Crise financeira e política externa dominam debate nos EUA

Obama começa responsabilizando os republicanos pelo colapso; McCain ressalta união bipartidária por solução

Agências internacionais,

26 de setembro de 2008 | 22h08

Foto: Reuters   OXFORD - A crise financeira que atinge os Estados Unidos abriu o primeiro debate entre os candidatos presidenciais americanos Barack Obama e John McCain, e prosseguiu com a temática inicial do debate, a política externa. Questionado pelo mediador do encontro, Jim Lehrer, sobre o posicionamento de cada um sobre o colapso econômico, o senador democrata atacou diretamente as políticas do presidente George W. Bush, afirmando que o país está "num momento decisivo" provocado pelo governo apoiado por McCain, e pediu por rápidas mudanças. O republicano reforçou os esforços bipartidários para a solução da crise e pediu pela aprovação no Congresso do plano de US$ 700 bilhões proposto pelo governo para socorrer o mercado.   Veja também: Galeria de imagens do debate  Em anúncio, McCain vence debate que não ocorreu Obama x McCain Entenda o processo eleitoral   Cobertura completa das eleições nos EUA    Segundo o jornal The New York Times, o republicano tentava se distanciar não apenas do presidente Bush, mas também de seu próprio partido, com a declaração: "Nós republicanos fomos para o poder pada mudar Washington, e Washington nos mudou". McCain declarou que o fato dos candidatos estarem lá "como americanos, não republicanos ou democratas" para discutir a economia representa "o início do fim" do problema. Já Obama destacou que é preciso se perguntar "como nos colocamos nessa situação pela primeira vez?", em alusão às políticas de Bush para o mercado. No entanto, Obama se mostrou otimista ao plano de resgate aos mercados de US$ 700 bilhões. "Estou otimista sobre a capacidade de nós nos unirmos com um plano". "Nossa nação está envolvida em duas guerras e existe a crise financeira. Temos que garantir que o contribuinte receba de volta o seu dinheiro que for usado no pacote", disse Obama.   Ainda sobre economia, McCain afirmou que deixará os gastos sob controle. "Vetarei cada projeto de lei que traga gastos que vier à minha mesa", disse. Obama atacou dizendo que o rival está propondo um corte de impostos de US$ 300 bilhões para os ricos. Perguntados quais propostas da campanha os candidatos teriam de abrir mão se o Congresso aprovasse o plano. Obama reconheceu que terá que fazer decisões difíceis caso se torne presidente diante da crise. "Eu sei que isso representará cortes de gastos, mas o importante aqui são valores. Se cortamos US$ 300 bilhões em impostos para empresas que não precisam desse corte e falta verba estatal, então há algo errado", afirmou o senador, defendendo o fim de incentivos fiscais para grandes empresas.   McCain acusou o rival de querer aumentar os impostos, em particular das empresas, que, segundo o republicano, já possuem algumas das maiores taxas fiscais do mundo. Ele sugeriu um congelamento em todos os programas federais, com exceção da defesa, dos pagamentos e benefícios aos veteranos de guerra e questões como pagamento de aposentadorias da Seguridade Social e gastos no orçamento do Medicare, o programa de saúde. O republicano também afirmou que o democrata aumentaria os gastos do governo em cerca de US$ 100 bilhões com a liberação de novas emendas orçamentárias.   Iraque e Afeganistão   Questionados sobre qual seria a lição tirada do Iraque, McCain afirmou que a incursão americana no país é um sucesso, enquanto Obama respondeu que ela foi errada. Segundo Obama, o país perdeu "quatro mil vidas, e o mais importante: a Al-Qaeda está ressurgindo". McCain destacou os êxitos da guerra, como a queda nos índices de violência, e disse que o próximo presidente "terá que decidir como e quando sair do Iraque e do Afeganistão", criticando o proposta de saída rápida de Obama. O democrata replicou: "McCain está certo ao dizer que a violência está diminuindo, mas com uma estratégia de contenção de danos" da ação americana no país, o que segundo o democrata, não representa solução. "Vocês disseram que haviam armas de destruição lá. Não tinha. Vocês estavam errados", atacou Obama.   