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Zelaya instala base de resistência em fronteira com Honduras

Líder deposto diz que não deixará região por uma semana, apesar de EUA terem anunciado reunião no país

Agência Estado e Associated Press,

27 de julho de 2009 | 19h01

O presidente deposto de Honduras, José Manuel Zelaya, instalou seu itinerante governo no exílio em um pequena cidade nas montanhas na Nicarágua, perto da fronteira hondurenha, a partir de onde pretende relançar sua possível volta ao poder, após ter sido afastado do poder por militares em 28 de junho.

 

Após semanas de viagens entre a América Central e Washington, Zelaya disse nesta segunda-feira que não deixará a região de fronteira por uma semana, apesar de um porta-voz do Departamento de Estado do governo dos Estados Unidos ter dito que ele estaria amanhã, terça-feira, em Washington, para reiniciar as negociações políticas com o governo interino que o depôs. "Nesta semana vou me ocupar do povo hondurenho", disse Zelaya na noite de domingo, na pacata cidade nicaraguense de Ocotal, a 25 quilômetros da fronteira.

 

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O presidente deposto citou um comunicado liberado no domingo no website das forças armadas de Honduras como prova de uma suposta divisão existente entre os militares e o governo interino. O comunicado reafirma a subordinação dos militares às autoridades civis. Mas também manifesta apoio à solução do impasse político que vive Honduras através da mediação internacional. A solução foi rejeitada recentemente pelo governo interino, porque prevê a volta imediata de Zelaya à presidência, agora ocupada por Roberto Micheletti, que antes do golpe chefiava o Congresso.

 

O documento foi visto como um sinal de que o exército hondurenho respalda o processo de negociação interrompido semana passada na Costa Rica, e que também é uma resposta dos militares às acusações de Zelaya. O comunicado indica que as forças armadas "como instituição, respaldam uma solução para a problemática que atravessa nosso país, através do processo de negociação no marco do acordo de San José, Costa Rica". Na sexta-feira, após os militares terem impedido Zelaya de entrar em Honduras, ele os acusou de "traírem o povo hondurenho."

 

"Esta declaração é desnecessária, uma vez que o Exército está submetido ao poder civil, talvez seja uma resposta a Zelaya para ele entenda que os militares não têm nada para lhe dizer", disse o analista político hondurenho Juan Ramón Martínez. O presidente defenestrado tem outra opinião. "Este comunicado das forças armadas fala claramente que existem dois Estados: um civil e outro militar", disse Zelaya, que fez repetidos apelos para que os militares desobedeçam o governo interino civil. "Existe uma rebelião interna."

 

Mas a presença de Zelaya começa a incomodar a Nicarágua. A cidadezinha de Ocotal, por exemplo, foi palco de ferozes batalhas na década de 1980, quando os "Contra" da Nicarágua, apoiados pelos EUA, lutaram na região contra o governo sandinista nicaraguense, atacando o país a partir de Honduras. No domingo, o Partido Constitucionalista Liberal, da oposição nicaraguense, emitiu um comunicado chamando as ações de Zelaya "uma ameaça à paz, tranquilidade e amizade" entre os dois países.

 

"O que eu começo a perceber é que ele (Zelaya) tem alguns problemas em Honduras", disse o camponês José Santo Ochoa, de 66 anos, que na década de 1980 precisou abandonar sua pequena fazenda de café no norte nicaraguense. Na sexta-feira, Zelaya fez uma entrada simbólica em Honduras, quando avançou alguns passos no território do país no posto fronteiriço de El Paraíso. Ele e seus partidários foram impedidos de entrar pelos policiais e soldados, que fizeram uma barreira de escudos e ameaçaram cumprir as ordens de prisão vigentes contra o mandatário deposto. Zelaya recuou.

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