Win McNamee/Getty Images/AFP
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Democratas vão para debate em New Hampshire em meio a recontagem em Iowa

A primeira prévia democrata se tornou um pesadelo para o partido e e coloca em dúvida o sistema eleitoral americano como um todo

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2020 | 04h01

DES MOINES, IOWA - O caos da contagem dos votos do caucus do Partido Democrata no estado de Iowa continua, enquanto os pré-candidatos se preparam para mais um debate que abre a segunda prévia, a de New Hampshire, na terça-feira, 11.

Com uma vantagem de 0,1% sobre o senador Bernie Sanderso ex-prefeito de South Bend Pete Buttigieg chegou a ser declarado vencedor, mas o resultado não é definitivo até terminar a recontagem, segundo o Comitê Nacional dos democratas.

Sanders e Buttigieg iniciam esta segunda etapa como os principais alvos do debate por causa do destaque que tiveram em Iowa. 

A recontagem será marcada por mais celeumas e dúvidas entre os dois campos ideológicos que disputam um cabo de guerra dentro do Partido Democrata: a ala mais radical e progressista, à esquerda, representada por Bernie Sanders, e os reformadores e centristas, cujo candidato favorito era Joe Biden, mas que viram em  Pete Buttigieg uma alternativa.

Pesadelo democrata em Iowa

As prévias democratas de Iowa, pontapé inicial para a escolha do candidato à Casa Branca, tornaram-se um pesadelo para o partido e colocaram em dúvida o sistema eleitoral americano como um todo. A apuração de 170 mil votos demorou mais de três dias para terminar.

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Segundo análise de ontem publicada pelo New York Times, mais de 100 distritos relataram resultados inconsistentes ou discrepâncias entre número de votos e delegados eleitos. 

O presidente do Comitê Nacional Democrata (DNC), Tom Perez, perdeu a paciência e pediu a revisão dos resultados da votação em Iowa. “Basta. Para garantir a confiança das pessoas nos resultados, peço ao Partido Democrata de Iowa para começar imediatamente uma revisão”, disse. 

Segundo dirigentes nacionais do partido, a revisão não seria uma recontagem completa, mas um pente-fino nas atas das seções, formulários e resultados tabulados à mão. Já o diretório estadual de Iowa respondeu, dizendo que está preparado para o trabalho, mas apenas caso algum candidato solicite a revisão.

As prévias de Iowa não foram vítimas de hackers ou qualquer tipo de fraude intencional. O problema central foi no aplicativo usado para transmitir os dados. O software, que não havia sido testado de maneira adequada, gravava os resultados corretamente, mas transmitia números diferentes para a central do partido – segundo funcionários, em razão de um “erro de programação”. 

A Veracode, empresa de segurança de Massachusetts, divulgou ontem o resultado de uma análise do aplicativo a pedido do site de jornalismo investigativo ProPublica. A conclusão foi que o software não tinha mecanismos básicos de proteção de transmissão, o que permite que os dados sejam interceptados e até alterados. 

O naufrágio dos democratas de Iowa levou o professor Zeynep Tufekci, especializado em tecnologia digital, da Universidade da Carolina do Norte, a escrever um artigo na revista The Atlantic intitulado “Quem precisa dos russos?”.

Scott Rosenberg, editor de tecnologia do site Axios, também criticou o desastre tecnológico de Iowa no momento em que os EUA lutam para passar uma imagem de estabilidade e confiança no sistema eleitoral, que vem sendo questionado desde 2016, quando os russos invadiram servidores do Partido Democrata e montaram uma rede de perfis falsos para influenciar o resultado da eleição. 

Falta de centralização na apuração

Para complicar ainda mais, os americanos não têm um órgão eleitoral centralizado, como o TSE no Brasil. Nos EUA, são mais de 3 mil condados, cada um utilizando um sistema diferente e reportando os resultados para 50 órgãos estaduais que trabalham também de maneira independente. 

Alguns especialistas, como David Becker, diretor do Centro de Pesquisa e Inovação Eleitoral, veem nisso uma vantagem. “O fato de serem milhares de eleições nos dá certa proteção contra ciberataques, porque é muito difícil hackear 8 mil sistemas diferentes”, disse.

Outros, no entanto, enxergam na descentralização um problema. Bruce Schneier, da Harvard Kennedy School, afirma que os órgãos locais estão menos aparelhados para enfrentar ameaças externas. “Rússia contra Louisiana não é uma briga justa”, disse.

“Nos EUA, existem muitos tipos diferentes de urnas, cédulas e máquinas empregadas em cada um dos Estados. E não há um esforço nacional conjunto para remediar essas questões”, disse o analista Colton Carpenter, na Harvard Political Review. “Isso significa que, em vez de termos 50 Estados trabalhando juntos para criar uma eleição nacional segura, os EUA têm 50 Estados trabalhando separadamente para criar 50 eleições seguras. Se um Estado falha, as eleições estão comprometidas.”

Em New Hampshire, os olhos estarão voltados para os principais candidatos que saíram derrotados de Iowa, principalmente o ex-vice-presidente Joe Biden e a senadora Elizabeth Warren de Massachusetts. O bilionário Michael Bloomberg, que tem colocado seu dinheiro em anúncios no Super Bowl e numa máquina de campanha para derrotar os favoritos, não vai participar.

As apostas são particularmente altas semana para Biden, que estava na frente em praticamente todos os sete debates anteriores, mas deixou Iowa em quarto lugar distante. Embora a denúncia de irregularidades tenha atenuado o impacto do concurso em Iowa, a fraqueza de Biden abalou os apoiadores que o encorajaram a tomar uma atitude agressiva na noite de sexta-feira.

Um dos mais proeminentes apoiadores de Biden em New Hampshire, o democrata Jim Demers, disse que este é o momento de lutar. "As pessoas querem ver o fogo, querem ver brigas e querem ver as diferenças", afirmou./ AP, AFP e NYT

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