Ed Ferreira/AE
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Uribe não se pronuncia; Brasil considera bases assunto soberano

Presidente colombiano limitou-se a agradecer o diálogo que acabava de ter com integrantes do governo

06 de agosto de 2009 | 18h08

O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, deixou o Centro Cultural Banco do Brasil, onde se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em um rápido contato com a imprensa, Uribe limitou-se a agradecer o diálogo que acabava de ter com Lula e integrantes do governo brasileiro. Ele não fez comentários sobre o encontro nem respondeu a perguntas. Participaram da conversa os ministros da Defesa, Nelson Jobim, e das Relações Exteriores, Celso Amorim.

 

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"Agradeço o diálogo amplo que tive com o presidente Lula", disse Uribe ao concluir a reunião de hoje em Brasília. Ao ser abordado pelos jornalistas que o esperavam na saída da reunião, Uribe simplesmente enviou "uma saudação cheia de afeto ao povo irmão do Brasil".

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se satisfez com as explicações trazidas por seu colega colombiano, Álvaro Uribe, sobre a atuação de soldados americanos em sete bases militares da Colômbia. Ao final de uma conversa de duas horas nesta quinta-feira entre os dois presidentes, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, revelou que o governo brasileiro teme que as tropas dos EUA possam atuar fora do território colombiano. Segundo Amorim, o Brasil não recebeu de Uribe nenhuma garantia sobre essa limitação. Esse mesmo temor foi expresso, dois dias antes, por Amorim e pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao assessor da Casa Branca para Segurança Nacional, general Jim Jones.

 

Na Base Aérea de Brasília, onde se encontrou com um grupo de senadores da Comissão de Relações Exteriores, Uribe afirmou que a Colômbia negocia apenas a renovação do acordo para manter tropa dos EUA em uma única base. Disse, ainda, que ordenou ao embaixador da Colômbia que compareça ao Senado do Brasil e preste todos os esclarecimentos necessários, apresentando inclusive os documentos da negociação com o governo norte-americano. "Ele nos disse que a tropa fará o que sempre faz: ajuda no combate ao narcotráfico", afirmou o senador Heráclito Fortes (DEM-PI).

 

Amorim disse que o Brasil "reiterou que um acordo com os EUA que venha a ser específico e delimitado ao território colombiano é uma matéria da soberania colombiana, sempre quando os dados gerais que se disponham sejam compatíveis com essa delimitação das ações ao território colombiano". O chanceler se esquivou de apresentar à imprensa quais seriam as dúvidas efetivas do Brasil com relação a essa limitação. "O presidente Uribe mais uma vez reiterou que esse é o propósito", reconheceu o chanceler, para logo em seguida sinalizar que a versão trazida pelo líder colombiano ainda está sob suspeita do governo brasileiro.

 

Segundo Amorim, a diluição dessas dúvidas exigirá novas consultas à Colômbia e também aos EUA. Conforme relatou, o presidente Lula exigiu da Colômbia garantias de que o combate ao narcotráfico - a razão do acordo EUA-Colômbia, que está em fase de conclusão - não significará ingerência militar americana na região. Também insistiu que o Conselho de Defesa da União de Nações Sul-americanas (Unasul) é o melhor fórum para a consolidação de um clima de confiança e para que as dúvidas de

seus sócios sejam dirimidas "com tranquilidade, de forma Técnica". Acrescentou que "os países da América do Sul devem assumir o combate ao narcotráfico como algo fazer sem ingerências externas".

 

Após a reunião, o presidente colombiano seguiu rumo à Base Aérea de Brasília, onde se encontrará com um grupo de senadores brasileiros e, em seguida, partirá de volta para Bogotá. A reunião teve o objetivo de discutir a implementação de sete bases americanas na Colômbia. A viagem foi a última escala da viagem de Uribe pela América do Sul. 

 

Mais cedo, o presidente colombiano se reuniu com o colega uruguaio, Tabaré Vasquez. Após o encontro, Montevidéu manifestou sua oposição ao estabelecimento e à existência de bases estrangeiras na América Latina, mas assinalou que respeita o princípio de não intervenção em países da região.

"Me sinto grato ao governo e ao povo uruguaios pelo diálogo", disse Uribe a jornalistas. O presidente evitou comentar sua versão para as bases americanas com a imprensa, e apenas agradeceu a conversa com o presidente uruguaio.

Lula havia dito na semana passada, em São Paulo, que a nova etapa da cooperação militar entre Washington e Bogotá deveria ser discutida pelos 12 países-membros da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) em seu próximo encontro, marcado para o dia 10, em Quito, no Equador. Na ocasião, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, concordou com Lula, mas ontem, ao receber Uribe em Santiago, disse que a decisão que for tomada pela Colômbia será respeitada pelo Chile.

As visitas tiveram início na terça-feira, em Lima, no Peru, onde o presidente colombiano recebeu apoio de seu colega Alan García. Em seguida, ele foi a La Paz conversar com o presidente Evo Morales, que - como a Venezuela e o Equador - se opõe fortemente às bases americanas na região.

Enquanto Chile e Paraguai sinalizaram que o acordo é um assunto interno da Colômbia, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, disse, através de assessores, que os planos não contribuem "para a redução dos conflitos na América do Sul".

Uribe - que, na semana passada, anunciou que não irá ao encontro da Unasul - está visitando, desde terça-feira, 6 dos 12 países que compõem o bloco para explicar o acordo com os EUA.

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