Transição em Cuba cria nova realidade para exilados

Quando Fidel Castro transferiu o poderpara seu irmão Raúl, a comunidade de exilados cubanos em Miamiteve de encarar uma terrível realidade: que a eventual morte dohomem tão odiado por eles nos últimos 49 anos talvez nãoresulte em um colapso imediato do regime comunista. Muitos deles passaram quase cinco décadas esperando queFidel morresse para que pudessem voltar à sua pátria. Agora,percebem que a realidade é outra. "A expectativa aqui sempre foi de que a mudança aconteceriada noite para o dia, que acordaríamos uma manhã edescobriríamos que o chefão foi embora e os sinos estãotocando. Não foi isso que aconteceu", disse o sociólogoLisandro Pérez. A comunidade cubana, que tem cerca de 650 mil membros nosul da Flórida, não é monolítica. As pesquisas mostram que osexilados mais velhos tendem a se aferrar à idéia da volta aCuba, enquanto os mais novos, criados nos EUA, preferem ficar. Mas Cuba ainda domina a vida da comunidade, naquilo que opsiquiatra Eugenio Rothe considera "um luto não-resolvido". "Uma coisa muito observável aqui, especialmente entre osmais velhos, é a nostalgia a respeito de Cuba, a lembrançaidealizada do país perdido. Há uma constante saudade levando avoltar, mas afinal de contas há a percepção de que esses tempospassaram, e o que resta é apenas a memória." O ódio contra Fidel também alimenta muitos exilados.Militantes anticastristas, muitos já tão velhos e alquebradosquanto o veterano revolucionário, continuam treinando nospântanos da Flórida para o tão esperado confronto. Uma loja nobairro de Little Havana vende papel higiênico com estampas deFidel. Mas, embora a comunidade em Miami já se desfaça do sonho dereformas repentinas, muitos acham que mudanças serãoinevitáveis. O arquiteto Nicolás Quintana, que se diz "traumatizado" porter vivido 47 dos seus 82 anos no exílio, já prepara um planode reforma para Havana e arredores, para restaurar a beleza dadecrépita capital cubana. A proposta é parcialmente financiada por um incorporador deMiami, que estima que haja necessidade de construir 1 milhão denovas casas para aliviar o déficit habitacional da cidade. Para Juan Antonio Bueno, arquiteto envolvido nesse projetopara Havana, manter a esperança viva é parte importante daexperiência de ser um exilado cubano. "Quando eu saí de Cuba,lembro de ter dito 'tchau, vejo vocês em seis meses'. Era 1960,e eu tinha 13 anos. Entramos no avião e ainda tenho a passagemde volta. Digo às pessoas que qualquer dia desse eu vouusá-la."

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