Vitória apertada do herdeiro de Chávez acirra polarização na Venezuela

Nicolás Maduro, o herdeiro político de Hugo Chávez, venceu a eleição presidencial de domingo por uma vantagem surpreendentemente pequena, que a oposição não reconheceu, avivando as tensões políticas na Venezuela.

PABLO GARIBIAN E ENRIQUE ANDRES PRETEL, Reuters

15 de abril de 2013 | 09h23

Maduro, ex-sindicalista de 50 anos que ascendeu ao topo do chavismo por sua lealdade, teve 50,66 por cento dos votos, contra 49,07 por cento do oposicionista Henrique Capriles. O atual presidente interino terá assim mandato até 2019.

As autoridades eleitorais disseram que o resultado eleitoral mais acirrado em quase meio século é "irreversível", mas o comando da campanha oposicionista afirmou que 3.000 irregularidades registradas durante o dia da votação, somadas aos votos dados no exterior, podem alterar as cifras.

"Eu ganhei, ganhei por quase 300 mil votos", disse Maduro diante de milhares de seguidores no palácio presidencial de Miraflores.

"Saberemos o que fazer se alguém levantar sua insolente voz contra o povo", acrescentou ele em tom desafiador, assegurando que seus adversários buscam desestabilizar a "revolução socialista" iniciada por Chávez, que passou 14 anos como presidente e morreu em 5 de março, vítima de câncer.

Capriles afirmou que irá ignorar o resultado até que haja uma recontagem "voto a voto". No entanto, não convocou seus partidários para que saiam às ruas.

"Esse resultado não reflete a realidade", disse o governador do Estado de Miranda, de 40 anos. "É um sistema que está se derrubando, parece um castelo de arena, que se encostarem nele cai", acrescentou.

O resultado desafiou todas as pesquisas, que apontavam uma clara vitória governista.

O novo líder venceu por uma margem de 230 mil votos, uma sombra dos mais de 1,5 milhão de votos que foram a vantagem de Chávez sobre o mesmo Capriles na eleição presidencial de outubro, quando o líder socialista conquistou um quarto mandato, que não chegou a assumir.

Após o anúncio dos resultados, chavistas festejaram com danças e rojões, e a oposição bateu panelas e reclamou de fraudes, numa tensa apoteose de uma campanha breve, dominada por insultos pessoais ao invés de propostas concretas.

"Capriles deve se queixar ao mundo, é preciso revisar urna por urna", disse o pedreiro Fernando Cabrera, 48 anos, que votou no candidato oposicionista.

Entre os chavistas, o sentimento foi de uma vitória agridoce. "Por um lado estamos felizes, mas o resultado não é exatamente o que se esperava", disse o técnico de informática Gregory Belfort, de 32 anos, que participava da festa no centro de Caracas.

MOMENTO DIFÍCIL

Após a apertada vitória, Maduro terá pela frente enormes desafios econômicos de curto prazo, como as pressões sobre as finanças públicas, a inflação em alta e um grave desabastecimento de produtos básicos.

Além disso, ele enfrentará um país agudamente polarizado. O resultado deixa Maduro debilitado, e ele poderá enfrentar pressões de rivais dentro do próprio chavismo, uma heterogênea mistura de socialistas radicais, políticos pragmáticos, militares conservadores e empresários, antes unidos sob a indiscutível liderança de Chávez.

A campanha dele se baseou em divinizar a figura de Chávez, mas aparentemente muitos venezuelanos preferiram levar em conta questões como a criminalidade, os problemas no serviço público e a corrupção.

Sem o carisma do antecessor, Maduro promete ser o garantidor dos enormes programas sociais mantidos pelo rendimento petrolífero, e que garantem subsídios alimentares, atendimento médicos e moradias.

De imediato, seu triunfo permite um suspiro de alívio de aliados como Cuba, Bolívia ou Nicarágua, cujas econômicas dependem da compra de petróleo venezuelano a preços preferenciais.

Mas resta ver como o governo enfrentará as crescentes distorções econômicas geradas pelo controle estatal sobre o câmbio e os preços, o que asfixia o setor privado e pressiona perigosamente a economia.

"Este é o momento mais delicado na história do chavismo desde 2002", disse o analista Javier Corrales, do Amherst College, dos EUA, referindo-se ao breve golpe de Estado de exatos 11 anos atrás.

"A oposição poderá não aceitar facilmente esses resultados, e será difícil para Maduro demonstrar ao alto comando chavista que ele ainda pode ser um bom líder."

(Reportagem adicional da Redação Caracas)

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