Andres Kudacki/AP
Andres Kudacki/AP

Análise: Trump não sabe perder nem quando ganha

Presidente dos Estados Unidos semeia teorias conspiratórias que podem colocar em dúvida até sua própria legitimidade

Claudia Trevisan, Correspondente

26 Janeiro 2017 | 03h02

WASHINGTON - Cinco dias de governo foram suficientes para mostrar que o narcisismo e o descaso pela verdade serão características da presidência Donald Trump. O líder do mais rico e poderoso país do mundo deixou claro que não está disposto a aceitar dados que o colocam em desvantagem na disputa por popularidade com qualquer outra figura pública, ainda que para isso tenha de lançar mão de "fatos alternativos" aos verdadeiros.

Grande parte da energia dos primeiros dias da nova gestão foi dedicada ao esforço de demonstrar que a posse de Trump atraiu um número recorde de pessoas, ainda que todas as fotos e evidências indiquem que o líder absoluto nesse quesito foi o Barack Obama de 2009.

Em um indício de que não sabe perder nem quando ganha, Trump usou um encontro com parlamentares na segunda-feira, 23, para promover a teoria conspiratória de que entre 3 milhões a 5 milhões de pessoas votaram de maneira irregular na eleição presidencial de novembro. O gesto extremo de colocar em dúvida a legitimidade de sua própria vitória é um indício do profundo desconforto de Trump com o resultado da disputa. Apesar de ter vencido a eleição no Colégio Eleitoral, ele foi derrotado pela democrata Hillary Clinton na votação popular direta por uma diferença de 3 milhões de votos, número próximo à população inteira do Uruguai.

Uma fraude eleitoral nessa escala seria um escândalo, abalaria a credibilidade na democracia americana e seria suficiente para levar à anulação do pleito. Afinal, se os votos foram supostamente manipulados para beneficiar um lado, por que não o seriam para favorecer o outro? Mas o mundo dos "fatos alternativos" de Trump não é movido pela lógica, mas pela necessidade de moldar a realidade às suas expectativas de aprovação.

Tudo isso seria folclórico se não representasse uma ameaça fundamental ao funcionamento da democracia americana. Ao questionar os fatos, Trump também ataca a imprensa que os reporta e semeia dúvidas sobre o que é realidade e ficção. Repetindo posições de sua campanha, ele disse no sábado que está "em guerra" com a mídia e que os jornalistas são as pessoas mais desonestas que conhece.

Ao minar a credibilidade da imprensa, Trump abre caminho para promoção de suas teorias conspiratórias e "fatos alternativos", a expressão que parece definir a nova administração americana. Depois de seu porta-voz dizer que sua posse teve a maior audiência da história não só nos EUA, mas no planeta, uma das principais assessoras de Trump disse que ele havia se baseado em "fatos alternativos" para chegar à conclusão.

Os editores do dicionário Merriam-Webster, que define palavras desde 1828, usaram o Twitter para esclarecer que a expressão é uma contradição em termos: "Um fato é uma peça de evidência apresentada como tendo uma realidade objetiva".

Durante a campanha eleitoral, Trump usou de maneira frequente notícias falsas ou fora de contexto para promover sua candidatura e atacar a adversária Hillary Clinton. O Politifact, um dos principais institutos de checagem de dados dos EUA, concluiu que 70% de suas declarações eram falsas ou distorcidas.

Depois dos "fatos alternativos", as vendas de "1984" dispararam nos Estados Unidos, o que levou o livro do britânico George Orwell ao topo da lista dos mais vendidos pela Amazon. Publicado em 1949, ele descreve um universo totalitário, em que o controle é exercido pelo onipresente Grande Irmão.

A frase do livro mais reproduzida no Twitter é um eco "fatos alternativos" da era Trump: "O partido disse para você rejeitar a evidência de seus olhos e ouvidos. Foi o seu comando final e mais essencial".

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