Barack Obama para presidente

Em editorial, jornal 'The New York Times' declara apoio ao candidato democrata à Casa Branca

The New York Times,

24 de outubro de 2008 | 20h46

A hipérbole é a moeda de campanhas presidenciais, mas neste ano o futuro da nação está realmente incerto. Os Estados Unidos estão exauridos e à deriva após oito anos de uma liderança capenga do presidente Bush. Ele vai transmitir a seu sucessor duas guerras, uma imagem global manchada e um governo sistematicamente desprovido de sua capacidade de proteger e ajudar seus cidadãos - estejam eles fugindo de enchentes causadas por furacões, procurando assistência à saúde economicamente acessível ou batalhando para manter suas casas, empregos, poupanças e pensões em meio a uma crise financeira anunciada e evitável.   Veja também: Enquete: Você votaria em McCain ou Obama?  Confira os números das pesquisas nos Estados  Obama x McCain  Entenda o processo eleitoral   Cobertura completa das eleições nos EUA   Por duros que sejam os tempos, a escolha de um novo presidente é fácil. Após quase dois anos de uma campanha cansativa e feia, o senador Barack Obama de Illinois mostrou que é a escolha certa para ser o 44º presidente dos Estados Unidos. Obama enfrentou um desafio após outro, crescendo como líder e colocando substância real em suas promessas iniciais de esperança e mudança. Nós acreditamos que ele tem a vontade e a capacidade de forjar o consenso político amplo fundamental para encontrarmos soluções para os problemas desta nação.    Ao mesmo tempo, o senador John McCain do Arizona recuou cada vez mais para as franjas da política americana, fazendo uma campanha em cima de divisão partidária, luta de classes e até insinuações de racismo. Suas políticas e visão de mundo estão atoladas no passado. Sua escolha de uma companheira de chapa tão obviamente inadequada para o cargo foi um ato final de oportunismo e mal julgamento que eclipsou os feitos de 28 anos no Congresso.   Dada a natureza particularmente torpe da campanha de McCain, o impulso para se escolher com base na pura emoção é forte. Mas há um valor maior quando se observam de perto os fatos atuais da vida americana e as prescrições que os candidatos oferecem. As diferenças são profundas. McCain oferece mais da ideologia republicana do cada um por si, agora em frangalhos em Wall Street e nas contas bancárias dos americanos. Obama tem outra visão do papel e das responsabilidades do governo.   Em seu discurso na convenção democrata em Denver, Obama disse, "O governo não pode resolver todos nossos problemas, mas o que ele deve fazer é aquilo que nós não podemos fazer sozinhos: proteger-nos de danos e proporcionar a cada criança uma educação decente; manter nossa água limpa e nossos brinquedos seguros; investir em novas escolas e novas estradas, e em nova ciência e tecnologia."   Desde a crise financeira, ele identificou corretamente o abjeto fracasso da regulação do governo que levou os mercados à beira do colapso.   A economia   O sistema financeiro americano é vítima de décadas de políticas republicanas desregulatórias e contra impostos. Essas idéias se mostraram erradas a um preço incomensurável, mas McCain - um auto-proclamado "soldado de infantaria da revolução Reagan" - ainda acredita nelas. Obama considera que reformas de longo alcance serão necessárias para proteger americanos e empresas americanas.   McCain fala muito de reforma, mas sua visão é mesquinha. Sua resposta a qualquer questão econômica é eliminar os gastos clientelísticos - cerca de U$ 18 bilhões num orçamento de U$ 3 trilhões -, cortar impostos e esperar que os mercados desimpedidos resolvam o problema.   Obama é claro em que a estrutura fiscal da nação precisa ser modificada para se tornar mais justa. Isso significa que os ricos que foram beneficiados desproporcionalmente pelos cortes de impostos de Bush terão de pagar um pouco mais. Os americanos trabalhadores, que viram seu padrão de vida cair e as opções de seus filhos se estreitarem, se beneficiarão. Obama quer aumentar o salário mínimo e atrelá-lo à inflação, restaurar um clima em que os trabalhadores sejam capazes de organizar sindicatos se quiserem, e expandir as oportunidades educacionais.   