Enquanto Obama dizia que "não precisamos de mais tropas contra Osama Bin Laden" e defendia o uso das forças militares "com sabedoria", McCain acusou Obama de não entender a diferença "entre uma tática e uma estratégia", e sugeriu que Obama visitasse o Afeganistão. "Se estivermos bem protegidos no Iraque, estaremos a salvo. Senador Obama não entende a conexão disso", afirmou o senador republicano. MCain disse ainda que "se estivermos bem protegidos no Iraque, estaremos a salvo. O senador Obama não entende a conexão disso". Obama respondeu com uma risada.   Sobre o papel do Paquistão na luta contra o terrorismo, as posições dos candidatos se inverteram: Obama se colocou ao lado de Bush, que autorizou ataques na fronteira afegã, enquanto McCain disse "que não estava preparado para ameaçar" o Paquistão, aliado americano, dizendo que era preciso apoiar o país. "Se os EUA têm a Al-Qaeda, Bin Laden e seus militantes na mira, e se o Paquistão não atuar o foi incapaz de agir, então deveremos eliminar a insurgência", afirmou Obama. McCain acusou Obama de defender o bombardeio do Paquistão, aliado dos EUA na guerra ao terror, mas cujas relações com Washington estão estremecidas, após as constantes incursões americanas contra o Taleban em território paquistanês perto da fronteira afegã.   "Ninguém falou em atacar o Paquistão", disse Obama. "Durante dez anos, apoiamos Musharraf e alienamos o povo paquistanês e gastamos lá US$ 10 bilhões", disse Obama, que disse que a ajuda ao Paquistão precisa ser reavaliada. O republicano ressaltou que não apoiaria uma política de ataques contra o Paquistão, e que não é a favor de cortar a ajuda ao governo paquistanês por falta de cooperação por não combater eficientemente os militantes que usam o país como base para organizar a insurgência no Afeganistão. Temos que apoiar o povo do Paquistão e ajudar o governo paquistanês. Precisamos conseguir a cooperação do povo paquistanês na luta contra a Al-Qaeda e o Taleban", disse McCain.   Regime iraniano   Perguntados sobre o Irã e a questão do programa nuclear desenvolvido pelo país, McCain não repetiu seus argumentos anteriores de que seria melhor atacar Teerã ao invés de viver com uma bomba atômica iraniana. McCain utilizou o argumento de Bush: negociar diretamente com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, poderia torná-lo "legítimo". Sua posição era de não se sentar com os iranianos até encontrar "pré-condições". Segundo o New York Times, essa foi a política do governo americano desde 2006: o governo Bush se recusou a negociar com o Irã até que eles suspendessem a construção de centrífugas que produziam urânio.   "Barack Obama disse em debates anteriores que se sentaria para negociar sem condições prévias com líderes como o cubano Raúl Castro, o venezuelano Hugo Chávez, e o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que hoje, por certo, na ONU falou de exterminar o Estado de Israel", disse McCain. "O que Obama não entende é que se sentar na mesa com pessoas como essas é perigoso", ressaltou o republicano, em alusão a Ahmadinejad. "Obama disse duas vezes em debates que ele sentaria ao lado de Ahmadinejad", afirmou McCain. "E Ahmadinejad está agora em Nova York, falando sobre destruição". McCain afirmou ainda que o Irã com armas nucleares desencadearia a ameaça de um "segundo Holocausto" contra judeus israelnese e provocaria uma corrida armamentista na região.   Obama respondeu afirmando que negociar não se tratava de um convite para tomar chá, e reforçou o direito de sentar para negociar "com quem achar melhor e no momento que desejar". O democrata insistiu na discussão diplomática, afirmando que ela pode não funcionar, mas será um argumento para impor novas sanções ao regime iraniano. "Meu compromisso é de me encontrar com qualquer pessoa que seja preciso se isso ajudar a manter o país seguro".   