Uruguai diz que sairá da Unasul se Argentina insistir em Kirchner

O governo do Peru, embora de forma mais sutil, também é contra Kirchner para Secretário-Geral da Unasul

Ariel Palacios , O Estado de S. Paulo

14 de dezembro de 2008 | 16h08

O Uruguai afirma que vai se retirar da União de Nações Sulamericanas (Unasul) caso a Argentina insista em pressionar pela candidatura do ex-presidente Néstor Kirchner para o posto de Secretário-geral desse organismo, que reúne todos os países da América do Sul, menos as ilhas Malvinas e a Guiana Fracesa.   A afirmação foi realizada neste domingo, 14, pela imprensa de Montevidéu, que - citando fontes do governo do presidente uruguaio Tabaré Vázquez - indicou que na última reunião privada do Conselho de Ministros, realizado na semana passada, o chanceler uruguaio Gonzalo Fernández comunicou aos colegas a decisão tomada.   Os uruguaios insistirão no cumprimento das normas da Unasul, que sustentam que o posto de Secretário do organismo só pode ser ocupado por alguém que consiga "unaminidade".   O racha poderia ocorrer durante a reunião de cúpula de presidentes dos Mercosul, que será realizada na Costa do Sauípe (BA) nesta terça-feira, 16. Na próxima segunda, 15, desembarcam em território brasileiro os presidentes que participarão do convescote.   Mas a determinada resistência uruguaia não estaria levando o governo da presidente Cristina Kirchner, sucessora e esposa do polêmico ex-presidente, a mudar de idéia. Cristina, segundo o jornal portenho "Clarín", insistiria na candidatura do marido durante a reunião do Mercosul no Brasil. Informações extra-oficiais sustentam que a Argentina pediria que as regras da Unasul sejam modificadas, de forma que o Secretário possa ser designado pela maioria.   Os uruguaios rejeitam a candidadutura por causa do apoio explícito de Kirchner aos manifestantes que na fronteira argentina com o Uruguai protestam há dois anos contra o funcionamento da fábrica de celulose Botnia, situada sobre o rio Uruguai, que divide os dois países. Os manifestantes realizam piquetes, de forma ininterrupta, em uma das três pontes que ligam os dois países. Desde o início dos piquetes, o governo uruguaio protestou, indicando que consistiam em uma violação ao direito de livre circulação dentro do Mercosul.   A crise gerada por Botnia e os piqueteiros argentinos provocou a maior tensão diplomática entre os dois países desde meados do século vinte e levou a Argentina e o Uruguai ao confronto na Corte Internacional de Haia.   Em outubro, o Uruguai explicitou sua rejeição à candidatura de Kirchner, promovida pelo governo do equatoriano Rafael Correa, do venezuelano Hugo Chávez, entre outros, além dos próprios argentinos. Na ocasião, o governo argentino considerou que a recusa uruguaia era uma "afronta não só para os argentinos, mas também para os países que apóiam a candidatura de Kirchner".   Mas o Uruguai não é o único país a resistir a Kirchner. Outros, de formas mais sutis, também evitam apoiar a candidatura. Esse é o caso do governo do presidente Alan García, do Peru. Por intermédio de seu chanceler, José García Belaúnde, deixou claro, há duas semanas, que a escolha do Secretário da Unasul deve ser "consensuada". Na seqüência, com sutilezas, para evitar uma clara rejeição peruana a Kirchner, o chanceler ressaltou: "desde o primeiro momento, houve um país, o Uruguia, que não estava de acordo com essas candidatura".   O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, declarou há um mês e meio que respeita a decisão uruguaia de não aprovar a designação de Kirchner para o comando da Unasul. "É uma postura desse país, e nós a respeitamos". Nos círculos diplomáticos do Cone Sul, comenta-se que o Chile tampouco estaria entusiasmado pela candidatura do ex-presidente, famoso por ser avesso à reuniões de cúpula e eventos internacionais.

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