Anna Moneymaker/The New York Times
Anna Moneymaker/The New York Times

Artigo: o que Trump fez pelos venezuelanos-americanos?

Precisamos ver além da fanfarronice e olhar para o jeito que o presidente tratou nossa comunidade nos Estados Unidos

Mariana Atencio, The New York Times

29 de outubro de 2020 | 20h59

MIAMI — Esse ano eu votarei pela primeira vez numa eleição presidencial americana. Registrar para votar online, a opção de enviar a minha cédula ou votar mais cedo — é tudo novo para mim.

A última vez que votei, em 2013 em Caracas, Venezuela, fiquei na fila por horas sob um sol escaldante, cercada de soldados fortemente armados, para votar contra Nicolás Maduro. Depois de depositar minha cédula numa caixa, passei meu dedo mindinho numa tinta roxa, a prova visual de que eu havia votado.

Mesmo assim não pude deixar de me sentir abatida. Uma mancha de tinta não significa nada quando seu voto não vai contar porque o partido no poder está determinado a ficar no poder a qualquer custo.

De lá para cá, mais de quatro milhões de venezuelanos saíram do país em meio à crise econômica e humanitária deflagrada pelas políticas de Maduro. Sou parte dessa nova onda de imigrantes latino-americanos que agora chamam Miami de casa. Nos últimos quatro anos, me tornei cada vez mais assustada com os crescentes ecos de autoritarismo aqui que eu suportava por lá — polarização, ataques à imprensa, culpabilização dos imigrantes, dúvidas jogadas sobre o sistema eleitoral. Eu já vi esse filme.

Nesta primavera me tornei cidadã americana, colocando-me entre os apenas 3% de venezuelanos-americanos no eleitorado da Flórida, de acordo com a Equis Research. Nesse Estado pêndulo, onde cerca de 26% da população é latina, o voto das pessoas de origem porto-riquenha, cubana, colombiana, venezuelana e nicaraguense pode ser decisivo. Em 2016, Donald Trump levou a Flórida com leve vantagem, 48% contra os 47% de Hillary Clinton. Enquanto ela venceu o voto latino de maneira geral, cerca de metade dos eleitores cubanos apoiou Trump.

Venezuelanos-americanos estão profundamente divididos e preocupados sobre os resultados desta eleição — não apenas pelo que ela pode significar para nós aqui, mas também sobre como ela vai afetar nosso país natal.

Enquanto a administração Obama-Biden foi amplamente desatenta para a situação cada vez pior da Venezuela, Trump tem o apoio de muitos venezuelanos-americanos em parte por conta do embargo econômico que sua administração impôs à Venezuela. Ele reforçou isso quando reconheceu formalmente o líder oposicionista Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, e o convidou para o discurso do Estado da União.

A campanha de Trump está agora bancando um papo antissocialista para juntar esses eleitores. Ele acusou Biden de ter um “fraco pelo socialismo” e ser “um fantoche de Castro-Chavistas”. Outdoors nas rodovias da cidade dizem: “Vota Trump 2020. Não ao Socialismo”. É uma mensagem que ressoa para venezuelanos traumatizados ainda cambaleando no estilo de socialismo de Maduro.

Sensação de polarização

A polarização que vemos na Venezuela também migrou para cá conosco. Toda manhã, eu acordo para uma explosão de mensagens políticas no WhatsApp, de família e amigos. Num áudio recente de dois minutos que minha mãe me encaminhou, um analista político venezuelano bem conhecido proclamava de maneira raivosa que qualquer venezuelano que vote por Joe Biden está basicamente apoiando Maduro e as políticas de Hugo Chávez.

A cacofonia reverbera para além do WhatsApp. No dia 2 de outubro, Erika de la Vega, uma apresentadora de TV venezuelana-americana e eleitora de primeira viagem, disse num programa de entrevistas que ela apoiava Biden-Harris e comparou Trump a Chávez. Os comentários negativos nas redes sociais foram rápidos. Meu Instagram foi tomado por mensagens dizendo que De la Vega “não ama a Venezuela”, enquanto outros declaravam que apoiar Biden “é o mesmo que apoiar Maduro”.

Mas Carla Bustillos, que migrou para os Estados Unidos em 1998 e é vice-presidente da Venezolanos Con Biden, vê paralelos desconfortáveis entre Trump e o regime em Caracas. “Para venezuelanos-americanos, assim que você ouve alguém identificar a imprensa como o inimigo, isso traz flashbacks do terrível pesadelo que foi Hugo Chávez”, disse. As questões em que a campanha de Biden se apoia mostram que ele está preocupado com a crescente desigualdade, ela me disse: “Ele realmente quer oferecer às pessoas a chance no Sonho Americano, e isso é algo com que os venezuelanos-americanos se identificam.”

Biden visitou a Flórida pela primeira vez como indicado democrata em setembro. Ele argumentou que seria um presidente melhor para os latinos, destacando seu compromisso com uma reforma de imigração e um novo plano para apoiar a economia de Porto Rico. Ele também jogou US$ 23 milhões em anúncios nas TVs locais.

Mas o empurrão pode ter vindo muito tarde para recuperar terreno perdido. A campanha de Trump e seus delegados fizeram incursões mais profundas nas vizinhanças que me cercam. Como placas de Trump-Pence, pseudo especialistas em política apareceram por toda parte nas redes sociais e em veículos tradicionais, como rádios espanholas, espalhando uma mixórdia de teorias da conspiração que ligam a campanha de Biden a um eixo do mal de Cuba, Irã, China, George Soros e até Bill Gates.

Venezuelanos que podem votar nos Estados Unidos precisam ver além da fanfarronice e olhar para o jeito que Trump tratou nossa comunidade nos Estados Unidos. Apesar de ele ter prometido que “todas as opções estão na mesa” para a Venezuela, ele ainda não cumpriu. Republicanos no Senado repetidamente barraram leis que garantiriam “status temporariamente protegido” para venezuelanos, permitindo a eles viver e trabalhar nos EUA por um tempo limitado sem a ameaça de deportação.

De outubro do ano passado a março, cerca de metade dos pedidos de asilo feitos por venezuelanos foi negado, de acordo com o Transactional Records Access Clearinghouse, da Universidade de Syracuse. Além disso, a gestão Trump deportou um número desconhecido de refugiados venezuelanos via países terceiros, numa possível violação da lei e da política americana.

Esses são os fatos que deveriam estar bem claros no processo de tomada de decisão, e não cortinas de fumaça como comunismo e socialismo.

Na hora do almoço, eu dirigi para o meu local de votação no complexo do Museu Vizcaya. O reggaeton tocava alto nas janelas dos carros chegando perto do local; trabalhadores voluntários nos incentivavam. Enquanto esperei na fila para votar, pensei em qual candidato havia ajudado minha comunidade, tanto na diáspora quanto na Venezuela.

Quando finalmente chegou minha vez, uma voluntária me ajudou a verificar meu certificado de voto adiantado. “Temos uma de primeira viagem!”, ela gritou e aplaudiram. Quando eu coloquei o adesivo “Eu Votei” na minha camiseta, estava tomada de emoção. Numa eleição em que parece que tudo está em jogo, sou lembrada de como a democracia é frágil e de como é um privilégio votar. / Tradução Guilherme Sobota

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