O democrata afirmou que a Guarda Revolucionária Iraniana, a força de elite do governo de Teerã, é terrorista. "O Irã apóia financeiramente o Hezbollah, o Hamas, não podemos incentivar uma guerra nuclear. Precisamos de sanções mais duras, e precisamos de cooperação com a Rússia e a China para isso. Temos o interesse de garantir que o Irã não tenha armas nucleares, mas precisamos incentivar o diálogo. Cortar relações diplomáticas nunca ajudou", afirmou.    Relações com a Rússia   Sobre a situação de instabilidade provocada pela incursão russa na Geórgia, Obama disse que os EUA devem ser cautelosos, e que os EUA devem lidar com Moscou considerando os interesses de segurança nacional de Washington. "Nossa abordagem com a Rússia deve ser reavaliada, porque é um país que ameaça a estabilidade e paz. Claro que o que acontece na Geórgia não é aceitável, e devemos garantir que a Rússia remova suas tropas da província separatista georgiana da Ossétia do Sul. Mas não podemos repetir um cenário de Guerra Fria nesse momento".   McCain foi crítico em relação à Rússia. A Rússia se tornou uma nação apoiada pelos dólares do petróleo. Eu vejo a KGB nos olhos de Putin", declarou McCain, reafirmando que a posição russa no conflito com a Geórgia foi inaceitável. "As intenções da Rússia estavam muito claras há muito tempo na Geórgia", disse o candidato republicano, advertindo que a Ucrânia poderia ser o próximo objetivo pois, entre outras coisas, a Rússia procura recuperar a península da Criméia onde a frota do Mar Negro tem sua base e que Stalin cedeu à Ucrânia. "Nós vamos apoiar a inclusão da Geórgia e da Ucrânia na Otan", continuou. "Essa é uma situação muito difícil, temos que trabalhar com os russos, mas temos que apressá-los para respeitar os vizinhos."   11 de setembro   Em alusão à segurança nacional, questionados sobre as chances de um novo 11 de setembro, Obama deu "muito crédito" a McCain por se opor à tortura aos terroristas, mas afirmou que os EUA têm se enfraquecido desde o 11/9 e que o maior desafio do próximo presidente será restaurar a posição americana. Ele disse que a administração Bush - junto com McCain - focou somente o Iraque por todos esses anos, enquanto Osama Bin Laden continuava forte.  "Estamos mais seguros em alguns pontos. Investimos mais na segurança de aeroportos e em outros tipos de segurança. Mas ainda temos um longo caminho pela frente. Não fizemos nada na segurança de transportes, de portos", apontou o democrata.   McCain, por sua vez, destacou a segurança do país. "Eu acho que somos uma nação mais segura hoje, mas que temos um longo caminho", afirmou McCain. "Temos muitas áreas que eu discordo dessa administração", disse McCain, novamente se afastando de Bush, mas em seguida ele destacou que tem "orgulho" do que foi até agora para proteger os Estados Unidos, um trabalho de "democratas e republicanos."   Obama queria garantir aos americanos que ele é o mais indicado para a missão presidencial de ser o comandante em chefe das forças armadas do país. Com os eleitores sofrendo com a crise financeira e muito ansiosos com o futuro, ele precisava mostrar empatia, principalmente com a classe trabalhadora, que até agora não demonstrou um entusiasmo grande pela sua candidatura. McCain, que abriu sua campanha enfatizando sua longa experiência em Washington, agora enfrenta o desafio de se separar do impopular presidente Bush, que é cada vez mais reprovado pelo opinião pública, agora que o mercado financeiro ameaça ruir. Ele também precisava afastar preocupações com a sua idade e por ter sofrido câncer de pele.   Obama, de 47 anos, tenta ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. McCain, de 72 anos, espera ser o mandatário com mais idade na história do país, e fez piada com isso. "Andei por aí por um bom tempo", disse McCain. "Por acaso você tem medo que eu não te escute?", perguntou uma hora a Obama, que havia repetido a ele um comentário. Ao final do debate, McCain disse que sabia "como curar as feridas da guerra, como negociar com nossos adversários e com nossos amigos". Obama partiu para o ataque: "o novo presidente tem de ter uma visão estratégica mais ampla, o que tem faltado nos últimos oito anos."   Matéria atualizada às 0h35.

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