Bush ofuscou candidatura de McCain, diz cientista político

Retórica de distanciamento do presidente não contornou impopularidade refletida no candidato republicano

Gabriel Pinheiro, estadao.com.br

04 de novembro de 2008 | 07h04

Após oito anos de governo, o republicano George W. Bush deixará a Casa Branca em janeiro de 2009 como um dos presidentes mais impopulares da história dos Estados Unidos. Na terça-feira, começa a eleição que irá eleger o próximo comandante-em-chefe que assumirá a nação em um momento singular - com as intermináveis guerras contra o terror no Iraque e Afeganistão, somadas às crises nos mercados financeiro e imobiliário, surgiu entre a população americana um sentimento quase unânime de que o país não pode seguir na mesma direção.  Veja também:Estadao.com.br na terra dos ObamasDiário de bordo da viagem ao Quênia Confira os números das pesquisas nos EstadosObama x McCain Entenda o processo eleitoral  Cobertura completa das eleições nos EUA A situação chegou a tal ponto que até o candidato republicano à Presidência, John McCain, criticou abertamente o governo Bush e adotou o discurso da mudança, largamente utilizado por seu rival democrata, Barack Obama. Segundo o cientista político Paulo Edgar Rezende, coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional da PUC de São Paulo, no entanto, a imagem do presidente seguiu vinculada a McCain. "Bush sombreou esta candidatura", diz ele. "O Partido Republicano está com uma dificuldade real, e isso é apontado em várias pesquisas."  No final de setembro, uma sondagem do instituto Gallup revelou que apenas 27% dos americanos aprovavam a gestão do presidente americano. A marca o colocou ao lado de Harry Truman e Richard Nixon como os chefes de Estado que enfrentaram maior rejeição popular no país. Por isso, McCain tentou ao longo da corrida presidencial se afastar ao máximo de Bush, reiterando em seus discursos que discordava de muitas decisões do presidente e que sempre manteve independência no Partido Republicano, como forma de sinalizar ao eleitorado que seu governo poderia ser diferente do atual.  Até na convenção nacional do partido, onde o republicano oficializou sua candidatura, Bush não compareceu - como manda o protocolo - para expressar seu apoio ao candidato; em vídeo, o presidente rapidamente cumprimentou McCain e seu nome foi evitado durante todo o evento. Bush também não fez comícios ao lado do candidato de sua legenda: qualquer aparição conjunta poderia servir de argumento para os ataques de Obama que durante toda a disputa reforçam a idéia de que o presidente e McCain representam as mesmas "políticas falidas" que naufragaram o país.  Atrás do democrata em várias pesquisas de opinião, nos últimos dias da corrida McCain chegou a dizer que era Obama quem endossava as políticas de Bush. Para Rezende, o senador pelo Arizona "tomou suas precauções" ao se distanciar do impopular presidente e ressaltar suas propostas diferentes. "Mas será preciso ver se isso foi recurso eleitoral de McCain ou se ele poderia trazer uma nova perspectiva de governo, o que é pouco provável", destaca o analista.  Outros fatores  A escolha da governadora do Alaska, Sarah Palin, para candidata à vice-presidência da chapa republicana foi outro fator que, segundo Rezende, trouxe problemas à candidatura de McCain. Assim que a decisão foi anunciada, o republicano subiu nas pesquisas e provocou euforia na base conservadora da legenda, que a princípio aprovou Sarah - uma republicana tradicional, que defende o porte de armas, se opõe ao aborto e outras questões liberais. Mas depois as sondagens mostraram que tanto eleitores quanto republicanos não acreditavam que ela estaria pronta para governar o país em caso de necessidade.  McCain rebateu sistematicamente as críticas de dentro e fora do partido e defendeu sua vice-candidata. "Ela é uma reformista e conservadora. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para minha campanha e para a América", afirmou o republicano, quando um jornalista da rede Fox sugeriu diante do candidato que a escolha foi um "cálculo frio" que deu errado.  Apesar das desvantagens de McCain, Rezende ressalta que as eleições ainda não estão decididas. "A previsibilidade de pesquisas onde o voto não é obrigatório é problemática. Nos Estados Unidos há dificuldade para encontrar um modelo ideal de sondagem de opinião", comenta. "Além disso, McCain conta com uma certa preferência dos eleitores hispânicos, que é significativa. Esse eleitorado está longe de mostrar rejeição à candidatura republicana."

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