Saul Martinez/The New York Times
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Biden conseguirá recuperar o terreno perdido junto aos latinos?

Apesar de um recente influxo de dinheiro, os democratas temem que seus esforços de comunicação com um segmento fundamental do eleitorado estejam muito pequenos e muito tardios

Patricia Mazzei, Glenn Thrush e Giovanni Russonello, The New York Times

03 de novembro de 2020 | 17h00

MIAMI — Apesar de uma pressão de última hora para cortejar eleitores latinos nas últimas semanas, Joe Biden está encerrando sua candidatura presidencial em terreno instável e talvez perigoso com este segmento diverso e essencial do eleitorado, de acordo com entrevistas com funcionários democratas, ativistas comunitários e eleitores.

Vários dos estados cuja disputa está no fio da navalha às vésperas do dia da eleição – Flórida, Texas, Arizona e até Pensilvânia – têm grandes populações latinas. Se Biden perder esses estados e, ainda por cima, a eleição, o post-mortem do Partido Democrata certamente trará uma pergunta: Biden fez muito pouco ou chegou muito atrasado para cortejar os eleitores latinos?

“Poderíamos ter feito mais do nosso lado, a campanha de Biden deveria ter feito mais, nós, como partido, chegamos sempre muito atrasados na disputa”, disse Lorella Praeli, presidente da Community Change Action, um grupo progressista com sede em Washington que tem tentado mobilizar os eleitores latinos.

“Estamos sempre deixando as pessoas em suspenso, estamos sempre deixando o poder em suspenso”, acrescentou.

As pesquisas em estados-pêndulo neste outono geralmente mostraram Biden à frente do presidente Donald Trump entre os eleitores hispânicos, mas não em todos os casos – e raramente pela mesma margem com que Clinton liderara em 2016, especialmente entre os homens hispânicos.

É na Flórida que o quadro está especialmente perigoso para Biden. Há anos Trump e sua equipe vêm cortejando agressivamente os conservadores nas comunidades cubana, venezuelana e colombiana dos arredores de Miami, na esperança de compensar suas perdas entre os suburbanos e idosos do estado.

Sua mensagem final – que Biden é refém de “radicais” e “socialistas” – ressoa profundamente na comunidade cubana anti-Castro, e Trump encerrou seus cinco comícios de sábado em Opa-locka, onde havia um antigo centro de realocação para refugiados da ilha.

Uma pesquisa do New York Times/Siena College sobre a Flórida divulgada no domingo mostrou Biden com o apoio de 54% dos eleitores latinos do estado, em comparação com 62% para Clinton quatro anos atrás. Ele e Trump estavam basicamente empatados entre os homens hispânicos do estado. Na semana passada, outra pesquisa na Flórida, da NBC News/Marist College, revelou que Biden está perdendo prováveis eleitores latinos: 52% a 46%.

Faz tempo que os eleitores hispânicos em geral mostram menos lealdade partidária do que os eleitores brancos e negros e são mais inclinados a expressar ambivalência sobre suas escolhas em determinada eleição.

Biden é competitivo entre os eleitores latinos e ainda pode vencer na Flórida com base em sua força com brancos instruídos. Mas, como reconhecem os assessores de campanha, estaria em melhor forma se a campanha tivesse se adiantado para recrutar eleitores pouco frequentes e suavizar o apoio de Trump entre os homens hispânicos no estado.

Mesmo com a campanha de Biden intensificando seus esforços com o banco de telefones e com a publicidade em espanhol nas comunidades porto-riquenhas na Flórida e na Carolina do Norte no fim de semana, ficou claro para muitos envolvidos que já era tarde demais.

“O pessoal do Biden fez um bom trabalho ao tentar recuperar o atraso, mas a cada ciclo é sempre a mesma coisa”, disse Chuck Rocha, que dirige o Nuestro PAC, um comitê pró-Biden que arrecadou US $ 9 milhões para publicidade em espanhol e incentivos para votação. “Todo mundo faz campanha latina apenas nas últimas semanas. Isso tem que mudar”.

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Julián Castro, ex-prefeito de San Antonio cuja candidatura malsucedida à indicação presidencial democrata foi motivada por um apelo aos eleitores latinos, disse que seu partido “precisa fazer muito mais”.

“É necessário um esforço consistente por todo um ano para virar o voto das pessoas e chegar àqueles eleitores que são mais difíceis de conseguir – especialmente no Arizona e no Texas, que estão ao nosso alcance agora”, acrescentou Castro.

O coronavírus também tem sido um empecilho, disse Castro, secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano do presidente Barack Obama e agora assessor de Biden. “Os eleitores latinos gostam do contato pessoal”, disse ele.

