Afastando-se de Bush, McCain aposta em ataques pesados

Para reverter favoritismo de Obama, republicano não poupou críticas durante campanha marcada por polêmicas

Gabriel Pinheiro, estadao.com.br

04 de novembro de 2008 | 07h11

O candidato republicano à Presidência americana, John McCain, teve que correr contra o tempo nestas eleições. Apesar de não ter enfrentado uma extensa sessão de primárias para obter a indicação de seu partido como o rival democrata Barack Obama, poucas vezes o senador pelo Arizona foi projetado na liderança da corrida à Casa Branca nas pesquisas de opinião. Diante da impopularidade do governo de George W. Bush, um republicano, McCain se esforçou para se desvincular do presidente e mostrar sua independência no partido. Lutar contra o cenário amplamente favorável a Obama não foi fácil, e para isso o republicano investiu em ataques pesados.   Como responder às críticas do candidato democrata quando ele dizia que as crises econômica, imobiliária e de ânimo que afligem o país eram resultados de oito anos da política levada a Washington por seu partido? O jeito que McCain encontrou foi usar estes mesmos argumentos para mostrar o quanto esta situação delicada exige um líder "que já foi testado", como ele destacava em seus comícios. Veterano das Forças Armadas americanas, ele já passou por testes difíceis, como quando seu avião foi abatido e ficou por mais de cinco anos nas mãos do inimigo na Guerra do Vietnã. Por isso, ressaltava McCain, ele estava pronto para liderar - enquanto seu rival na disputa, um jovem e inexperiente senador de Illinois, "não entendia" as ameaças globais.   Veja também: Estadao.com.br na terra dos Obamas Diário de bordo da viagem ao Quênia  Confira os números das pesquisas nos Estados Obama x McCain  Entenda o processo eleitoral   Cobertura completa das eleições nos EUA   McCain, no entanto, não ficou apenas nos discursos. Como em uma guerra, ele usou artilharia pesada. Em agosto, por exemplo, após o giro de Obama pela Europa que arrastou centena de milhares de pessoas em um comício na Alemanha, a campanha republicana lançou um comercial que questionava a capacidade de liderança do rival o comparando às popstars Britney Spears e Paris Hilton. "Ele é a maior celebridade do mundo", dizia o anúncio, mostrando imagens do grande evento do democrata em Berlin, "mas está pronto para liderar?", questionava. O vídeo causou grande repercussão nos Estados Unidos e foi altamente criticado pela imprensa. Até mesmo a socialite herdeira da rede de hotéis lançou sua resposta em vídeo, promovendo sua candidatura fictícia contra McCain.   Depois, o republicano lançou outro polêmico comercial que comparava Obama a Moisés, personagem bíblico que abriu o Mar Vermelho, chamando-o de "o escolhido". O vídeo ironizava o que ele considerava protecionismo da mídia americana ao democrata, que estaria atingindo níveis "messiânicos". Semanas depois, na convenção nacional republicana, broches com a foto de Obama e a mensagem "o escolhido" satirizavam o candidato. Mais uma vez, os ataques foram condenados pela imprensa e campanha democrata, que desta vez respondeu com um site que zombava da declaração de McCain e pedia votos para "the one" (o escolhido).   A convenção republicana foi outro fiasco à parte. Por conta do furacão Gustav, que atingiu a mesma região devastada pelo Katrina em 2005 e pelo qual Bush foi acusado de negligenciar o país, o evento teve seu início adiado e se transformou em palco para socorro às vítimas. Além disso, o desastre climático roubou a cena na imprensa, deixando praticamente sem espaço a candidatura oficial de McCain - a convenção democrata ganhou dias de intensa exposição. A vantagem foi que por conta do ciclone, a Casa Branca decidiu que Bush discursaria apenas por videoconferência, evitando também o endosso do impopular presidente na nomeação.   Os ataques, porém, só provocaram o repúdio público de Obama quando o rival disse que o senador democrata tinha vínculos com Bill Ayers, ex-radical que teria planejado atentados contra o governo dos EUA na década de 1960, e o acusou de ter idéias socialistas. Imediatamente a campanha democrata respondeu que as acusações eram falsas, e durante os debates presidenciais Obama aproveitou para negar as afirmações.   A polêmica ficou ainda maior quando os apoiadores de McCain começaram a gritar insultos pesados contra o democrata nos comícios da candidata republicana à vice-presidência, Sarah Palin. Segundo a imprensa americana, frases como "terrorista" e "matem ele" eram exclamadas pela multidão nos agitados eventos de campanha. McCain se defendeu dizendo que não tinha como controlar o que seus eleitores diziam e que condenava esse tipo de ofensa. Obama, por sua vez, afirmou na ocasião que era vítima da "campanha mais suja da história americana".   Sarah Palin   A escolha da governadora do Alasca para colega de chapa de McCain foi outra questão polêmica na campanha republicana. Logo após o anúncio da decisão, os democratas acusaram o republicano de ter escolhido uma mulher para o cargo para na tentativa de atrair os eleitores frustrados de Hillary Clinton, derrotada por Obama na longa sessão de prévias da legenda.   A princípio, Sarah Palin foi bem recebida pelo eleitorado, mostrando-se como uma típica mãe de classe média que lutava para sustentar seus filhos. Conservadora, ela agradou a base mais tradicional do Partido Republicano, que às vezes considerava McCain liberal demais em suas propostas. No entanto, depois de se sair mal em entrevistas à televisão americana, a mídia, os eleitores e até os republicanos começaram a questionar se Sarah foi a escolha certa.   Os escândalos sobre a governadora do Alasca mostraram que a opção poderia ser uma verdadeira âncora para a candidatura de McCain. A mãe conservadora seria avó, já que sua filha adolescente estaria grávida; ela é acusada de abuso de poder por demitir um funcionário que se recusou a dispensar seu ex-cunhado, que enfrentava uma batalha judicial pela guarda dos filhos com a irmã de Palin; em plena crise financeira, o partido gastou mais de US$ 150 mil roupas, acessórios e maquiagem para a candidata e sua família.   O candidato republicano se manteve firme. "Ela é uma reformista e conservadora. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para minha campanha e para a América", disse McCain, respondendo a uma crítica sobre Sarah.   Lutador   Na reta final da disputa à Casa Branca, McCain focou em Estados que tradicionalmente apoiavam os republicanos, mas que nestas eleições estavam passando para o lado democrata. Ohio, Virgínia, Carolina do Norte, Missouri e a sempre disputada Flórida dominaram os últimos dias da campanha republicana, que lutava contra o tempo para reconquistar o território perdido.   Diversas pesquisas mostravam que Obama mantinha a liderança nos Estados onde o democrata John Kerry venceu nas eleições de 2004, mas McCain enfrentava problemas para conquistar regiões onde Bush ganhou nos pleitos anteriores. O republicano, no entanto, seguiu em ritmo acelerado de campanha até o último final de semana da eleição, utilizando o discurso da mudança e reforçando os ataques ao democrata - sinal de que, como um lutador, McCain não cede fácil.

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