Cidade em que George Floyd foi assassinado vota contra desmonte da polícia

Cidade em que George Floyd foi assassinado vota contra desmonte da polícia

Minneapolis rejeita departamento que buscaria alternativas de saúde pública e assistência social no combate ao crime

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 01h54
Atualizado 03 de novembro de 2021 | 14h45

Os eleitores de Minneapolis decidiram nesta terça-feira, 2, não substituir sua força policial por um novo departamento que buscaria respostas alternativas, focadas em saúde pública e assistência social, em vez da tradicional forma de combate à criminalidade.

Quase um ano e meio após o assassinato de George Floyd, que alçou a cidade ao epicentro do movimento antirracista nos Estados Unidos, a população de Minneapolis escolheu rejeitar a criação de um novo Departamento de Segurança Pública para substituir a estrutura atual.

A consulta à cidade aconteceu simultaneamente às eleições municipais. Além de escolher prefeito e conselheiros (equivalente a vereadores), os eleitores opinaram sobre a proposta relacionada à segurança pública. Dos 142 mil votos, 56,1% foram contrários ao projeto, enquanto os favoráveis somaram 43,8%.

Isso não significa, porém, que a polícia local deve continuar como era quando Floyd foi asfixiado por um agente branco diante de testemunhas e da câmera que registrou a desastrosa abordagem.

Leili Fatehi, uma das lideranças que estiveram à frente da campanha contra a dissolução do departamento de polícia, disse que nenhum dos lados da votação está satisfeito com o status atual do policiamento em Minneapolis —as divergências estão em como fazer as mudanças.

"O que queremos que aconteça a seguir é que os moradores de Minneapolis se unam para cobrar responsabilidade do próximo prefeito e do conselho municipal para arregaçar as mangas e fazer esse trabalho duro sem demora", disse Fatehi à agência de notícias Reuters.

Do lado oposto, JaNaé Bates, uma das líderes da campanha do "sim", disse que, apesar da derrota na votação, o debate público sobre a conduta policial mudou para sempre.

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"O povo de Minneapolis merece ter uma agência de aplicação da lei que seja responsável e transparente, e não é isso que temos hoje", afirmou, prometendo continuar a pressionar instituições por mudanças.

A um ano das chamadas "midterms" (eleições legislativas de meio de mandato, previstas para novembro de 2022), a disputa eleitoral pode ter influenciado o resultado da votação.

A possível dissolução do departamento de polícia dividiu os políticos locais do Partido Democrata. Havia entre parte deles a preocupação de que o fim da corporação como é conhecida hoje servisse de combustível favorável ao discurso dos republicanos.

Opunham-se à medida, por exemplo, o prefeito Jacob Frey, a senadora Amy Klobuchar e o governador Tim Walz. Ainda entre os democratas, nomes considerados mais progressistas, como o do deputado Ilhan Omar e o do procurador-geral de Minnesota, Keith Ellison, eram favoráveis à criação de um novo modelo.

"Se estamos dizendo que George Floyd pode ser assassinado nas ruas desta cidade e não estamos dispostos a fazer nenhuma mudança institucional para resolver isso, para mim isso é triste e um pouco assustador", disse Ellison, antes da votação. O procurador, que mora em Minneapolis, foi o responsável pela acusação a Derek Chauvin, o policial que asfixiou Floyd com o joelho.

Se as propostas de desmonte tivessem recebido o aval da maioria da população, grande parte do regramento da nova corporação só seria discutida pelo prefeito e pelo conselho municipal nos próximos meses. A falta de clareza sobre o que exatamente substituiria o departamento atual foi um dos principais obstáculos à aprovação da medida.

Outro argumento levantado pelos críticos é que o "sim" à dissolução do departamento concretizaria um dos slogans das manifestações, o "defund the police" (algo como "corte o financiamento da polícia"). Para os adversários da proposta, Minneapolis precisa de mais policiais, não de menos.

Os favoráveis admitiam que o número de policiais poderia acabar diminuindo, mas defendiam a tese de que a reforma deveria ocorrer de uma maneira mais ampla, que incluísse formas de abordar causas básicas dos crimes antes que eles aconteçam.

O novo departamento traria à área de segurança pública, além dos policiais, profissionais de saúde mental, especialistas em dependência de drogas e pessoas treinadas para a solução de conflitos.

Haveria também uma mudança na hierarquia do departamento, que passaria a responder não apenas ao prefeito, mas também aos 13 conselheiros da cidade —o que, segundo os defensores, daria à população mais influência nas decisões de como o policiamento é realizado.

Em meio a um aumento nos índices de criminalidade —casos de homicídio, roubos e agressões aumentaram em relação ao ano passado— mais de 200 policiais deixaram a corporação desde o assassinato de Floyd, segundo levantamento da Reuters. Parte dos que permaneceram tem evitado o envolvimento direto com a comunidade temendo se envolver em outros casos críticos.

Na região norte de Minneapolis, onde se concentra a parcela mais pobre e majoritariamente negra, a ideia do desmonte também não foi bem recebida.

"A coisa toda é um movimento progressista dos brancos. Eles estão tentando nos transformar em um grande experimento", disse Teto Wilson, dono de uma barbearia, acrescentando que quem convive com a violência diária não pode se dar ao luxo de tentar novas abordagens drásticas.

Angela Harrelson, tia de Floyd, queria que as mudanças fossem aprovadas, não para abolir a polícia, mas para fazer algo diferente. "Se um profissional de saúde mental ou um assistente social estivesse com a polícia no dia em que meu sobrinho morreu, ele poderia muito bem estar vivo hoje." / REUTERS e AP

 

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