Barack Obama: cigarro, Blackberry e serenidade

Prestes a assumir um país fragilizado, presidente americano eleito terá de lidar com vícios confessos

Patrícia Campos Mello, de O Estado de S. Paulo,

12 de janeiro de 2009 | 14h59

O teólogo Reinhold Niebuhr é um dos "filósofos favoritos" do presidente eleito americano, Barack Obama, segundo ele próprio. Em entrevista a David Brooks, colunista do The New York Times, Obama disse que "ama" Niebuhr, conhecido por suas teorias de igualdade de renda combinadas com política externa robusta. Resumindo as ideias do teólogo, Obama disse que "há maldade, dificuldade e dor neste mundo, e nós devemos ser humildes em nossa crença de que podemos eliminar essas coisas. Mas não devemos usar isso como desculpa para a inação e o cinismo. Temos de fazer esforços sabendo que a missão é difícil, e não oscilar entre idealismo ingênuo e realismo amargo."   Veja também: Ingressos para posse esgotam em 1 minuto O gabinete do presidente eleito  Principais desafios de Obama    Os chamados "falcões" em política externa, que defendem uma posição mais assertiva em vez do pacifismo da ala mais à esquerda do partido democrata, comemoram a admiração de Obama pelas ideias de Niebuhr. O teólogo agrada também a troianos - os ditos liberais festejam o realismo cristão do teólogo e suas inclinações "socialistas."   Mas existe outra seara em que Niebuhr pode inspirar Obama. É atribuída ao filósofo americano, morto em 1971, a famosa "Oração da Serenidade" "Deus, dê-nos serenidade para aceitar as coisas que não podem ser mudadas, coragem para mudar as coisas que devem ser mudadas, e sabedoria para diferenciar umas das outras". A oração, com algumas modificações, é adotada pelos Alcoólicos Anônimos e outras organizações de ajuda a dependentes.   Obama está prestes a assumir o comando da mais poderosa nação do planeta, no momento em que a superpotência está mais fragilizada. Para completar, o presidente eleito dos Estados Unidos terá de lidar com dois de seus vícios confessos, o cigarro e o Blackberry.   "Eu tive algumas recaídas" , admitiu o presidente eleito, ao ser perguntado se havia parado de fumar. Apesar do onipresente chiclete de nicotina e da promessa a sua mulher, Michelle, o futuro presidente confessou ter filado "uns dois cigarros" durante a campanha.   Mas a pressão para ele parar completamente é enorme e grupos anti fumo já estão se mobilizando. Instalar um fumódromo na Casa Branca é impensável e a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, é uma anti tabagista radical que proibiu qualquer vestígio de cigarro no Capitólio.   O Blackberry será outro vício difícil de largar. O Serviço Secreto e agências de inteligência insistem para que Obama pare de usar seu gadget para mandar e receber e-mails, porque isso pode ser uma ameaça à segurança nacional. Afinal, um e-mail de Obama comentando os planos para o Irã seria um prato cheio para hackers.   Mas o presidente eleito continua com seu Blackberry pendurado na cintura, resistindo bravamente. "Eu ainda estou me agarrando ao meu Blackberry, eles estão tentando arrancá-lo das minhas mãos", disse Obama na semana passada.   O fato é Obama não terá nenhuma muleta para enfrentar um déficit de mais de US$ 1 trilhão no orçamento deste ano, a maior recessão desde 1930 e duas guerras. Sem cigarro, sem Blackberry, e com um abacaxi desses, vai ser necessária muita serenidade mesmo.

Tudo o que sabemos sobre:
Barack Obamaeleições nos EUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.