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'Venezuela caminha para a explosão'

Opositor alerta para crise e pede pressão do Brasil para observação eleitoral

Entrevista com

Henrique Capriles, governador de Miranda, na Venezuela

Roberto Lameirinhas, enviado especial/Caracas, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2015 | 11h46

Um dos principais nomes da oposição venezuelana, Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda, na região metropolitana de Caracas, ameaçou a vitória eleitoral do chavista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) em duas eleições presidenciais do país, em 2012 e 2013. Na última, pouco mais de um mês após a morte de Hugo Chávez, obteve 49,1% dos votos e contestou o resultado oficial que deu a vitória a Nicolás Maduro. Capriles, de 43 anos, recebeu o Estado nesta semana na sede de seu comando de campanha. Ele expôs as diferenças com os demais integrantes da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), acusou Maduro de causar a crise com a Colômbia para desviar atenção de problemas econômicos e pediu ao Brasil que pressione o chavismo a aceitar observação internacional na eleição parlamentar de 6 de dezembro.

O sr. esteve perto da presidência por duas vezes e está agora em posição de tentar mais uma vez. Como o sr. se vê no futuro da Venezuela?

Primeiro, da primeira vez não conseguimos. Contra Chávez, que ganhou a eleição. Veja, essa eleição contra Chávez foi uma eleição mais que difícil. Tínhamos a doença de Chávez, ainda que Chávez tivesse dito que estava recuperado. Mas nunca na história da Venezuela o gasto público tinha alcançado as cifras que Chávez gastou para poder se eleger. Foram US$ 60 bilhões naquele ano. Só na campanha eleitoral foram US$ 12 bilhões. Nem em uma campanha pela presidência dos EUA se gasta tanto dinheiro como gastou Chávez para essa eleição. Há uma carta onde o ex-ministro (do Planejamento, Jorge) Giordani critica o esforço que tiveram de fazer e relata como endividaram o país para ganhar a eleição de 7 de outubro de 2012. Mas, contra Maduro, a questão era outra. Maduro não ganhou a eleição. Você pode dizer “mas ele está exercendo a presidência”. Sim, está. Mas exerce o poder sobre a base do controle institucional que construíram sobre o país para manter a presidência. Como se sabe, a eleição (de 2013) terminou nas instâncias internacionais. A mim não foi possível ante os tribunais e o Poder Eleitoral fazer uma auditoria e terminamos nas cortes internacionais. No entanto, sabemos como atuam as instâncias internacionais nesses casos. Não fizeram nada.

Ainda considera que houve fraude?

Estou neste momento escrevendo um livro para narrar o que ocorreu neste dia (da eleição) porque muitos quiseram especular. Perguntam por que não saí para defender os resultados. Por que não insisti. Fiz uma escolha: era uma guerra civil ou esperar. Escolhi esperar. Foi a decisão que tomei. Como líder. E aí te respondo: Decidi esperar. Que significa esperar? Esperar sobre a base de que quero abrir as portas do futuro ao país. Importante: se decidisse ir à guerra, seria ir à guerra para perdê-la.

Parte dos integrantes da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) criticou sua posição...

Houve quem tentasse ocupar espaços questionando nossa posição - com a qual no primeiro momento muitos estiveram de acordo. E depois trataram de redesenhar qual foi a situação naqueles momentos. Ocupar espaços sobre a base de mostrar que eles são os valentes e nós somos os pacientes.

Refere-se ao La Salida (movimento liderado principalmente pelo partido Vontade Popular, de Leopoldo López, no qual manifestantes exigiam a derrubada ou a renúncia de Maduro em fevereiro de 2014, que terminou com 43 mortos)?

Sim. Sim. Isso que está aí. Afinal, o tempo nos deu razão. Hoje, os que promoviam essa política que fracassou, e sabiam que iam fracassar, são candidatos à Assembleia Nacional. Que bom que mudaram de atitude.

O sr. considera que a posição menos radical lhe deu mais espaço político entre os eleitores, incluindo os chavistas?

