TV Cultura estréia série de programas sobre as Farc

Resultado de seis anos de pesquisa, série traz entrevistas com lideranças da guerrilha

André Mascrenhas, do estadao.com.br, Agencia Estado

21 Junho 2007 | 13h08

A recente libertação unilateral de guerrilheiros supostamente ligados às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) pelo governo do presidente Álvaro Uribe despertou em parte da comunidade internacional a sensação de que o conflito poderia finalmente caminhar para uma solução. Na Colômbia, entretanto, a população está menos otimista. Dividida por um conflito que já dura 59 anos e envolve outros grupos guerrilheiros e vários grupos paramilitares, a população do país vizinho sabe que a paz não virá enquanto as partes envolvidas não abrirem mão de algumas de suas posições. "Estão falando muito de paz, mas os colombianos são muito céticos. O conflito começou em 1948. Mal comparando, é como a questão dos israelenses e palestinos, algo que se arrasta ao longo dos anos", diz o jornalista Ricardo Soares, que dirige dois programas especiais sobre as Farc para o Cultura Mundo, da TV Cultura.O primeiro episódio vai ao ar a partir das 21 horas desta quarta-feira, 20, e o segundo no próximo dia 27, no mesmo horário. O documentarista falou ao estadão.com.br de Bogotá, onde capta as últimas entrevistas para um documentário mais extenso, que deve ser finalizado no segundo semestre. Além disso, entre os dias 20 e 27, Soares apresentará boletins diários sobre a situação na Colômbia no Jornal da Cultura, às 22 horas. Em contato com guerrilheiros e com o governo colombiano desde 2001, Soares conta que ficou surpreso com a complexidade do conflito e a correspondente falta de informações sobre o assunto no Brasil. "A mídia brasileira, com raras exceções, é displicente em relação ao conflito", diz ele, que critica a reprodução de clichês disseminados pelas agências de notícia. "Nós brasileiros não sabemos absolutamente nada sobre isso." O Brasil tem 1,6 mil quilômetros de fronteira com a Colômbia, o que, para Soares, faz da questão uma das mais importantes geopoliticamente para o país.Entre os entrevistados para o especial estão o chamado "chanceler" das Farc Rodrigo Granda, recém libertado pelo governo Uribe após pressões do presidente francês Nicolas Sarkozy; o chanceler e ex-refém das Farc Fernando Araújo; e a mãe da ex-candidata à presidência colombiana Ingrid Betencourt, seqüestrada em 2002.Soares falou ainda com o líder das Farc, Raúl Reyes, e dos paramilitares, Salvatore Mancuso, além do presidente Álvaro Uribe e vice-presidente Francisco Santos."O que mais me impressionou foi como os discursos dos dois lados são radicalizados. Ninguém está disposto a ceder", diz o documentarista sobre sua impressão após as entrevista. Ele conclui, entretanto, dando mostras de que apesar das divisões, a população colombiana ainda procura uma forma de superar o trauma de mais de 50 anos de guerra civil. "Acabei de voltar de uma missa apartidária aqui em Bogotá, de parentes de vítimas de seqüestros tanto das guerrilhas quanto dos paramilitares. Mesmo com a Colômbia sendo um país dividido, há momentos em que o país se une."

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