McCain, que se opôs aos cortes de impostos de Bush para os ricos como fiscalmente irresponsável, agora quer torná-los permanentes. E embora fale de manter os impostos baixos para todos, os cortes que propôs beneficiariam arrasadoramente o 1% de americanos mais ricos e colocariam o país num buraco fiscal mais profundo.   Segurança nacional   As forças militares americanas - pessoal e equipamento - estão perigosamente espalhadas. Bush negligenciou a guerra necessária no Afeganistão, que agora corre o risco de descambar para a derrota. A guerra desnecessária e assustadoramente cara no Iraque precisa ser encerrada da maneira mais rápida e mais responsável. Enquanto líderes iraquianos insistem numa rápida redução de tropas americanas e num prazo para o fim da ocupação, McCain ainda fala de uma pouco definida "vitória". Com isso, ele não ofereceu nenhum plano real para retirar os soldados americanos e de limitar danos futuros para o Iraque e seus vizinhos.   Obama foi um opositor ponderado e de primeira hora da guerra no Iraque, e apresentou um plano militar e diplomático para a retirada das forças americanas. Obama também advertiu corretamente de que até que o Pentágono comece a retirar os soldados do Iraque não haverá soldados suficientes para derrotar o Taleban e a Al-Qaeda no Afeganistão.   McCain, como Bush, só se concentrou secundariamente nos perigosos desdobramentos no Afeganistão e na ameaça de que o vizinho Paquistão possa rapidamente seguir o mesmo caminho. Obama teria muito a aprender sobre assuntos externos, mas ele já mostrou julgamento mais sólido que seu oponente nessas questões críticas. Sua escolha do senador Joseph Biden - que tem profunda experiência em política externa - para seu companheiro de chapa é outro sinal desse julgamento sólido.   O longo interesse de McCain por política externa e os muitos perigos que seu país agora enfrenta tornam mais irresponsável a escolha da governadora Sarah Palin do Alasca. Os dois candidatos presidenciais falam de fortalecer alianças na Europa e na Ásia, incluindo a Otan, e apoiar fortemente Israel. Os dois falam de melhorar a imagem dos EUA no mundo. Mas nos parece clara a probabilidade muito maior de Obama conseguir isso - e não só porque o primeiro presidente negro apresentaria uma nova face americana para o mundo.   Obama quer reformar a Organização das Nações Unidas, enquanto McCain quer criar uma nova entidade, a Liga de Democracias - uma medida que incitaria fúrias antiamericanas ainda mais ferozes mundo afora. Infelizmente, McCain, como Bush, vê o mundo dividido em amigos (como a Geórgia) e adversários (como a Rússia). Ele propôs a expulsão da Rússia do G-8, o grupo de países mais industrializados, antes mesmo da invasão da Geórgia. Não temos nenhuma simpatia pelas demonstrações de valentia de Moscou, mas também não temos nenhum desejo de reproduzir a guerra fria.   Os Estados Unidos precisam encontrar uma maneira de conter os piores impulsos russos, enquanto preservam a capacidade de trabalhar com eles sobre controle de armas e outras iniciativas vitais. Os dois candidatos falam grosso sobre o terrorismo, e nenhum deles descartou uma ação militar para pôr fim ao programa de armas nucleares do Irã. Mas Obama pediu um sério esforço para tentar afastar o Irã de suas ambições nucleares com aberturas diplomáticas mais confiáveis e sanções mais duras. A disposição de McCain de brincar sobre um bombardeio do Irã foi assustadora.   A Constituição e o império da lei   Com o presidente Bush e o vice-presidente Dick Cheney, a Constituição, a Declaração de Direitos, o sistema de justiça e a separação de poderes ficaram sob ataque constante. Bush preferiu explorar a tragédia de 11 de setembro de 2001, o momento em que ele parecia o presidente de uma nação unificada, para tentar se colocar acima da lei. Bush se arrogou o poder de prender pessoas sem acusação e intimidar o Congresso para conceder uma autoridade irrestrita para espionar americanos. Ele criou incontáveis programas "secretos", incluindo prisões secretas e tortura terceirizada.   