Joshua Lott/Reuters
Joshua Lott/Reuters

Chicago elege Lori Lightfoot como primeira prefeita negra e lésbica

Ex-promotora federal venceu a também negra e democrata Toni Preckwinkle e deverá enfrentar desigualdade econômica e violência na terceira maior cidade dos Estados Unidos

Mitch Smith, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2019 | 02h10
Atualizado 04 de abril de 2019 | 11h01

CHICAGO - Em um fato histórico, Chicago elegeu sua primeira prefeita negra e gay, para enfrentar os difíceis problemas como altas taxas de criminalidade, brutalidade policial, corrupção endêmica, déficits financeiros e falta de recursos para a educação pública na terceira maior cidade dos Estados Unidos. Depois que Rahm Emanuel anunciou que não tentaria outro mandato como prefeito de Chicago, o número de candidatos para substituí-lo parecia aumentar a cada dia. Lori Lightfoot, uma ex-promotora federal que jamais ocupou cargos eletivos, chegou a parecer uma ideia sem importância. 

Mas na terça-feira os eleitores apoiaram Lightfoot por margens esmagadoras e agora ela se prepara para se tornar a primeira mulher negra e a primeira pessoa abertamente gay a assumir o cargo de prefeita de Chicago. O status de outsider de Lightfoot e sua promessa de combater a corrupção política repercutiram entre as linhas divisórias tradicionais de raça e classe da cidade. Com 97% da apuração nos distritos, ela recebeu 73% dos votos e liderou em todos os 50 distritos eleitorais do Conselho da Cidade.

“Hoje, vocês foram além de fazer história”, disse Lightfoot a seguidores na noite de terça-feira. “Vocês criaram um movimento pela mudança.” Lightfoot, uma democrata de 56 anos, usou seu discurso para ressaltar a natureza histórica de sua vitória. Com a mulher e a filha perto, Lightfoot disse que sua vitória provava que Chicago era “uma cidade onde não importa a cor que você é” e “onde não importa quem você ama, contanto que você ame com todo seu coração.” Ela também reiterou sua promessa de investir nos bairros em dificuldades, não apenas no centro da cidade. “Nós podemos e faremos de Chicago um lugar onde seu endereço não determina seu destino”, disse.

No bairro de Logan Square, no noroeste da cidade, Deepti Pareenja, de 37 anos, disse que votou em Lightfoot em parte pela falta de experiência política da candidata. “Temos uma história de corrupção com pessoas que estão entranhadas na política há várias décadas”, disse.

O fato de Lightfoot nunca ter servido em cargos eletivos também a ajudou a ganhar o voto de Michelle Saulnier, uma estudante de 29 anos que faz seu doutorado. “Acho que é muito importante tentar romper alguns desses ciclos nos quais estamos inseridos.”

Don Rose, consultor da campanha de Lightfoot, disse que ela se beneficiou de recentes escândalos de corrupção: “Foi a situação perfeita para algum tipo de excluído, que capturaria esse importante papel e consolidaria o voto de quem tinha em mente uma reforma. As pessoas se cansam”. 

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'Enfrentamos interesses poderosos', disse Lori em seu discurso da vitória, acompanhada por sua mulher e filha. 'Hoje vocês conseguiram mais do que fazer história, criaram um movimento para a mudança'.
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Lori Lightfoot

Toni é presidente do Partido Democrata em Illinois e encarregada do condado de Cook, onde está Chicago, o que segundo os analistas prejudicou sua campanha. "Esta é claramente uma noite histórica, pois até pouco tempo atrás, duas mulheres negras em um segundo turno para a prefeitura, seria algo impensável", disse.

Os eleitores optaram pela mudança, cansados de uma violência armada que mata mais ali do que em qualquer outra grande cidade americana e de anos de corrupção política neste tradicional reduto democrata.

A escolha por Lori Lightfoot

Nesta metrópole de 2,7 milhões de habitantes, diversos grupos se queixam há anos das disparidades nas condições de vida entre as comunidades da extensa cidade, onde a violência armada, intensificada por gangues e pelo narcotráfico, afeta diretamente os bairros mais pobres do sul e do oeste, a maioria deles de população negra.

O distrito financeiro, as áreas do norte e as zonas às margens do lago Michigan viveram boom econômico, ao mesmo tempo em que mais de 500 pessoas foram assassinadas no ano passado - mais que Nova York e Los Angeles, as duas maiores cidades do país, juntas.

Reformar o departamento de polícia, que detém um sórdido histórico de práticas abusivas, e a prefeitura, atualmente na mira por uma investigação federal por corrupção de um de seus membros, são outras das prioridades. 

Os eleitores "estão cansados de corrupção, de investigações federais de funcionários da cidade, da má conduta da Polícia e de uma crise orçamentária", destacou Evan McKenzie, professor de ciência política da universidade do Illinois.

No pleito, apenas 29% dos 1,5 milhão dos eleitores participaram, número menor que os 34% participaram do primeiro turno, em fevereiro, quando tinha 14 candidatos na disputa. 

Esse número foi o resultado do abalo político que levou ao anúncio em setembro do atual prefeito, Rahm Emanuel - que em dado momento foi um astro do Partido Democrata e o primeiro chefe de gabinete da administração Obama na Casa Branca -, de não tentar um terceiro mandato.

Emanuel sofreu alguns arranhões políticos pela gestão do caso Laquan McDonald e decidiu não se apresentar para um terceiro mandato. Em 2014, um policial branco disparou dezesseis vezes contra este adolescente negro de 17 anos, que segurava uma faca, embora estivesse bem afastado do agente.

A divulgação tardia, em 2015, de um vídeo mostrando a morte do adolescente despertou a ira da população e desencadeou meses de manifestações.

Emanuel enfrentou, então, acusações de tentativa de acobertamento. Expulsou o chefe da polícia e iniciou uma reforma da corporação que instituiu algumas mudanças, trabalhou para recuperar a confiança pública e reduzir a violência armada. 

O policial, Jason Van Dyke, foi condenado em janeiro a cerca de sete anos de prisão pela morte de McDonald. / AFP e EFE

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