Se eu tivesse escolhido a guerra, hoje a oposição estaria enterrada. Sabe por quê? Porque Hugo Chávez e o governo durante anos tiveram como símbolo o 11 de abril de 2002, quando se tentou o golpe de Estado. Há anos utilizam esse símbolo sobre a base da ideia de que a oposição é violenta, que a oposição é impiedosa. Não é uma questão entre moderados e radicais. A palavra “moderado” soa como conservador. Não somos conservadores. Mas eu fiz minhas escolhas. Teríamos de perguntar a Simón Bolívar quantas vezes teve de retroceder até que pudesse avançar. A política às vezes não é só avançar. Quando te falo da decisão que tomamos e por que, é porque decidimos construir uma maioria antes de avançar. E é importante construir uma maioria real. Quando se analisa o resultado eleitoral de 2012, constata-se que votaram em mim milhões de pobres. E quando se vê os protestos de 2014, você vê que havia muita gente, mas não estavam lá os pobres. Ali não havia gente pobre. É preciso refletir e perguntar-se por que esses protestos não trouxeram os pobres. Quando se tem um compromisso. Quando se vê a composição social da Venezuela e se observa que a grande maioria é de pobres, e você não entende isso, você nunca vai ter uma maioria. É preciso apresentar um projeto que seja útil, que envolva e apaixone a gente das classes mais baixas, dos setores populares. Foi o caminho que eu escolhi. Organizar uma maioria, mas uma maioria policlassista. Se você convoca uma marcha e nessa marcha só vê gente de uma classe social, não conseguirá convencer nem conquistar a maioria. Acaba sendo algo artificial.

Quais são suas propostas para conquistar essa maioria?

Veja, nesses 7 milhões e 400 mil votos que tive, quase 1 milhão de eleitores que sempre votaram em Hugo Chávez votaram em Capriles. Deve significar que acreditam que tenho capacidade, como líder, de melhorar suas vidas. Desses eleitores, quantos podemos chamar de pobres: 5 milhões, 6 milhões. Que o chavismo, o PSUV, não são eles os únicos que podem falar com os pobres, que representam os pobres. Quando estivemos cara a cara, de acordo com os resultados oficiais, tivemos a diferença de 200 mil votos. Que são 200 mil votos?

Como o sr. vê a situação dessa faixa da população hoje?

A Venezuela é um país em situação de destruição. Sinto dor ao ver o que acontece em meu país. Sou um apaixonado pela Venezuela. Tenho 43 anos. Minha vida poderia ser diferente, poderia descansar um pouco, casar, ter filhos. Mas penso muito no meu país, sou um apaixonado por ele. E me causa dor ver o que acontece. Aqui não há um problema de esquerda ou de direita. O problema da Venezuela não é ideológico. O problema da Venezuela é de uma facção política que só se interessa por permanecer no poder ao custo da destruição do país. Não tenho a visão de ser um novo caudilho nem um líder messiânico, mas alguém com uma missão de que a política deve ser a construção de todos. Não me tome como direitista. Sou promotor do modelo progressista. Creio que o Estado tem de garantir o mínimo fundamental a seus cidadãos, como saúde, educação e habitação. Não há forma de conseguir o progresso se o Estado não garantir a oportunidade para todos. Mas aqui na Venezuela, o Estado se apoderou de tudo: tornou-se dono de indústrias, armazéns, comércios e cresceu, cresceu. O esforço privado foi cada vez mais se reduzindo, a ponto de termos empresários ricos com empresas quebradas. Um setor que deveria também ter sua responsabilidade no processo de reduzir a pobreza.

Essa posição é compartilhada por seus aliados da MUD?

Fora da Venezuela, tem-se a impressão de que há uma oposição que tem muito poder de mídia, muito poder de comunicação. Pois te digo, estou censurado aqui. Pergunte aos jornalistas daqui quanta informação minha sai nas televisões privadas. Zero. E quanto sai dos “salidistas”? Todo o tempo. E ao governo também interessa que aquela seja a cara da oposição. Há companheiros presos, não estou de acordo com isso, estamos lutando pela liberdade deles. Mas, importante, pensamos diferente. Estão presos injustamente porque não estar de acordo com determinada política não é um delito. Agora, nosso plano político para o país é diferente. Há unidade, claro, para irmos a eleições, mas a forma de pensar o país não é igual. No exterior, no Brasil, em toda parte, o que se vê é “bem, essa é a mesa da oposição que é homogênea na Venezuela”. Não é certo. O único que temos como coincidência é que é preciso unir o país.

O sr. enxerga virtudes no governo chavista?

A situação de pobreza foi o que levou Hugo Chávez aonde o levou. Ele foi a consequência de um modelo que entrou em colapso. E Hugo Chávez chegou ao poder com a promessa de promover a justiça social que, hoje, lamentavelmente, se acabou. Tudo o que foi a revolução bolivariana, que perdurou por um tempo, se acabou. Hoje temos a mesma situação de pobreza de quando Chávez chegou ao poder.

