Vice de Cristina fala de 'ação intimidatória' contra o Clarín

Megaoperação da receita promove buscas no jornal, maior grupo de comunicação e desafeto dos Kirchner

11 de setembro de 2009 | 07h56

 A ação do governo de Cristina Kirchner contra o Clarín, maior grupo privado de comunicação da Argentina, provocou o repúdio unânime da oposição argentina e até mesmo do vice-presidente Julio Cobos. "Parece uma atitude intimidatória", afirmou, ao mesmo tempo que considerou "difícil de entender" a megablitz de auditores do fisco na sede do jornal.

 

Veja também:

linkApenas cinco de cada cem argentinos votariam em Kirchner

linkCristina aperta o cerco e envia fiscais à redação do Clarín

linkVice de Cristina fala de 'ação intimidatória' contra o Clarín

linkAmeaças à liberdade de expressão espalham-se pela AL

linkAção contra Clarín leva tensão a jornalistas do grupo

linkKirchners tentam aprovar lei com restrições à mídia

 

O jornal afirma que entre 180 e 200 fiscais da Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip) fizeram buscas na sede do Clarín e dos periódicos Olé, La Razón e outras empresas que fazem parte do conglomerado por uma hora. Foram apreendidos documentos e livros contábeis. Um dos fiscais alegou que operação era de rotina, "com o objetivo de investigar a situação trabalhista e fiscal da empresa".

 

A operação marca o ponto mais alto das tensões entre o Clarín e o governo de Cristina. A presidente tenta aprovar às pressas no Congresso uma nova lei de radiodifusão que contraria interesses comerciais do Clarín e de outros grupos privados. O projeto do governo reserva apenas 33% dos canais de TV argentinos às empresas privadas. Os outros dois terços seriam divididos entre o poder público, ONGs, igrejas, universidades e sindicatos.

 

Maurício Macri, ex-presidente do Boca Juniors e atual prefeito de Buenos Aires, considerou que a operação "alimenta os níveis de violência e confrontamento". "Trata-se de algo muito ruim para a democracia", acrescentou.

 

A "manobra pretende amordaçar o diário", disse ao Estado o diretor-geral do Clarín, Ricardo Kirschbaum. "Nunca houve uma operação de intimidação como essa nos 36 anos em que estou no jornal", disse Kirschbaum. "Os inspetores também foram à casa dos gerentes do grupo. Há um clima de intimidação na redação." Segundo Kirschbaum, os fiscais entrevistaram cada um dos funcionários presente "para ver suas condições de legalidade".

 

A operação dos fiscais da Receita coincide com a publicação, na edição de quinta-feira do Clarín, de uma reportagem que revelaria a "concessão de um subsídio irregular de mais de 10 milhões de pesos (US$ 2,6 milhões) do Escritório Nacional de Controle de Qualidade Agropecuária (Oncca), órgão subordinado à Receita, a uma empresa agropecuária sem registro". Segundo o jornal, a Oncca concedeu uma licença provisória à empresa após a liberação dos subsídios.

 

Ao jornal concorrente La Nación, Kirschbaum disse ter recebido um telefonema do diretor da Receita, Ricardo Echegaray, durante a operação. Segundo ele, o chefe dos fiscais "disse que não sabia" (da operação). Echegaray teria dito ainda que "há uma investigação contra dois dos supostos fiscais responsáveis" pela ação no grupo. Em seguida, Echegaray enviou uma carta de desculpas ao jornal e demitiu dois responsáveis pela operação.

 

O repórter do Clarín Daniel Santoro lembrou que a ação foi desencadeada depois que o jornalista Claudio Díaz, que trabalhou na redação do diário argentino até abril, publicou uma carta aberta denunciando o Clarín por subempregar muitos de seus trabalhadores, sonegando obrigações trabalhistas.

 

A Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas, que representa os donos das empresas jornalísticas, repudiou a blitz e sustentou que as desculpas de Echegaray - homem de confiança do casal Kirchner - não são suficientes para "dissipar o sabor amargo da suspeita de perseguição" contra o Clarín.

 

Conflito

 

Desde que chegaram ao poder, em 2003, Néstor e Cristina Kirchner mantiveram a relação mais tensa entre o Poder Executivo e a imprensa desde o fim da ditadura, em 1983. O casal, que costuma evitar o contato com jornalistas, não aceita as críticas dos jornais e, com frequência, afirma que os meios de comunicação são "golpistas". A própria presidente disse, dias atrás: "Sou vítima de um fuzilamento midiático."

 

Desde 2008, quando o governo entrou em conflito com os produtores ruralistas, os Kirchners acusam os meios de comunicação - principalmente o Clarín e seu canal da notícias por TV a cabo Todo Notícias - de "desestabilizar" o governo.

 

Organismos de defesa da liberdade de imprensa afirmam que vários jornais, TVs e rádios foram comprados nos últimos anos por empresários sem tradição na área de mídia. Mas todos tinham em comum o fato de serem amigos dos Kirchners.

 

Associações de jornalistas denunciaram nos últimos anos intensas pressões do governo aos profissionais da mídia, grampos telefônicos e ameaças diversas. Nas últimas duas semanas, escritórios do jornal Clarín foram atacados com pichações de militantes governistas. Enquanto foi presidente, Kirchner nunca deu uma entrevista coletiva. Sua mulher, Cristina, só aceitou entrevistas exclusivas com meios de comunicação aliados do governo.

 

Ela também não veicula publicidade oficial nos jornais críticos. Mas os empresários amigos conseguem farta publicidade do governo. É o caso de Rudy Ulloa, magnata da mídia no sul do país que lançou a revista Atitude, que na capa ostenta polêmico slogan: "Uma revista que não é independente."

 

(Com Ariel Palacios e João Paulo Charleaux, de O Estado de S. Paulo)

Tudo o que sabemos sobre:
ArgentinaClarín

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.