Shannon Stapleton/REUTERS
Shannon Stapleton/REUTERS

Artigo: A triste decadência americana

Joe Biden assumirá a presidência dos EUA não só com uma liderança internacional mais fraca, mas agora fraturada pelas desconfianças e falta de credibilidade internacional.

Alexandre Uehara*, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2021 | 04h00

Os Estados Unidos desenvolveram desde o final do século XIX uma história de crescimento econômico e fortalecimento da sua posição internacional, que atingiu seu ápice ao final da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, o país representava sozinho mais de 50% da economia global e assumiu a liderança global do bloco capitalista. Essa ascensão catalisou a admiração de muitos e conduziu à consolidação do que ficou conhecido como “American Dream” – sonho americano.

Ao final da Segunda Guerra Mundial a rivalidade entre os países capitalistas e comunistas faz emergir a chamada Guerra Fria, na qual os EUA se solidificaram como liderança internacional. Essa posição era também fundamentada pela influência americana nas negociações internacionais e instituições multilaterais como Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Acordo do Atlântico Norte, para citar alguns.

No entanto, ao longo da segunda metade do século XX a participação dos EUA na economia mundial foi diminuindo, ainda que se mantendo como a maior do globo até o momento. Um primeiro reflexo desse enfraquecimento ocorreu em 1971, quando os EUA sofrendo com inflação, desvalorização do dólar e déficit no balanço de pagamentos abandonaram o padrão ouro. Alguns anos depois, em 1985, outro evento que reflete a debilitação americana foi o Acordo de Plaza, envolvendo, além do próprio EUA, o Japão, Alemanha, Reino Unido e França, que conduziu desvalorização do dólar frente às moedas desses países com o objetivo de tentar reduzir os déficits comerciais americanos. O impacto foi internacional, pois, por exemplo, a moeda do Japão, que era responsável pelo maior déficit bilateral dos EUA, valorizou cerca de 41% do iene entre 1985 e 1988.

Com o final da Guerra Fria em 1989 e o esfacelamento da ex-União Soviética em 1991, houve o fim da bipolaridade e os EUA se tornaram a única grande superpotência. No entanto, Washington fiz uma revisão dos seus interesses internacionais e, na medida em que sua participação na economia mundial diminuía aumentava a percepção de que os custos pela manutenção da ordem internacional deveriam ser rateados, por isso as atuações internacionais passaram a ser mais seletivas.

Em 2001, o ataque de 11 de setembro abalou a imagem da super potência e a percepção de segurança no solo dos EUA, pois mesmo o maior orçamento militar não fora capaz de evitar o atentado terrorista. Pouco depois, em 2008, a maior economia do mundo foi abalada, chacoalhando a economia mundial com a crise financeira iniciada com a quebra do o banco Lehman Brothers. Esses acontecimentos enfraqueceram a liderança internacional americana , enquanto a China ascendia com rápido crescimento econômico, internacionalização de suas empresas e alto desenvolvimento tecnológico.

Nesse contexto, de perda de espaços no mundo contemporâneo e dificuldades econômicas, os EUA elegeram como presidente o empresário Donald Trump, que diante desse diagnóstico incorporou aos seu discurso a promessa de colocar novamente o país no primeiro lugar no mundo. No entanto, na prática, as políticas do seu governo levaram ao afastamento do país dos acordos e organismos internacionais e a um enfraquecimento ainda maior da capacidade de liderança americana. Nos últimos anos, a saída unilateral do presidente Trump de acordos negociados ao longo de anos causaram grande desgastes com os parceiros e geraram desconfianças. Como confiar nos compromissos assumidos pelos americanos se um presidente pode numa canetada e sem muitas explicações acabar com eles?

Diante de tudo isso, a democracia era um ativo que ainda restava importante para a uma certa liderança internacional americana, pois representava um certo modelo com o qual o mundo dialogava. No entanto, a invasão do congresso dos EUA no dia 6 de janeiro pelos seguidores de Trump, estimulados pelo próprio presidente, para contestar os resultados das eleições de Joe Biden, enfraqueceu e manchou de maneira triste a democracia americana.

Não se pode contestar que os EUA continuam sendo a maior economia mundial, o maior poder militar e país com grande importância política internacional. Isso não foi graças ao Donald Trump, pois essas posições já eram ocupadas antes dele, mas ele acelerou o enfraquecimento da liderança americana. E, paradoxalmente, ajudou a fortalecer a posição da China, contra a atuou ao longo de todo seu mandato, que passou a ser mais ativa nos órgãos multilaterais e negociações internacionais.

O presidente eleito Joe Biden assumirá a presidência dos EUA não só com uma liderança internacional mais fraca, mas agora fraturada pelas desconfianças e falta de credibilidade internacional.

Coordenador Acadêmico do Centro Brasileiro de Estudos e Negócios Internacionais (CBENI) da ESPM

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