Venezuela volta a comprar títulos da Argentina

Financiamento eleva dependência econômica e impede Cristina Kirchner de se afastar politicamente de Chávez

Marina Guimarães, da Agência Estado,

23 de novembro de 2007 | 17h20

Antes de deixar o governo, o presidente Néstor Kirchner voltou a recorrer à amizade que o vincula com o venezuelano Hugo Chávez para conseguir financiamentos. O Ministério de Economia informou que a Argentina emitiu US$ 500 milhões em títulos Boden com vencimento em 2015.   A operação foi realizada na última segunda-feira, mas a publicação no Diário Oficial ainda não foi feita, o que deverá ocorrer nos próximos dias. Pela operação, a Argentina pagou uma taxa de juros de 10,43%, a qual os analistas consideram que está dentro dos valores atuais do mercado.   Desde que declarou que não pagaria sua dívida, a Argentina tornou-se um investimento de risco, mesmo após a tentativa de renegociação. Assim, há poucos interessados na emissão de títulos do país.   Em função disso, a ajuda da Venezuela é fundamental para o governo argentino, o que cria uma situação de dependência econômica que impede a futura presidente Cristina Kirchner de se afastar de Chávez.   Desde 2005 até o momento, a Venezuela já comprou US$ 5,6 bilhões em títulos argentinos, que são revendidos posteriormente pelo país caribenho. Durante este mês, segundo o Ministério de Economia, o governo argentino já conseguiu fundos no valor de US$ 1,309 bi somando os bônus colocados junto à Venezuela, o Bonar colocado na semana passada no mercado local, no valor de US$ 459 milhões, e um financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), de US$ 350 milhões.   Em dezembro, a equipe econômica enfrentará vencimentos de aproximadamente US$ 2,2 bilhões, o maior do ano. Sem um acordo com os hold outs (credores que não entraram na reestruturação da dívida em 2005), a Argentina não pode realizar nenhuma emissão internacional porque corre o risco de ter seus ativos embargados por algum credor.   Além disso, com um cenário mundial turbulento em função da crise provocada pelo segmento sub-prime dos Estados Unidos, a aversão aos investimentos de risco é cada vez maior, o que torna difícil para a Argentina conseguir emitir dívida, mesmo no mercado local.   Assim, por mais que o perfil de Cristina seja social-democrata, como define o analista político Ricardo Rouvier, e que ela queira se aproximar politicamente de Luiz Inácio Lula da Silva e de Michele Bachelet (Chile), a necessidade de financiamento vindo da Venezuela a impede de fazê-lo.   Neste sentido, o analista político Rosendo Fraga afirma que "Cristina vai oscilar entre o Brasil e a Venezuela, como fez Kirchner".

Tudo o que sabemos sobre:
ArgentinaHugo Chávez

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.