O problema geral está enraizado não apenas nos esforços inconsistentes do partido para alcançar os eleitores latinos, mas também nos detalhes da campanha de Biden nas primárias. Foi uma operação com pouco dinheiro, focada nos eleitores negros, um grupo há muito cortejado pelo ex-vice-presidente e que acabou sendo fundamental para sua vitória dentro do partido.

A operação hispânica de Biden, como outras partes de sua campanha, não começou para valer até o verão, quando sua arrecadação de fundos deu uma reviravolta, e ele contratou Julie Chávez Rodríguez, neta do líder trabalhista César Chávez, para supervisioná-la.

Ainda assim, o partido teve alguns sucessos. O Comitê Nacional Democrata investiu pesadamente na microssegmentação de eleitores porto-riquenhos por meio da compra de listas telefônicas em 2019, e Biden deve sua surpreendente força no Texas e no Arizona ao forte apoio dos eleitores latinos.

Autoridades democratas dizem esperar que 9 milhões de eleitores latinos tenham ido às urnas mais cedo pelo correio ou pessoalmente, contra 3,7 milhões em 2016. Muitos desses eleitores são novos – 500 mil dos 2 milhões de eleitores latinos que votaram mais cedo no Texas o fizeram pela primeira vez, segundo uma pessoa que trabalhou no esforço.

Os democratas também começaram recentemente a despejar dinheiro e recursos em esforços de propaganda, com os doadores injetando US $ 28 milhões em três grupos de despesas independentes, com o objetivo de aumentar a participação latina nos últimos dois meses. Isso inclui um recente influxo de dinheiro de Michael R. Bloomberg, o ex-prefeito de Nova York, e Priorities USA, um super comitê de ação política pró-Biden.

Graças a esses fundos, a campanha de Biden conseguiu aumentar suas compras de propaganda midiática em espanhol nas últimas semanas, com gastos de seis dígitos registrados na Flórida, Arizona e Pensilvânia, disse um porta-voz.

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Biden também fez várias viagens à Flórida, e cabos eleitorais como Castro têm cruzado o Cinturão do Sol para estimular o comparecimento às urnas. Na semana passada, a campanha despachou a senadora Kamala Harris, vice na chapa presidencial, para uma turnê de alto impacto pelo Vale do Rio Grande no Texas, embora o próprio Biden não tenha feito campanha no estado, um grande prêmio que muitos em sua campanha ainda veem como alcançável.

Mas muitos dos recursos dos democratas nos últimos dias estão se destinando a fornecer informações básicas de votação para eleitores latinos registrados, em vez de financiar um mergulho mais profundo nas listas para alcançar mais eleitores, ou um grande esforço para mudar a opinião dos hesitantes eleitores do sexo masculino, disseram funcionários do partido.

“Nas nossas conversas de campo, garantimos que eles tenham todas as informações de que precisam para seguir seu plano de votação”, disse Tom Perez, presidente do Comitê Nacional Democrata.

À medida que o dia da eleição se aproximava, os dirigentes do partido e da campanha convergiam para uma única mensagem: direcionar os eleitores para voyavotar.com, um portal da web com informações sobre locais de votação em espanhol.

O esforço tem sido especialmente intenso no Arizona e ao longo do corredor da rodovia Interstate-4 da Flórida, que atravessa o meio do estado. A campanha também aumentou seus esforços em partes da Pensilvânia, onde dezenas de voluntários vasculharam listas de eleitores para ter como alvo os porto-riquenhos que se mudaram recentemente para o estado, um pequeno mas potencialmente significativo grupo de votos nesse campo de batalha crucial.

Os democratas estão contando que muitos eleitores latinos irão às urnas no dia da eleição, como costumavam fazer no passado.

“Em Miami é assim: é difícil prever, porque as pessoas decidem em cima da hora”, disse o senador estadual José Javier Rodríguez, democrata que é cubano-americano.

No domingo, Trump realizou um comício à meia-noite no aeroporto Opa-locka, perto dos enclaves cubano-americanos de Hialeah e Miami Lakes. Os atos de aquecimento para a eleição contaram com uma apresentação do trio cubano Los 3 de La Habana, cuja música Canción de Trump se tornou onipresente em Miami e virou um anúncio em espanhol que a campanha de Trump colocou no topo de sua página do YouTube.

Cary Hidalgo, de 57 anos, caracterizou a eleição como uma escolha entre “o menor de dois males, igual à última eleição”, na qual votou em Trump.

Este ano, ela votou no presidente mais uma vez. “Ele não é político. Ele é rude. Não tem tato”, disse Hidalgo, secretária financeira em uma escola vocacional, a respeito de Trump.

“Mas não gosto sentir que Biden e o Partido Democrata agora estão se inclinando para visões socialistas. Não concordo com isso”, disse Hidalgo, que é cubana-americana. “Foi por isso que meu pai deixou seu país”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU  

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