Vitória apertada complica governabilidade de Evo Morales

Mesmo com 60% dos votos, aprovação da Constituição reforça divisão com vitória do 'não' em região opositora

Agências internacionais,

27 de janeiro de 2009 | 09h19

Apesar de ter conseguido respaldo para sua Constituição, uma vitória apertada do presidente boliviano, Evo Morales, pode prejudicar sua governabilidade. Pesquisas apontam que, ainda que consiga cerca de 60% dos votos a favor da nova Carta Magna, Evo foi derrotado na região opositora do país chamada de Meia Lua, acirrando a divisão no país. Evo Morales já rejeitou a proposta de "pacto político" apresentada pela oposição para "revisar o texto da Carta". Num discurso na cidade de Cochabamba, Evo disse que só está disposto a discutir a "aplicação da nova Carta", sem nenhuma modificação.   Veja também: Entenda os pontos polêmicos da nova Constituição da Bolívia   Do ponto de vista de Evo, a vitória é suficiente, mas complicada, porque o governo perdeu vantagem sobretudo nas zonas urbanas. Segundo dados do jornal El País, a nova Constituição conseguiu aprovação massiva nas áreas rurais e campesinas (82% a favor), mas nas cidades o apoio foi muito menos (52%), porque o novo projeto despertou fortes receios na pequena classe média mestiça. A vitória do "não" nos departamentos de Pando, Beni, Santa Cruz e Tarija - Chiquisaca ainda está indefinido - dará forças para a oposição, abatida pelo péssimo resultado que obteve no referendo revogatório de mandatos. Este plebiscito mostrou que a região não está derrotada e que reforçou seu poder no Oriente, deixando claro que Evo pode ter maioria no país, mas não hegemonia territorial.   A nova Constituição amplia o controle do Estado sobre a economia, proíbe os latifúndios e permite uma reeleição para presidente - o que abrirá a possibilidade de que Evo se apresente como candidato nas próximas eleições gerais, que devem ser convocadas para dezembro. Ela amplia os direitos (para alguns, privilégios) dos indígenas bolivianos, o que, segundo a oposição, lhe dá um caráter segregacionista. Seu texto também prevê a concessão de mais autonomia para os Departamentos, com a eleição de legislativos locais, mas não chega perto de atender todas as demandas das regiões opositoras - que queriam cobrar impostos e definir políticas nas áreas de saúde, educação e segurança.   Evo pretende reunir-se nesta terça com seus ministros e vice-ministros para elaborar um plano para a aplicação da nova Carta. Segundo o ministro de Defesa, Hector Arce, o governo quer acelerar a entrada em vigor das autonomias previstas pela nova Constituição - além da departamental há também a municipal e a indígena. Ele diz que o primeiro passo nesse processo deve ser a criação do Conselho Nacional Autonômico, com representação nacional e regional. No ano passado, os quatro departamentos opositores aprovaram estatutos autonômicos em consultas populares não reconhecidas por La Paz.   Logo após divulgados os resultados das pesquisas, Evo fez um discurso relativamente conciliador. Os governadores opositores Rubén Costas, de Santa Cruz, e Mario Cossío, de Tarija, reconheceram a vitória do "sim", mas pediram um novo "pacto social" para revisar o texto da Carta. Seu argumento é de que as populações de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija não aceitarão as mudanças. "O governo não tem condições de impor como bem entender o texto constitucional. Está obrigado a construir pactos", disse Cossío. Evo descartou a possibilidade, afirmando que só está disposto a discutir a "aplicação da nova Carta", sem nenhuma modificação.   Mensagem de Obama   Evo Morales qualificou de "encorajadora" a mensagem de felicitação que recebeu do governo Barack Obama após o referendo realizado no domingo sobre a nova Constituição. "Esperamos que essa mensagem permita que se respeite a vontade soberana do povo e também aprofunde a democracia como estamos fazendo na Bolívia", destacou. O chefe de Estado boliviano lembrou que com o governo George W. Bush existiram "muitos problemas" e que o novo Executivo americano deve respeitar essa decisão democrática. "Sinto que é uma mensagem que vai respeitar as decisões tomadas pelo governo boliviano", assinalou.

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