Sarah Silbiger / The New York Times
Sarah Silbiger / The New York Times

Democratas retomam Câmara e complicam metade final do mandato de Trump

Derrota republicana deve travar aprovação de projetos do presidente no Legislativo e intensificar investigação sobre possível elo dele com russos

O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2018 | 04h36
Atualizado 07 Novembro 2018 | 10h31

WASHINGTON - Depois de oito anos, os democratas retomaram o controle da Câmara dos Deputados nas eleições legislativas dos Estados Unidos de 2018 ao ganharem as cadeiras necessárias em distritos nos quais o presidente Donald Trump é impopular. O Senado, no entanto, permanece nas mãos dos republicanos. A votação de meio de mandato é considerada o primeiro teste para o governo e um referendo sobre o mandatário em um país muito dividido.

De acordo com resultados parciais divulgados nesta quarta-feira, 7, os democratas conquistaram 219 cadeiras contra 193 dos republicanos na Câmara. Para garantir a maioria da Casa, são necessários 218 assentos. No Senado, o Partido Republicano já tem 51 vagas contra 45 do Partido Democrata, o suficiente para manter a maioria. Além disso, agora o país deve contar com 25 governadores republicanos e 22 democratas. Nestas eleições estavam em jogo todos as 435 vagas da Câmara, 35 cadeiras do Senado, 36 governos de Estados americanos, além de vários cargos locais, como prefeitos, juízes e xerifes. 

Mesmo que os democratas não venham a promover um julgamento político contra Trump, como se especulou, agora poderão comandar as comissões de controle da Câmara, impulsionar projetos de lei, bloquear iniciativas do presidente, investigar suas finanças e aprofundar a investigação sobre a suspeita de conluio entre sua equipe de campanha e a Rússia em 2016.  

Apesar do revés, Trump - que acompanhou os resultados da Casa Branca, onde passou o dia recluso com amigos e parentes - disse que as eleições de meio de mandato foram um "tremendo sucesso". "Muito sucesso esta noite. Obrigado a todos", agradeceu ele no Twitter. Embora a "onda azul" anti-Trump não tenha se concretizado, a perda de domínio na Câmara complica suas perspectivas. 

Líder democrata na Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, da Califórnia, afirmou: "Estamos orgulhosos dos resultados nas eleições de meio de mandato". Em discurso feito em Washington, a deputada destacou que "amanhã (quarta-feira) será um novo dia para os EUA".

Em meio a gritos que a chamavam de "speaker", sugerindo que ela seria a próxima presidente da Câmara - apesar da oposição que enfrenta entre algumas alas do Partido Democrata -, a deputada agradeceu aos candidatos que "ajudaram a retomar" o braço do Legislativo americano, antes controlado pelos republicanos. Ela agradeceu também aos eleitores por "deixarem o futuro das crianças melhor". 

Pelosi defendeu que é preciso "parar com as propostas republicanas para a saúde", criticadas por democratas por priorizar o corte de gastos. Ela destacou que gostaria de dar continuidade a projetos de investimento em infraestrutura para gerar mais empregos, além de afirmar que deseja "limpar os EUA" da corrupção. Segundo ela, o Partido Democrata vai comandar a Câmara "de forma aberta e transparente".

O chefe de gabinete da líder democrata, Drew Hammil, disse em sua conta no Twitter que Trump ligou para cumprimentá-la pela vitória democrata na Câmara. Ele reconheceu a derrota e agradeceu o bipartidarismo mencionado no discurso de Pelosi.

Pelosi se transformou em 2006 na primeira mulher a chegar à presidência da Câmara dos EUA na História, mas em 2010 os democratas perderam a maioria para os republicanos, momento em que passou a ser a líder da minoria. Horas antes da vitória, ela descartou em entrevista à emissora PBS a realização de um processo de impeachment para buscar a destituição de Trump, e preferiu mostrar-se como o freio das políticas abusivas dos republicanos. 

Cenário

Na Câmara dos Deputados, os democratas conseguiram vencer em Estados-chave, como Virgínia, Flórida, Pensilvânia e Colorado. Já os republicanos consolidaram sua posição no Senado arrebatando cadeiras em ao menos dois Estados - Indiana e Dakota do Norte - e mantendo as atuais no Tennessee e Texas, que estavam sob ameaça.

