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Venezuela segue caminho para ser 2ª Cuba, diz Vargas Llosa

Escritor peruano afirma que existe 'temor crescente a toda forma de crítica' por conta do governo de Chávez

28 de maio de 2009 | 13h48

O escritor peruano Mario Vargas Llosa afirmou nesta quinta-feira, 28, que a Venezuela segue o caminho para converter-se em uma segunda Cuba, segundo afirma a edição do jornal venezuelano El Universal. O autor tem criticado o presidente venezuelano, Hugo Chávez, foi retido na véspera durante uma hora e meia no aeroporto de Caracas e advertido por um funcionário da alfândega que "como estrangeiro, não tinha direito de fazer declarações políticas na Venezuela".

 

Vargas Llosa apontou ainda que não foi instalado no país um regime com o caráter cubano, mas que a Venezuela se aproxima deste modelo de regime. O ex-candidato à Presidência do Peru viajou ao país para participar da conferência "O Desafio Latino-Americano: Liberdade, Democracia, Propriedade e Luta contra a Pobreza".

 

O autor afirmou ainda que sempre as utopias totalitárias tentam substituir a "imperfeita democracia", mas todas fracassaram transformando-se em ditaduras. "Somente dois países do mundo mantêm a ficção da utopia socialista: a Coreia do Norte e Cuba", disse. "Não há dúvida de que o processo em curso aproxima a Venezuela de uma ditadura comunista e afasta o país de uma democracia liberal". "Há espaços de liberdade que todavia estão presentes e acredito que temos que aproveitar se não queremos que a Venezuela deixe de ser uma sociedade democrática e se converta numa ditadura comunista, que é para onde segue este país se o processo continuar".

 

Para Vargas Llosa, existe uma "radicalização do regime", um "temor crescente a toda forma de crítica" que provoca a redução das "liberdades públicas, da liberdade de imprensa, de mercado e de tudo o que é fundamental na cultura democrática". "Se este caminho não for interrompido, a Venezuela se transformará na segunda Cuba da América Latina. Não devemos permitir isso, por isso estamos aqui", insistiu. Segundo o escritor, os 5 milhões de venezuelanos que votaram contra o presidente Chávez nas últimas eleições "terminarão por ganhar esta difícil batalha" e o país "voltará a ser um país livre e democrático".

 

O episódio ocorre em um momento em que o debate sobre a liberdade de expressão toma fôlego na Venezuela. Nesta quarta-feira completaram-se dois anos que a emissora opositora RCTV saiu do ar porque Chávez rejeitou renovar sua licença. Funcionários do setor de comunicações, atores e grupos opositores realizaram no fim da tarde de quarta-feira uma manifestação em Caracas em apoio à RCTV, que agora transmite via cabo de Miami. Em debates, entrevistas e discursos, diversos venezuelanos também demonstraram seu repúdio às ameaças recentes de Chávez contra outra TV opositora - a Globovisión.

 

Em maio de 2007, o governo venezuelano recusou-se a renovar a licença da RCTV, que estava havia 53 anos no ar e era campeã de audiência. A justificativa foi a de que Granier teria participado do fracassado golpe contra Chávez em 2002. Na época, foram realizados protestos em toda a Venezuela em apoio à emissora. Desde então, a Globovisión tem sido a única emissora opositora que ainda transmite na rede aberta - embora apenas para as três principais cidades do país. Mas, há três semanas, o chanceler Nicolás Maduro acusou a emissora de fazer "terrorismo midiático" ao noticiar o terremoto que abalou Caracas no dia 4 sem consultar as autoridades venezuelanas.

 

Após o tremor, a Globovisión disse que sua intensidade foi de 5,4 graus, citando o Serviço Geológico dos EUA. Além disso, o diretor da TV, Alberto Ravell criticou a "reação lenta" do governo. Segundo autoridades, por tais faltas a Globovisión pode ser multada ou obrigada interromper suas transmissões temporariamente. Na sexta-feira, a Organização dos Estados Americanos (OEA) e o relator da ONU para a Liberdade de Opinião e Expressão, Frank La Rue, manifestaram preocupação pelas ameaças do governo venezuelano.

 

Lula adorado por capitalistas

 

O escritor peruano afirmou em Caracas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é "adorado pelos capitalistas brasileiros". Segundo Vargas Llosa, apesar das origens socialistas de Lula, quando ele chegou ao poder, em 2003, adotou uma "política capitalista". "Lula abriu os braços desesperadamente chamando os investimentos estrangeiros, e graças a isso hoje Brasil tem uma economia próspera", continuou.

 

Vargas Llosa ainda ressaltou que, pela primeira vez, existe na América Latina uma "esquerda sensata e responsável" que "adotou o capitalismo" ao se referir ao Brasil. O fórum, inaugurado pelo autor de "A cidade e os cachorros", vai até sexta-feira. O evento foi organizado pela associação civil Cedice (Centro de Divulgação do Conhecimento Econômico para a Liberdade), opositora ao governo venezuelano.

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