Vitória de Chávez promete acelerar socialismo na Venezuela

O presidente Hugo Chávez iniciou nesta segunda-feira um novo ciclo na Venezuela, prometendo intensificar sua "revolução" e corrigir os erros cometidos durante os últimos 14 anos de importantes mudanças políticas, sociais e econômicas, num país cada vez mais dependente dos altos preços do petróleo.

ENRIQUE ANDRES PRETEL E MARIANNA PÁRRAGA, Reuters

08 de outubro de 2012 | 19h24

Chávez conquistou sua terceira reeleição com mais de dez pontos percentuais à frente do jovem governador Henrique Capriles, que não conseguiu fazer frente aos gastos publicitários e sociais do governo, que geraram mais pressão sobre as finanças públicas.

O líder socialista disse nesta segunda-feira que havia conversado com Capriles, a quem lançou duros insultos durante a campanha eleitoral e o acusou de ser o candidato do "império" e da "burguesia apátrida."

"Acreditem: tive uma agradável conversa com Henrique Capriles! Convidou à Unidade Nacional, respeitando nossas diferenças", publicou Chávez em sua conta no Twitter.

Minutos depois, Capriles informou pela mesma rede social: "Recebi uma ligação do presidente Chávez. Em nome de 6,5 milhões de venezuelanos fiz um chamado à unidade do país e o respeito a todos."

Superado o teste das urnas, onde o militar da reserva obteve 55 por cento dos votos, todos os olhares se voltam para a sua saúde, meses depois de Chávez se declarar curado de um câncer, e para as medidas destinadas a "blindar" seu polêmico projeto político nos próximos seis anos, período em que o presidente completará duas décadas no poder.

"A Venezuela nunca mais voltará ao neoliberalismo! A Venezuela continuará transitando para o socialismo democrático e bolivariano do século 21", bradou Chávez, eufórico, já na madrugada desta segunda-feira, falando da sacada do Palácio de Miraflores para milhares de seguidores.

Com uma Assembleia Nacional dominada por aliados, Chávez terá pelo menos dois anos para promover reformas que garantam seu projeto político antes que um novo Congresso tome posse, em 2015.

Paralelamente, ele deverá consolidar nas eleições estaduais de dezembro o contundente apoio que seus seguidores demonstraram no pleito presidencial.

Apesar de ter percorrido o país inteiro atrás de votos, o candidato único da oposição venceu em apenas 2 dos 23 Estados venezuelanos. Ele aceitou a derrota, mas disse que os 6 milhões de venezuelanos que votaram nele --44,24 por cento segundo os dados mais recentes-- precisam ser ouvidos.

"Lamento muito não ter conseguido. Não ganhei a presidência, mas ganhei milhões de irmãos, que são todos vocês . Sintam-se orgulhosos, porque vocês marcaram um caminho", disse o político de 40 anos nesta segunda-feira pelo Twitter.

A candidatura de Capriles, decidida numa eleição primária em fevereiro, era a maior esperança da oposição para acabar com o governo de Chávez, acusado por críticos de ter polarizado nocivamente o país e de ter arruinado a economia.

O vice-presidente, Elias Jaua, disse à Reuters na madrugada desta segunda-feira que, em seu novo mandato, Chávez manterá sua política de expropriação de empresas, especialmente em setores estratégicos, como energia, alimentação e construção.

Para analistas econômicos, as implicações do triunfo governista são claras.

"O mercado estava esperando um resultado apertado. Como os escrutínios se distanciam disso, esperamos uma pressão para baixo no preço dos títulos da dívida venezuelanos, e se o presidente decidir aprofundar o seu socialismo do século 21, esperaríamos uma rápida erosão da capacidade de crédito em médio prazo", disse nesta segunda-feira a consultoria Nomura, em Nova York.

Muitos especialistas deixaram de prever a cômoda vitória de Chávez, em meio a um panorama muito difuso, de divergência entre as pesquisas.

"Esse não foi o cenário que esperávamos. Definitivamente, desta vez interpretamos mal a dinâmica do país", disse o Barclays em nota a seus clientes.

Os sócios latino-americanos da Venezuela respiraram aliviados por uma vitória que garante a continuidade dos acordos que fazem fluir o vital petróleo a seus países em condições preferenciais e que tanto são denunciados pela oposição.

"Que alívio, o Chávez venceu! Continuaremos sem cortes de energia e com alguns fornecimentos que beneficiam grandemente nosso país", disse José Menéndez enquanto esperava um ônibus em Havana.

Cuba festejou neste segunda-feira como se o triunfo fosse seu, com toda a mídia estatal destacando o resultado.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, disse a jornalistas que a vitória "consolida um movimento político, ideológico, programático anti-imperialista."

Os governos de Brasil, Estados Unidos, Nicarágua, El Salvador, México e Espanha também cumprimentaram a Venezuela.

Segundo a assessoria da Presidência, a presidente Dilma Rousseff manteve conversa de 15 minutos pelo telefone com Chávez, elogiou o processo de votação e disse que o Brasil está à disposição para fortalecer mecanismos bilaterais e de integração regional.

(Reportagem adicional de Nelson Acosta, em Havana; de Carlos Quiroga, em La Paz; e de César Illiano, Eyanir Chinea, Diego Oré e Ana Isabel Martínez, em Caracas)

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