O presidente emitiu centenas, se não milhares, de ordens secretas. Tememos que serão precisos anos de pesquisa forense para descobrir quantos direitos básicos foram violados. Os dois candidatos rejeitaram a tortura e estão comprometidos com o fechamento do campo de prisioneiros na Baía de Guantánamo, em Cuba. Mas Obama foi além, prometendo identificar e corrigir os ataques de Bush ao sistema democrático. McCain tem se mantido em silêncio sobre esse tema.   McCain aumentou as proteções aos detidos. Mas depois ele ajudou a Casa Branca a aprovar a estarrecedora Lei das Comissões Militares de 2006, que negou aos detidos o direito de audiência num tribunal verdadeiro e colocou Washington em conflito com as Convenções de Genebra, aumentando em muito o risco para soldados americanos.   O próximo presidente terá a chance de nomear um ou mais juízes para uma Suprema Corte que está prestes a ser dominada por uma direita radical. Obama poderá nomear juízes menos liberais do que alguns de seus seguidores gostariam, mas McCain com certeza escolheria ideólogos rígidos. Ele disse que jamais nomearia um juiz que acredite em direitos reprodutivos de mulheres.   Os candidatos   Será um desafio enorme apenas devolver a nação ao que ela era antes de Bush, começar a melhorar sua imagem no mundo e restabelecer sua autoconfiança e seu respeito próprio. Fazer tudo isso, e levar os EUA em frente exigirá força de vontade, caráter e intelecto, julgamento sóbrio e um comando firme e sereno. Obama tem essas qualidades de sobra. Vê-lo ser testado na campanha há muito apagou as reservas que nos levaram a endossar a senadora Hillary Rodham Clinton nas primárias democratas.   Ele atraiu legiões de novos eleitores com mensagens poderosas de esperança e possibilidade, e seus apelos por um sacrifício compartilhado e pela responsabilidade social. McCain, a quem escolhemos como o melhor candidato republicano nas primárias de seu partido, gastou as últimas fichas de sua reputação de julgamento sólido e de princípio para aplacar as demandas ilimitadas e a visão estreita da ala direita republicana.   Sua fúria compreensível por ter sido expelido das primárias de 2000 numa maré racista visando a sua filha adotiva foi substituída por uma adoção zelosa das mesmas táticas e dos mesmos táticos da vitória a qualquer preço. Ele abandonou sua posição de pensador independente em sua pressa de adotar as ilegítimas políticas fiscais de Bush e de abandonar sua posição de liderança sobre mudança climática e reforma da imigração.   McCain poderia ter se colocado à frente em questões de energia e meio ambiente. No início de sua carreira, ele apresentou o primeiro projeto de lei plausível para controlar as emissões de gases causadores do efeito estufa nos EUA. Agora suas posições são uma caricatura desse histórico: pense em Palin liderando slogans com "perfura, baby, perfura."   Obama endossou algumas perfurações para extração de petróleo no mar, mas como parte de uma estratégia abrangente incluindo grandes investimentos em tecnologias novas e limpas. Obama enfrentou alguns dos ataques de campanha mais duros já suportados por um candidato. Ele foi chamado de antiamericano e acusado de ocultar uma fé islâmica secreta. Os republicanos o associaram a terroristas domésticos e questionaram o amor de sua esposa pelo país.   Palin também questionou o patriotismo de milhões de americanos, chamando os Estados de inclinação republicana de "pró-América". Essa política de medo, divisão e assassinato de caráter ajudou Bush a expulsar McCain das primárias republicanas em 2000 e a derrotar o senador John Kerry em 2004. Ela foi o tema dominante de sua falida presidência. Os problemas da nação são simplesmente graves demais para ser reduzidos a telefonemas automáticos de campanha mordazes e propagandas negativas. Este país precisa de uma liderança sensata, uma liderança compassiva, uma liderança honesta e uma liderança forte. Barack Obama mostrou que tem todas essas qualidades.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.