para depor no caso que investiga denúncias de corrupção no comércio entre a Argentina e a Venezuela, confirmou a versão de uma "chancelaria paralela" no governo local. Sadous foi convocado pela Comissão de Relações Exteriores da Câmara para dar explicações sobre o assunto nesta quarta-feira. Antes de renunciar, Taiana autorizou a ida de Sadous à comissão, coisa que a Casa Rosada tentava evitar.

 

Ameaças

 

Em outra entrevista concedida ao jornal Página 12, o novo chanceler enviou o recado da Casa Rosada ao ex-embaixador. "Vou falar com Sadous. Estou convencido de que ele sabe, como profissional que é, que por lei os embaixadores não podem revelar informação confidencial. Em caso de fazê-lo, estaria cometendo um delito. Vou evitar que se revelem segredos", disse.

 

Para a deputada Patrícia Bullrich, da opositora Coalizão Cívica, as declarações de Timerman soaram como "ameaças" contra Sadous para que ele não diga nada comprometedor. "O pior que está ocorrendo é esta pressão, este condicionamento, esta ameaça que Timerman está fazendo sobre Sadous, dizendo que se ele disser coisas inconvenientes, relacionadas ao segredo profissional poderia estar cometendo um delito", disse Bullrich em entrevista à rádio Continental. Segundo ela, "o governo está usando o segredo como uma estratégia de acobertamento de uma situação muito complexa, de relações pouco transparentes entre a Argentina e a Venezuela".

 

Segundo as denúncias que estão sendo investigadas pela Justiça, os empresários argentinos têm de pagar "pedágio" (propina) para poder exportar seus produtos à Venezuela. O processo também investiga a existência de uma "embaixada paralela", dirigida pelo ministro de Planejamento, Julio De Vido, para as negociações comerciais com o presidente Hugo Chávez.

 

Sadous seria a peça-chave para provar as "perigosas relações" entre os dois países, que envolvem também o episódio da maleta clandestina contendo US$ 800 mil com a qual um empresário venezuelano tentou entrar em Buenos Aires, em agosto de 2007. O dinheiro seria destinado à campanha de Cristina Kirchner, eleita em outubro do mesmo ano.

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