Uruguaios votam em disputa que migrou para o centro

Favorito, o ex-guerrilheiro Mujica tem discurso moderado assim como seu adversário, o liberal Lacalle

Ariel Palácios, correspondente de O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2009 | 07h56

A campanha para as eleições presidenciais de hoje no Uruguai foram atípicas. Ao contrário do que se esperava, os debates entre dois lados irremediavelmente antagônicos - representados pelo senador e ex-guerrilheiro tupamaro José "Pepe" Mujica, de esquerda, e o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, de direita - não passaram de discussões sobre nuances na política econômica e divergências sutis no âmbito político. Mais do que de costume, nesta campanha eleitoral, o Uruguai tendeu para o centro.

 

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As eleições de hoje, para as quais estão convocados 2,5 milhões de eleitores, confrontam um líder de uma esquerda que não está tão à esquerda, e o representante de uma direita que não está tão à direita. As pesquisas indicam que o eleito será Mujica, um ex-guerrilheiro que deseja atrair investidores estrangeiros, com 49% a 51% dos votos. Lacalle, que hoje afirma não ter intenção de privatizar as estatais uruguaias e sim "modernizá-las", ficaria com 42%.

O analista de opinião pública Oscar Botinelli, diretor da consultoria Factum, disse ao Estado que a média nacional é o centro. "O Uruguai é um país que foi se despolarizando com o passar do tempo e foi caminhando para o centro político", afirmou Botinelli.

Mujica nega semelhanças com figuras políticas tradicionalmente vinculadas à esquerda na região - como os presidentes venezuelano, Hugo Chávez, ou boliviano, Evo Morales - e considera-se mais parecido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mujica ressalta que seu passado de luta armada está enterrado há tempos e define-se como um "pragmático".

"Mujica passou de desprezar a democracia burguesa a valorizá-la e de sustentar um anti-imperialismo radical a admitir que os investimentos estrangeiros diretos e a instalação de multinacionais podem ser positivos para o desenvolvimento", disse o sociólogo Adolfo Garce, do Instituto de Ciência Política.

"Faz parte de nossa cultura a preferência por um ponto equidistante", ressaltou o economista Fernando Lorenzo, que desponta como o virtual ministro da Economia de Mujica. De acordo com Botinelli, o Uruguai possui características diferentes das de outros países do continente na esfera das instituições políticas, já que os partidos são muito fortes, com líderes que têm uma presença mais diluída, menos personalista, similar ao que ocorre na Europa.

"Aqui funciona um regime no qual o presidente está limitado. Não é um presidencialismo puro, como no restante da América Latina." Esse estilo de política, segundo ele, sempre impediu que os extremos pudessem predominar no sistema de poder uruguaio. O analista considera que Mujica está longe de figuras como Chávez. "Se formos fazer alguma comparação, teria de ser com Lula, um moderado. Chávez é populista. Mujica não é, pois vem de uma esquerda clássica. Ele fez uma longa carreira parlamentar, ao contrário de Chávez ou Evo. Hoje, Mujica só quer fazer alguns retoques na política do presidente Tabaré Vázquez."

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