A democrata Donna Shalala conquistou a cadeira pela Flórida que foi ocupada durante anos por Ileana Ros-Lehtinen, a primeira cubana-americana eleita para o Congresso. Na Virgínia, a democrata Jennifer Wexton bateu a republicana Barbara Comstock, que tentava a reeleição e havia se distanciado de Trump, consciente do descontentamento da população em relação ao presidente, especialmente entre as mulheres.

Já na briga pelo Senado, os republicanos acertaram um duro golpe nos democratas ao arrebatar a cadeira de Joe Donnelly em Indiana, derrotado por Mike Braun, candidato apoiado pelo presidente. Donnelly era um dos cinco democratas que defendiam sua cadeira no Senado em locais onde Trump venceu em 2016 e onde a política econômica atual seduz os eleitores.

O democrata Joe Manchin conquistou sua cadeira de senador pela Virgínia Ocidental, outro Estado em que Trump venceu em 2016. O veterano de 71 anos enfrentou o republicano Patrick Morrisey, apoiado pelo magnata.

Em New Jersey, o democrata Bob Menéndez, de 64 anos, foi reeleito, um alívio para o seu partido, que temia que as acusações de corrupção pudessem beneficiar seu adversário, Bob Hugin. Menéndez, senador desde 2006, teve sua popularidade abalada após ser julgado por suposta ajuda a um médico em troca de diárias em hotéis de luxo em alguns balneários.

No Texas, o republicano Ted Cruz derrotou o democrata Beto O'Rourke em uma das disputas mais acirradas destas eleições. A vitória de Cruz sobre O'Rourke, um carismático congressista e antigo membro de uma banda de punk rock, cuja campanha foi apoiada por estrelas como Beyoncé e LeBron James, era fundamental para manter a hegemonia republicana no Senado.

O ex-candidato à presidência dos EUA Mitt Romney foi eleito para o Senado no Estado de Utah, vencendo a democrata Jenny Wilson. "Me comprometo a representá-los com dignidade, integridade e de uma maneira que os orgulhe", disse ele no Twitter. Crítico ferrenho de Trump durante a campanha presidencial de 2016, a quem chamou de "charlatão", ele vem baixando o tom de suas declarações sobre o presidente.

Fazendo história

O democrata Jared Polis se tornou o primeiro homem abertamente homossexual a governar um Estado americano - o Colorado - ao derrotar o republicano Walker Stapleton. Polis, de 43 anos, que não escondeu sua orientação sexual durante a campanha, substituirá o governador democrata John Hickenlooper, que dirige o Estado desde 2011.

A jovem estrela dos democratas Alexandria Ocasio-Cortez, de origem porto-riquenha e nascida no Bronx, em Nova York, se tornou a mulher mais jovem eleita para o Congresso, aos 29 anos. Defendendo com orgulho suas raízes e sua latinidade, ela promete ser uma campeã da classe trabalhadora na qual tem origem, e manteve a cadeira em uma região claramente democrata, após derrotar nas primárias o veterano Joe Crowley.

No Kansas, a democrata Sharice Davids se transformou na primeira mulher indígena americana a chegar ao Congresso. Advogada de 38 anos, a ex-lutadora de artes marciais e homossexual declarada derrotou o deputado republicano do Estado, Kevin Yoder. 

Além disso, as democratas Ilhan Omar e Rashida Tlaib se tornaram as duas primeiras muçulmanas eleitas para o Congresso americano, pelos Estados de Minnesota e Michigan, respectivamente. Ilhan, uma refugiada somali, escreveu no Twitter para Rashida, nascida em Detroit e de origem palestina, que "não pode esperar para compartilhar uma bancada" com ela.

Em Vermont, Christine Hallquist, ex-presidente de uma companhia de energia, fracassou em sua tentativa de se tornar a primeira governadora transgênero dos EUA ao ser derrotada pelo atual governador, o republicano Phil Scott. Com 62 anos e sobrevivente de um câncer, ela entrou para a política para promover a "onda azul" contra Trump, que tem sido um obstáculo aos direitos das pessoas transgênero.

Na Flórida, o democrata Andrew Gillum, que aspirava a ser o primeiro governador negro do Estado, foi derrotado pelo republicano Ron DeSantis.

As redes de televisão americanas mostraram longas filas de pessoas esperando para votar, em uma eleição cujo grande interesse foi revelado pelos 38 milhões de votos antecipados nos Estados que permitem essa modalidade, 40% a mais do que na votação de meio de mandato de 2014. / NYT, AFP e EFE

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