Que soluções o sr. propõe para um país como a Venezuela, que praticamente tem no petróleo a única fonte de receita?

A verdade é que nem do petróleo vivemos mais. O que precisamos desenvolver na Venezuela é confiança. Sem isso, não poderemos atrair investimentos para fazer crescer a economia. A renda do petróleo é insuficiente. Se não rompermos esse modelo, o país caminhará para a explosão social. O que vivemos hoje é a situação de um paciente que está na UTI e o governo lhe dá uma bolsa de água quente. Agora, eu pergunto, Maduro não estará buscando uma explosão? Para um autogolpe, para um cenário de ruptura? Quem sabe? Quando olhamos a situação friamente, o petróleo está em US$ 35 (por barril). Quando cai a renda do petróleo, há menos dólares para comprar alimentos. Quase todo alimento que consumimos, importamos. Quando se olha a condição para um novo endividamento, praticamente se torna inviável. Ninguém nos emprestará dinheiro. Os chineses têm dinheiro, mas os chineses não são bobos. Eles não dão dinheiro.

A tentativa de erradicar o contrabando de produtos na fronteira da Colômbia pode trazer resultado?

Caminhamos para uma explosão social e o governo faz o quê? Trata de desviar atenção com um conflito na fronteira com a Colômbia. Há duas semanas, era pelo Essequibo. Agora, com a Colômbia. Quanto tempo demora para resolver a crise na fronteira? Três dias, duas semanas, mais uma semana? E quando vai tratar da economia? Quando vai se ocupar dos problemas econômicos? Maduro está tornando inviável o próprio governo. Apesar do problema de origem que tem o governo, compete a ele tomar as decisões. Nem estou falando da classe média. Falo dos pobres. Porque quando te afeta, quando baixam os subsídios, quando você tenta comprar comida e não consegue, o que fica? O que resta às pessoas? Explosão. Maduro caminha para isso. Você quer que eu te diga qual a solução agora? Eu não sei. Neste nosso quadro, para estabilizar a economia, teríamos de ter o petróleo a US$ 100, ou mais. E isso não vai acontecer nos próximos anos.

Que previsão o sr. faria para a economia, caso se confirmem as previsões de que o preço do petróleo deve cair para perto de US$ 20 por barril?

Insisto, a Venezuela caminha para uma explosão. Você tem visto as filas que há para comprar comida. Não estamos falando de campanhas midiáticas ou coisas imaginárias. Esconder as filas nos porões dos mercados, para que não saia nas emissoras internacionais, não resolve a situação. O que causa a falta de medicamentos, por exemplo? Quando falta algum item alimentar, por exemplo, há paliativos. Se falta pão, compra-se algo como biscoito. Come-se outra coisa. Mas quando falta remédio, há desespero. O que se faz quando falta medicamento? Toma-se um chazinho? E amanhã? Outro chá? E o desespero gera tensão. E quando a tensão não se dissipa, vem a explosão.

Que papel o sr. crê que o Brasil deve exercer nesta crise?

O Brasil tem sua crise política interna, eu sei, mas o Brasil tem responsabilidade, tem peso na região. Não pode fazer vista grossa. Peço muito respeitosamente ao governo brasileiro e reitero a mensagem: uma explosão social na Venezuela pode ter repercussões no Brasil. Pode se tornar uma espiral muito perigosa e um desastre para toda a região. O Brasil não pode ser indiferente a tudo o que ocorre na Venezuela, não pode se restringir a uma declaração simplesmente. O chanceler Mauro (Vieira) esteve aqui com outros chanceleres da região para promover o diálogo, saudamos isso. Mas o governo de Maduro insiste por exemplo em rejeitar a observação internacional para as eleições de 6 de dezembro. O Brasil não pode permanecer indiferente a essa situação. Eu tinha uma viagem marcada para os próximos dias para o Brasil, mas sabemos o calor da situação política brasileira e preferi adiar, pois não quero me meter na política interna do país. Nem peço que o Brasil interfira na política interna da Venezuela. Entendo que a presidente Dilma tenha seus problemas, mas o Brasil tem canais diretos com o governo de Maduro e tem de dizer a ele que é preciso facilitar a observação internacional das eleições. Sinto que há muito silêncio, muita indiferença, muito não querer ver. Algo como quando se fala de Venezuela, alguém desconversa: “Bem, tratemos de outro tema”.

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